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1425 Palavras
A manhã em Mosqueiro tinha um ritmo próprio, uma lentidão que parecia proposital. Com a partida dos gêmeos para Belém, a casa mergulhava em um vazio preenchido apenas pelo som do rio e pelo vento que balançava as copas das mangueiras. Mariana vagava pelos cômodos, os pés descalços sentindo o toque frio do piso. Ela se sentia deslocada; não havia ali nenhuma memória de infância para se apoiar. Aquele era o santuário que os três haviam construído enquanto ela estava longe, um mundo do qual ela não fazia parte e que ainda parecia um cenário de filme. Ela observava Maria de longe. A irmã se movimentava pela casa com uma calma quase etérea, mas Mariana percebia a estratégia por trás daquela distância. Maria não a sufocava; era um distanciamento respeitoso para não "forçar a barra". Mariana, porém, sentia o peso daquela redoma. Ela queria proteger a irmã das próprias dores, mas Maria parecia estar protegendo a todos, inclusive a si mesma, de um colapso. O que mais a angustiava era a vigilância silenciosa. Mariana temia que a perda de Sirius fosse o prelúdio de uma crise. O cachorro de três patas era o companheiro que Maria tanto exibia nas chamadas de vídeo para Madrid, e olhar para o canto vazio da sala onde ele costumava dormir trazia um aperto no peito que Mariana não sabia como nomear. Perto do meio-dia, o calor tornou-se opressor. Mariana encontrou Maria na varanda dos fundos, com o olhar perdido no horizonte. — É estranho não ver ele correndo por aqui — Mariana disse, sentando-se no degrau abaixo da irmã. — Eu me acostumei a ver ele pulando no seu colo pelo celular. Maria soltou um riso triste. — Sirius sentia quando você estava na linha, Mari. Agora o silêncio parece maior. Mariana engoliu em seco, sentindo a culpa pesar. — Maria... me desculpa. Por não ter vindo antes. Eu passei anos sendo teimosa, julgando você e os meninos... e acabei nunca conhecendo o "pestinha" pessoalmente. Eu devia ter vindo ver aquele vira-lata de três patas correr de perto, em vez de só olhar por uma tela. Maria olhou para a irmã com um brilho de perdão. — Ele não guardava mágoas, Mari. E eu também não. O importante é que você está aqui agora. Sirius me manteve inteira até você chegar. Mariana tocou o joelho da irmã de leve. — Eu só quero que você fique bem. — Eu vou ficar — Maria suspirou e olhou de soslaio para Mariana. — E falando em Madrid... o Juan mandou mais alguma mensagem? Ele não me pareceu chato naquela vídeo chamada. Ele parecia ser a única pessoa capaz de te fazer sorrir naquele balcão. Ele tem olhos bons. Mariana tencionou os ombros e desviou o olhar para o rio, a voz saindo cortante. — Ele não é ninguém importante, Maria. Esqueça que falou com ele por vídeo chamada quando eu estava bêbada. Foi um erro, só isso. Maria percebeu o tom defensivo da irmã, mas decidiu não pressionar. Ela sabia que Mariana usava o sarcasmo e a negação como armas de defesa. O silêncio voltou a reinar, mas desta vez mais pesado, até que Mariana resolveu tocar na ferida que sentia pulsar na irmã. — Mas e você? E os gêmeos? Na nossa última conversa... você mencionou que eles queriam ser pais. Como está isso? O rosto de Maria suavizou-se, mas uma sombra de angústia cruzou seu olhar. Ela apertou as mãos contra o tecido do vestido, os olhos fixos na água turva. — Eles querem muito, Mari. O Júlio fala nisso quase todo dia. Mas eu... eu tenho um medo que me sufoca. — Medo de quê? — Mariana perguntou baixo. — Medo de ser como ela — a voz de Maria saiu trêmula. — Tenho pavor de ser como a nossa mãe. Ela nos abandonou, Mariana. Ela nos deixou sozinhas com aquele homem que deveria ter nos protegido e nos destruiu. E se esse sangue for r**m? E se eu não souber ser mãe porque a única referência que eu tive foi uma mulher que fugiu e nos largou no inferno? Mariana ficou em silêncio, o impacto daquelas palavras reverberando na varanda. Maria não tinha medo da maternidade em si, mas do fantasma da herança genética. — Você