O Aeroporto Internacional de Belém não recebia Mariana com a sofisticação fria de Barajas, mas com um abraço úmido e quente que cheirava a chuva e terra. Assim que as portas automáticas se abriram, o bafo do "sol para cada habitante" a atingiu em cheio, trazendo memórias que ela tentara deletar por meia década.
Ao seu lado, Valério e Júlio caminhavam em silêncio. Valério ainda mantinha uma distância polida; a mandíbula travada era o único sinal de que ele ainda não havia perdoado Mariana por ter sido dopado. Júlio, por outro lado, parecia uma corda de violino prestes a arrebentar, os olhos escaneando a saída em busca do carro que os levaria para casa.
— Eu esqueci como o ar aqui é pesado — sussurrou Mariana, tentando quebrar o gelo.
— O ar é o de menos, Mariana — Júlio respondeu sem olhar para ela. — O pesado é o que nos espera naquela casa.
...
O trajeto do aeroporto não terminou no burburinho do centro de Belém, mas seguiu em direção ao afastado, onde a cidade silencia para dar lugar ao som do rio-mar. Quando o carro finalmente parou diante de um portão discreto, mas imponente, Mariana sentiu o impacto da mudança. Aquela não era a casa de Camilo. Não havia o peso do mármore antigo ou a sombra das árvores centenárias que guardavam segredos dolorosos.
Assim que o portão se abriu, a visão tirou o fôlego de Mariana. A casa era moderna, de linhas leves e muito vidro, projetada para deixar a luz entrar. Mas o que realmente prendia o olhar era o quintal: uma extensão infinita de areia branca que se fundia com as águas calmas da baía. O "quintal" deles era, literalmente, a praia.
— Vocês moram... aqui? — Mariana murmurou, chocada com o contraste.
— Maria precisava de horizonte, Mari — Valério respondeu, a voz ainda cansada. — Paredes demais faziam ela se sentir encurralada.
Eles caminharam pela lateral da casa, e Mariana percebeu o toque da irmã em cada detalhe. O jardim que cercava a construção era uma obra de arte viva. Não eram apenas plantas; eram suculentas raras, orquídeas presas nos troncos e flores tropicais que explodiam em cores vibrantes. Maria não apenas cultivava um jardim; ela havia criado um ecossistema de paz.
No entanto, a beleza do lugar contrastava com a cena desoladora que encontraram perto da linha onde a grama encontrava a areia.
Sob a sombra de um cajueiro jovem, Maria estava de joelhos. Ela não usava sapatos, e suas mãos estavam mergulhadas na terra preta que ela mesma trouxera para fortalecer o solo arenoso. À sua frente, um pequeno monte de terra fresca marcava o lugar onde Sirius agora descansava.
— Maria... — O chamado de Júlio foi quase um suspiro.
Maria se virou. O vento da praia bagunçava seus cabelos, e o rosto, antes tão focado na tarefa, desmoronou ao ver os maridos. Ela não disse nada, apenas estendeu os braços sujos de terra. Júlio e Valério correram até ela, ajoelhando-se na areia, envolvendo-a em um abraço que parecia tentar colar os pedaços de sua alma.
Mariana ficou estática, a poucos metros de distância. O som das ondas quebrando suavemente na areia era a única trilha sonora para o choro abafado da irmã. Ela olhou para a casa, para o jardim impecável e para a praia que servia de moldura para aquela dor. Percebeu que Maria havia construído um paraíso para tentar esquecer o inferno, mas que nem mesmo a beleza daquele lugar podia protegê-la da perda.
Vagarosamente, Maria se soltou do abraço e fixou os olhos em Mariana. O sol poente refletia na água atrás dela, criando uma aura dourada que fazia a irmã parecer frágil e divina ao mesmo tempo.
— Você veio para o meu refúgio — Maria disse, a voz rouca, carregada de uma exaustão que Madrid nunca permitiu que Mariana entendesse.
— Eu não sabia que vocês tinham criado tudo isso — Mariana respondeu, os olhos marejados. — É lindo, Maria.
— É o meu mundo — Maria levantou-se com dificuldade, recusando a ajuda dos maridos por um breve segundo para mostrar que ainda conseguia ficar de pé. — Aqui não entram estranhos, Mari. Não entram sombras. Só entra quem eu amo.
Ela caminhou até Mariana e, sem se importar com a sujeira, tocou o rosto da irmã. O cheiro de Maria era uma mistura de maresia, terra e jasmim.
— Sirius esperou eu chegar da clínica para morrer aqui, olhando para esse rio. Ele sabia que eu estaria segura. Agora que você chegou, sinto que o círculo se fechou.
O abraço que trocaram foi diferente de todos os outros. Não havia a rigidez do preconceito de Mariana ou a defensiva de Maria. Havia apenas o som do mar e a aceitação de que, naquele pedaço de terra e areia, elas teriam que aprender a ser irmãs novamente.
Ao longe, o celular de Mariana vibrou no bolso com uma notificação de Juan, mas pela primeira vez, ela não sentiu pressa em olhar. O horizonte de Maria era grande demais para que ela continuasse focada no próprio pequeno mundo de mágoas.