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1006 Palavras
O despertador tocou às seis da manhã. Em Mosqueiro, esse era o momento em que a luz do sol começava a filtrar pelas frestas das cortinas de linho, pintando o quarto de um dourado pálido. Mariana rolou na cama, sentindo o conforto dos lençóis de fios egípcios, mas o som da casa já indicava que o dia estava em pleno movimento. Ela ainda estava processando a conversa da noite anterior; as palavras de Valério sobre o "segredo" flutuavam na sua mente como névoa sobre o rio. Ela levantou-se e caminhou até à cozinha. Encontrou Júlio e Valério terminando de tomar café, já impecáveis nos seus ternos sob medida. Mesmo naquela hora, a postura deles era de um rigor absoluto, um contraste gritante com a calmaria da ilha que se estendia além das janelas de vidro. Maria estava ali, em silêncio, servindo-os com a naturalidade de quem conhece cada preferência deles. — Vocês saem agora? — Mariana perguntou, encostando-se ao balcão e observando os dois. — Pensei que, com carros próprios e cargos de chefia, poderiam dar-se ao luxo de dormir um pouco mais. Valério pousou a xícara de porcelana com delicadeza e olhou para Mariana. O seu português era límpido, polido, denotando o controle que exercia sobre tudo ao seu redor. — Poderíamos, Mariana. Mas morar em Mosqueiro exige estratégia, não apenas conforto. Se sairmos agora, cruzamos a barreira antes que o fluxo de entrada em Belém se torne um teste de paciência. Prefiro passar essas duas horas ouvindo as notícias do mercado financeiro no som do carro do que parado num engarrafamento na rodovia. Além disso, chegar cedo permite-me sair mais cedo. Júlio assentiu, conferindo as chaves do carro. — O banco não abre para o público agora, mas as decisões importantes são tomadas antes da primeira senha ser chamada. E, sendo honesto, quanto antes começarmos, mais rápido voltamos para o que realmente importa: a nossa casa. Ele caminhou até Maria e envolveu-a num abraço. Não era um gesto apressado; era um momento de ancoragem. Júlio enterrou o rosto no pescoço dela, inspirando o perfume de jasmim que Maria exalava. — Se sentir qualquer desconforto, ligue imediatamente. A Mariana está aqui, mas eu quero ser o primeiro a saber se você precisar de algo. Valério aproximou-se em seguida, depositando um beijo casto na testa de Maria, mas com um olhar que dizia muito mais. Em poucos minutos, o som dos motores potentes dos dois carros ecoou pelo cascalho da entrada. Mariana viu, pela janela, os veículos pretos e brilhantes sumirem na estrada em direção à ponte. O silêncio que sobrou foi denso. Mariana olhou para a irmã, que agora recolhia as xícaras com uma calma ritualística. Naquela casa, o silêncio não era falta de som, era a presença constante da ausência deles. — É uma viagem longa para se fazer todo o dia, mesmo em carros bons — comentou Mariana. — Eles vivem na estrada por ti, Maria. Maria parou o que estava fazendo e olhou para o horizonte, onde o rio e o céu pareciam um só. — Eles dizem que a estrada é o preço que pagam para ter esse horizonte. Para eles, atravessar a ponte de Mosqueiro de volta para casa é como deixar todo o lixo do mundo para trás. Mariana caminhou até à irmã, observando a serenidade triste no rosto dela. Queria contar a verdade. Queria dizer que os gémeos não a protegiam apenas por amor à Maria, mas porque eram os guardiões do seu próprio crime. Mas o segredo pesou na sua língua. — Vou para o jardim — Maria anunciou. — As gardénias precisam de cuidado. O Sirius adorava dormir ali, bem em cima da raiz da planta... parecia que ele sentia a energia da terra. — Espera, Maria — Mariana chamou, seguindo a irmã até ao quintal. — Deixa que eu te ajudo com isso. Maria parou e olhou para as mãos da irmã caçula, dando um sorriso fraco, mas decidido, enquanto balançava a cabeça negativamente. — Nem pensar, Mari. Você sabe muito bem que não tem boas mãos para mexer com as plantas. Se encostar nelas, capaz de murcharem até amanhã. Vá descansar, eu prefiro cuidar delas sozinha. Mariana arqueou as sobrancelhas e fez um bico de falsa indignação, cruzando os braços sobre o peito. — Nossa, Maria! Eu atravesso o oceano para te ver, tento ser uma irmã prestativa e é assim que você me trata? Rejeitando minha ajuda? — O tom era de pura mágoa teatral. — Tudo bem, então. Fique aí com a sua terra. Vou ver se encontro algo mais "seguro" para encostar nesta casa. Ela deu as costas com um movimento dramático e caminhou de volta para a varanda, mas assim que entrou na sala de vidro, longe do olhar de Maria, o bico desapareceu instantaneamente. Mariana soltou um suspiro de alívio e olhou para as próprias unhas impecáveis. Ter "mãos ruins para plantas" era, na verdade, a sua maior sorte; ela detestava a sensação de terra debaixo das unhas. Mariana sentou-se numa das poltronas e pegou no celular. Havia uma mensagem de Juan. Juan: "Ainda não me disseste como foi a tua primeira noite. O silêncio daí já te deixou com saudades do barulho do meu balcão ou finalmente encontraste a paz que tanto procuravas, Mari?" Ela sorriu para a tela e respondeu rapidamente. Mariana: "A paz aqui é relativa, Juan. Minha irmã acha que eu sou uma assassina de plantas e expulsou-me do jardim. Estou aqui, 'sofrendo' no ar-condicionado enquanto olho para o rio. Acho que prefiro o barulho do teu balcão e um gim-tónica bem forte." Ela bloqueou a tela e ficou observando Maria lá fora, agachada entre as gardénias. A liberdade de não ajudar no jardim deu a Mariana o que ela mais temia: tempo para pensar. Pensar no Valério, no tom de voz impecável dele ao revelar que sabia de tudo, e no facto de que, naquela ilha, o luxo era apenas a moldura de um segredo que nenhum adubo no mundo seria capaz de esconder.
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