não é ela, Maria — Mariana disse com firmeza, segurando a mão da irmã. — Você cuidou de mim a vida toda. Você foi a minha mãe quando a gente não tinha ninguém. Maria olhou para a irmã, os olhos cheios de lágrimas. — Eu cuidei porque eu precisava que você sobrevivesse, Mari. Mas criar um filho... é outra coisa. Eu tenho medo de falhar e o ciclo se repetir. Mariana não respondeu. Pela primeira vez, ela percebeu que a fortaleza que Maria construiu em Mosqueiro era feita de vidros muito finos. A irmã não precisava apenas de proteção contra o luto do cachorro, mas de alguém que a ajudasse a enterrar o medo de ser o reflexo da mulher que as abandonou. *** ​Mariana se isolou no quarto assim que o sol começou a baixar, antes mesmo que o som dos motores anunciasse o retorno dos gêmeos. Ela não queria que eles vissem o tremor em suas mãos ou o rastro de fumaça que a conversa com Maria havia deixado. Trancou a porta e se jogou na cama, deixando que a penumbra do quarto a envolvesse. ​As palavras da irmã sobre a mãe — sobre o medo de ter "sangue r**m" — ainda ecoavam. Mariana olhou para o teto, mas o que viu foram as sombras do passado. Ela pensou na abnegação de Maria, uma devoção que beirava o martírio. Maria havia se submetido aos abusos daquele verme, ano após ano, servindo de escudo humano para que Mariana pudesse crescer "intocada". Maria acreditava que, se ela se entregasse ao sacrifício, o monstro ficaria satisfeito e nunca olharia para a caçula. ​— Mas ele olhou — Mariana sussurrou para o vazio, a voz embargada pelo ódio. ​A memória veio como uma lâmina quente. O cheiro de álcool barato e suor, o peso daquela mão imunda deslizando pelo seu corpo enquanto ela fingia dormir, paralisada pelo terror. Aquele verme maldito tinha chegado a tocá-la. Ele tinha quebrado a única promessa silenciosa que mantinha a sanidade de Maria. Só não tinha sido pior porque Maria, com aquele sexto sentido de proteção, acordou a tempo e o chamou da cozinha, inventando qualquer desculpa para tirá-lo dali. Foi naquela noite que os limites foram pulverizados; foi naquela noite que o destino dele foi selado. ​A dor física do trauma parecia pulsar em suas cicatrizes invisíveis. Mariana sentia asco. Asco do pai, asco da mãe que fugiu, asco de qualquer homem que ousasse olhar para ela com desejo. Sua vida amorosa com mulheres em Madrid era um reflexo disso: relacionamentos rápidos, sem profundidade, onde ela mantinha o controle absoluto para nunca mais se sentir uma presa. ​Foi então que o rosto de Juan surgiu em seus pensamentos, sem pedir licença. ​Ela buscou o asco. Procurou em cada canto da mente o motivo para sentir repulsa por ele, como sentia por todos os outros. Juan era homem, era insistente, era um estranho que sabia demais sobre ela. Pela lógica, ela deveria odiá-lo. Deveria ter bloqueado o número dele no primeiro "bom dia". ​Mas não conseguia. ​Por que o tom de voz dele não a fazia querer gritar? Por que a preocupação dele, mesmo sendo invasiva, não parecia uma tentativa de controle, mas uma âncora? Mariana lembrou-se dele no balcão, limpando um copo e ouvindo suas besteiras sem nunca tentar ultrapassar a barreira física que ela impunha a todos. Juan era o único que a via bêbada e vulnerável e, em vez de aproveitar, simplesmente a levava para casa e esperava ela entrar, garantindo que o mundo lá fora não a machucasse. ​"Ele não é ninguém importante", ela tinha dito para Maria. Mas, no silêncio daquele quarto em Mosqueiro, Mariana sabia que estava mentindo. O fato de não sentir o asco visceral que definia sua existência era, para ela, a coisa mais assustadora de todas. ​O celular vibrou na cabeceira. Ela não precisou olhar para saber quem era. Juan estava lá, um fantasma de Madrid tentando entrar na fortaleza de Mosqueiro. ​Mariana fechou os olhos com força. Ela queria proteger Maria de ser como a mãe, mas quem a protegeria de ser exatamente o que ela sempre jurou nunca ser: uma mulher que precisa de alguém?
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