O sol já tinha mergulhado completamente na baía quando os faróis dos carros cortaram a escuridão do jardim. Mariana, que passara boa parte da tarde na varanda observando o movimento das águas e o trabalho silencioso de Maria, sentiu a atmosfera da casa mudar instantaneamente. O silêncio quase sagrado que Maria mantinha foi quebrado pelo som das portas se fechando e o cascalho estalando sob os pneus.
Júlio e Valério entraram na sala com o cansaço estampado no rosto, mas a postura continuava a mesma. Maria, que passou o dia quase em transe entre suas plantas e memórias, pareceu despertar. Ela foi ao encontro deles com um sorriso que Mariana não via há anos — um brilho de completude que, por um instante, a fez se sentir uma peça fora do lugar.
— Como foi o dia de vocês? — Valério perguntou, a voz um pouco mais rouca pelo cansaço, enquanto recebia o carinho de Maria.
Ele olhou para Mariana, que continuava sentada no canto do sofá.
— Foi... calmo — Maria respondeu, voltando a atenção para a cozinha. — A Mari tentou ajudar no jardim, mas você sabe como as mãos dela são.
Júlio soltou um riso curto, afrouxando o nó da gravata.
— Imagino. Mariana e terra nunca foram uma combinação muito harmoniosa.
O jantar foi servido logo em seguida. A mesa estava farta, como se Maria estivesse compensando o isolamento com comida. Enquanto comiam, o interrogatório suave começou. Eles queriam saber os detalhes. Se Mariana tinha se adaptado ao calor de Mosqueiro, se a casa estava confortável, se Maria tinha se alimentado direito.
— E Madrid? — Júlio lançou a pergunta de forma casual, mas seus olhos estavam atentos. — O celular não parou de vibrar na mesa da sala. Alguma pendência urgente ou os amigos de lá não entenderam que você tirou férias por tempo indeterminado?
Mariana sentiu o peso do olhar dos dois. Ela lembrou das mensagens de Juan, que ainda não tinha respondido.
— É só o Juan — ela disse, tentando parecer indiferente. — Ele é um intrometido. Não entende que eu não estou a fim de conversa.
— O espanhol? — Valério arqueou uma sobrancelha. — Ele parece ser bastante persistente para alguém que você diz não suportar.
— Ele é chato — Mariana resumiu, cortando o assunto.
Ela não sabia explicar o porquê de não ter bloqueado Juan ainda, e muito menos queria discutir isso com os gêmeos. A verdade é que a insistência dele era o único fio que a ligava ao mundo real, fora daquela bolha de perfeição em que Maria vivia.
O jantar continuou com conversas triviais sobre o banco e o escritório, mas a sensação de ser observada não abandonou Mariana. Ela percebeu que, em Mosqueiro, Maria não era mais a única sob a vigilância constante daqueles dois. Eles agora tentavam mapear cada passo dela, cada mensagem recebida, como se tentassem entender onde a "irmãzinha" se encaixava naquele novo mundo que eles construíram.
Ao final da noite, cada um seguiu para o seu quarto. Mariana deitou-se, ouvindo o som distante de uma lancha cruzando o rio. O celular brilhou uma última vez.
Juan: "Espero que o silêncio não tenha te engolido ainda, Mari."
Ela encarou a tela por um longo tempo antes de apagá-la, não compreendia razão do homem continuar mandando mensagem como se fossem grandes amigos. E daí que ele ajudou ela algumas vezes? Isso não significa que são melhores amigos, ela odeia homens, não os quer nem como amigos. Ela focou no que realmente importa, estava na casa da irmã, cercada de luxo e proteção, mas, pela primeira vez, sentiu que o silêncio de Mosqueiro começava a pesar mais do que o barulho de qualquer bar em Madrid.