A noite em Mosqueiro não trazia o descanso que Mariana buscava quando decidiu, por conta própria, atravessar o oceano. O som das ondas de água doce batendo no muro de arrimo era constante, um lembrete rítmico de que ela agora estava exatamente onde escolhera estar: no epicentro de tudo o que tentou deixar para trás.
Ela estava deitada na cama do quarto que Maria preparou com um cuidado minucioso. As paredes tinham o tom exato de azul que Mariana gostava, e o perfume de baunilha das velas — um detalhe que ela nem lembrava ter mencionado um dia — flutuava no ar. Maria tentara recriar um porto seguro, uma oferta de paz silenciosa em cada detalhe, na esperança de que Mariana finalmente baixasse a guarda e aceitasse que ali era o seu lugar. Mas, apesar de ter vindo por vontade própria, Mariana sentia-se uma intrusa em um santuário de vidro.
Sem conseguir pregar o olho, ela levantou-se e caminhou descalça pelo corredor de madeira. A casa era um reflexo da necessidade de Maria por ordem e isolamento: tudo estava no lugar, sem a interferência de estranhos. Ao chegar à sala de vidro, viu a silhueta de Valério na varanda. Ele estava de costas, observando a imensidão escura da baía. Ele não precisou de se virar para saber que ela estava ali.
— Você não vai conseguir dormir enquanto não parar de lutar contra esta casa, Mariana — a voz de Valério soou baixa, mas com aquela autoridade impecável e fria que ele sempre usou para orientá-la, desde que ela era uma menina. O português dele era perfeito, polido pela educação rigorosa que recebera no exterior, tornando a sua presença ainda mais esmagadora.
Mariana parou, sentindo o peso daquela postura.
— O barulho do rio é alto demais. É... persistente.
Valério finalmente virou-se. A luz da lua marcava os traços fortes do seu rosto. Ele observou-a por um momento, e o brilho nos seus olhos não era de ameaça, mas de uma seriedade profunda, quase paternal.
— O rio só incomoda quem carrega algo que não consegue deixar afundar. A Maria já dormiu; o Júlio está com ela. Ela esgotou-se tentando deixar tudo perfeito para você, Mari. Você tem noção do quanto ela se desgasta para garantir que você se sinta em casa, enquanto ainda lida com o próprio luto?
Mariana engoliu em seco. A arrogância natural de Valério estava lá, mas havia uma camada de zelo que ela reconhecia.
— Eu decidi vir para ver como ela estava. Não imaginei que encontraria... tudo tão mudado.
— Você veio porque sabia que não podia fugir para sempre, e nós ficamos felizes por isso, embora você não facilite as coisas — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Você nos ataca, rotula a Maria como doente, mas escolheu estar aqui. Sabe porquê? Porque, no fundo, você sabe que este é o único lugar onde você está realmente segura. O Camilo deu a proteção necessária enquanto foi vivo, mas agora essa tarefa é nossa.
Valério aproximou-se e, por um breve segundo, a dureza no seu rosto fraquejou, revelando o homem que a viu crescer.
— Nós cuidamos para que o seu passado permaneça enterrado não só pela Maria, mas por você também, pirralha. Você não suportaria as consequências, e nós não suportaríamos ver você passar por elas. O que aconteceu naquela noite morre com a gente.
Mariana sentiu o golpe antes mesmo de processar as palavras. Foi como se o chão sob os seus pés tivesse desaparecido. O som das ondas de Mosqueiro tornou-se um zumbido ensurdecedor. O ar travou nos seus pulmões e ela precisou de agarrar o corrimão da varanda para não cair. O choque não veio apenas pelo facto de ele saber; veio pela forma como ele disse: sem nojo, sem acusação, mas com uma possessividade fraternal que a esmagava.
— Você... — a voz dela saiu esganiçada, um fiapo de som. — Vocês sabem? Desde quando?
— Não importa desde quando, Mari — Valério respondeu, a voz mantendo uma calma gélida. — O que importa é que o Camilo moveu céus e terra para que ninguém encontrasse aquele carro, e nós movemos o resto para que ninguém encontrasse o que sobrou do homem.
Mariana fechou os olhos com força, mas a imagem daquela noite — o impacto, o pânico — brilhou por trás das suas pálpebras. Ela sempre se sentira superior aos gémeos, mas agora a verdade a atingia: ela era uma assassina protegida por aqueles que jurara desprezar.
— Por que nunca disseram nada? — ela sussurrou, tremendo. — Por que me deixaram acreditar que eu tinha fugido ilesa?
Valério estendeu a mão e tocou o ombro dela, um aperto firme que a trouxe de volta à realidade.
— Porque família não entrega o pescoço um do outro, Mariana. A Maria é a nossa vida, e você é a nossa irmãzinha. Se para manter a paz de vocês duas nós tivermos que carregar esse peso pelo resto da vida, nós o faremos. Mas entenda de uma vez: nós não guardamos esse segredo "apesar" de você, mas "por" você.
Ele soltou o ombro dela, deixando o calor do toque marcado na pele fria de Mariana, e entrou na casa sem olhar para trás.
Sozinha na varanda, Mariana olhou para as próprias mãos sob o luar de Mosqueiro. Elas tremiam incontrolavelmente. O quarto azul, as velas de baunilha, o jardim impecável da Maria... tudo aquilo não era apenas um agrado. Era uma fortaleza. E ela acabara de perceber que as chaves daquela fortaleza estavam nas mãos dos dois homens que ela tentou odiar, mas que eram os únicos que conheciam o seu verdadeiro rosto — e, mesmo assim, escolheram amá-la.
O celular no bolso do seu moletom vibrou. Era Juan.
Juan: "Madrid está cinzenta hoje. Senti falta do teu sarcasmo no balcão. Diz-me uma coisa, Mari... as águas aí no Brasil conseguem lavar o que a gente tenta esconder, ou elas só refletem o que a gente tem medo de ver?"
Mariana apertou o aparelho contra o peito, as primeiras lágrimas quentes finalmente transbordando. Ela olhou para a imensidão escura da baía e soube que, em Mosqueiro, não existia lavagem. Só existia a maré, trazendo de volta, vez após vez, tudo o que ela desejou que estivesse morto.