O cheiro de café que Mariana sentiu ao entrar no apartamento não era um convite, era um aviso. Ela caminhou pela sala, vendo os estilhaços do vaso que ela mesma destruíra na noite anterior. O silêncio era tão pesado que ela conseguia ouvir a própria respiração curta.
— Ele ainda está dormindo? — A voz de Júlio veio da varanda, sombria e contida.
Mariana travou. Ela não esperava que Júlio estivesse acordado. Ele estava sentado em uma das cadeiras de vime, com os olhos fixos no horizonte de Madrid, mas sua postura era de um animal pronto para o bote.
— Eu... eu precisei sair. Precisava respirar — Mariana mentiu, a voz falhando.
— Precisou sair ou precisou fugir? — Júlio se levantou e caminhou até ela. — O Valério está apagado no sofá. Ele não acorda, Mariana. O que você deu para ele?
O pânico subiu pela garganta de Mari.
— Foram só algumas gotas... ele não me deixava sair, estava me sufocando com aquelas histórias de hospital, de morte... Eu não queria ouvir!
Júlio parou a centímetros dela. Ao contrário de Valério, que era a lei e a lógica, Júlio era o fogo.
— Você dopou o seu irmão, Mariana. O homem que cruzou o oceano porque não aguentava mais ver a Maria chorar de saudade sua. Você tem noção do quanto é egoísta?
— Egoísta? — Mari explodiu, o álcool ainda turvando seu juízo. — Vocês dois aparecem aqui, destroem minha sala, dizem que vão vender a casa do papai e eu sou a egoísta? Vocês roubaram a minha irmã! Transformaram a Maria em um objeto de vocês!
O estalo do soco que Júlio deu na parede, ao lado da cabeça de Mariana, ecoou pelo apartamento. Ela estremeceu, mas não recuou.
— A Maria quase morreu — Júlio sibilou, os olhos vermelhos. — Enquanto você bebia cerveja em Madrid e fingia que não tinha família, nós estávamos lá. Nós limpamos o sangue dela. Nós seguramos a mão dela nos ataques de pânico. Se ela está com a gente, é porque nós a amamos de um jeito que você, com todo esse seu orgulho, nunca vai entender.
Mariana abriu a boca para retrucar, mas o som de um gemido vindo do sofá interrompeu a briga. Valério estava acordando, a mão na cabeça, o rosto pálido.
— Mariana... — Valério murmurou, a voz arrastada. — O que... o que você fez?
Antes que Mariana pudesse responder, o celular de Júlio, em cima da mesa, começou a vibrar freneticamente. Era uma chamada de vídeo. Maria.
Júlio atendeu no automático, mas o que viram na tela não foi o sorriso doce de Maria. Ela estava sentada no chão, os cabelos desgrenhados, o rosto inchado de tanto chorar. Ela segurava Sirius nos braços, balançando o corpo para frente e para trás.
— Ele se foi... — Maria soluçou, a voz saindo como um sussurro rasgado. — O Sirius me deixou, Júlio. Eu estou sozinha. Está todo mundo me deixando.
O silêncio no apartamento em Madrid foi absoluto. A fúria de Júlio evaporou, substituída por uma dor aguda. Valério, ainda zonzo, tentou se levantar, mas caiu de volta no sofá ao ver a imagem da esposa destruída.
Mariana deu um passo à frente, os olhos fixos na tela. Ver a irmã naquele estado, abraçada ao cachorro morto, quebrou a última barreira de gelo em seu coração. A culpa, que antes era uma onda, agora era um oceano.
— Maria... — Mariana sussurrou, a voz embargada.
Maria levantou os olhos para a câmera. Ao ver o rosto de Mariana, algo mudou em sua expressão. Não era raiva. Era uma exaustão profunda.
— Você venceu, Mari — Maria disse, as lágrimas escorrendo sem parar. — Eu não tenho mais força para lutar por você. O Sirius morreu. A nossa casa vai ser vendida. Se você queria que eu não tivesse mais nada do nosso passado, você conseguiu.
A ligação caiu.
Mariana olhou para as próprias mãos, trêmulas. Ela olhou para os irmãos, que agora a encaravam não com raiva, mas com uma decepção que doía muito mais.
— Eu vou para o Brasil — Mariana disse, a voz firme pela primeira vez em anos. — Eu vou com vocês.
— Para quê? — Júlio perguntou, pegando sua mala. — Para terminar de destruir o que sobrou dela?
— Não — Mari limpou as lágrimas com as costas da mão. — Para impedir que ela se sinta sozinha de novo.
Os irmãos trocaram olhares em dúvida, Mariana voltar para o Brasil poderia ser uma benção ou um erro. Porém, era como se os gêmeos pudessem ler a mente um do outro. Ambos tinham uma única convicção. Deveriam voltar o mais rápido possível antes que fosse tarde demais para Maria, eles não poderiam arriscar que ela tivesse uma recaída nas crises. Não era uma opção.
- Ok, vá arrumar suas malas. - Júlio concordou...