Sienna - Primeiros Passos

1099 Palavras
Sienna O sol já tava alto quando a gente voltou da praia, mas eu m*l percebi o calor. Eu tava sentada atrás dele na moto, braços em volta da cintura dele, mãos dadas com as dele em cima da minha barriga. Silêncio doce. Nenhum dos dois falou nada a caminho de casa, mas não precisava. O beijo ainda tava na minha boca, quente, vivo, como se não tivesse acabado. Eu encostei a cabeça nas costas dele, sentindo o vento bagunçar meu cabelo, o cheiro de mar misturado com o perfume dele. Meu coração batia calmo, mas forte. Como se soubesse que algo mudou pra sempre. A gente começou a namorar? De verdade, eu não sei. Não foi dito com palavras, mas foi sentido. No beijo sóbrio, consciente, na forma como ele me olhou depois, como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo dele. E eu… eu deixei acontecer. Correspondi. Quis mais. Mas agora, subindo o morro, a dúvida religiosa voltou forte, como uma onda fria. É certo me envolver com um homem assim? Ele não é um homem temente a Deus. Ele manda num morro cheio de armas, tráfico, perigo. Ele é o oposto de tudo que me ensinaram na igreja, na juventude, na minha família. 1 Coríntios 15:33: "Não vos deixeis enganar: as más conversações corrompem os bons costumes" diz a Bíblia. Mas… eu sinto que Deus me colocou aqui. Aqui, nesse morro, nessa casa, do lado dele. Se não fosse plano dele, por que tudo conspirou pra eu acabar nos braços do Coroa? Por que o beijo dele faz eu me sentir tão viva, tão completa? Eu apertei mais os braços na cintura dele. Ele apertou minha mão de volta. Como se soubesse o que eu tava pensando. Chegamos em casa. Portão abrindo devagar, moto estacionando na garagem. Ele desceu primeiro, estendeu a mão pra me ajudar. Eu peguei, desci, tirei o capacete. Ele guardou os dois, olhou pra mim um segundo a mais. Sorriu de canto. — Vai tomar banho, Barbie. Eu preparo o café. Eu subi pro quarto ainda sentindo as pernas moles. Tomei banho rápido, água fria pra tentar acalmar o corpo que não parava de lembrar do beijo. Coloquei um vestidinho leve de verão, azul, cabelo solto secando natural. Desci. E lá estava ele. Na cozinha. Sem camisa (claro), de bermuda tactel, fazendo tapioca na chapa. Pão de queijo no forno, suco de laranja espremido na mesa, café passado. Ele virou quando me ouviu descer, sorriso lento aparecendo. — Bom dia de novo — falou, voz rouca. — Você… cozinhou? — perguntei, surpresa. — Cozinhei. Senta aí. Eu sentei. Ele serviu tudo pra mim primeiro: tapioca recheada de queijo, pão de queijo quentinho, suco. Sentou do meu lado, pegou café preto pra ele. A gente comeu em silêncio no começo, mas silêncio bom. Ele roçando o braço no meu de propósito, eu corando toda vez. — Gostou do passeio? — ele perguntou, olho brilhando malicioso. — Sim, a praia era perfeita — respondi, lembrando do beijo. — E você? — Claro, a boca mais doce... foi incrível. — ele respondeu, senti a mão dele subindo pro meu joelho por baixo da mesa, apertando de leve. Eu quase engasguei com o suco. Ele riu baixo. As filhas dele apareceram logo depois. Jordana primeiro, de pijama, cabelo bagunçado. — Bom dia, casalzinho! — gritou, já pegando pão de queijo da mesa. — Pai cozinhando? Isso é sinal do fim do mundo. Lohana veio atrás, mais quieta, mas sorrindo. — Tá rolando algo, né? Finalmente, hein? Eu já tava cansada de ver vocês dois se comendo com os olhos. Eu fiquei vermelha até a raiz do cabelo. Coroa só riu, pegou minha mão em cima da mesa, entrelaçou os dedos nos meus na frente delas. Marcando território. Mas também com carinho. As filhas trocaram olhar, zoaram mais um pouco (“ai que fofo”, “pai tá apaixonado”), mas dava pra ver que aprovavam. Jordana até piscou pra mim como quem diz “bem-vinda à família”. Depois do café, ele saiu pra resolver coisas no morro. Eu fiquei em casa, ajudando na limpeza, brincando com umas crianças da creche que vieram entregar desenhos com uma senhora simpática. Mas a cabeça não parava. Eu subi pro quarto à tarde, ajoelhei do lado da cama, orei de verdade. — Deus… me dá um sinal. É certo isso? Eu tô me afastando de Ti ou tô seguindo o plano que o Senhor tem pra mim? Eu sinto ele no coração, sinto que posso fazer diferença na vida dele… mas eu também sinto desejo. Desejo forte. Me ajuda a não pecar. Me ajuda a ser luz. Silêncio. Nenhum trovão, nenhuma voz do céu. Só paz. Uma paz estranha, como se Deus estivesse dizendo “confia”. O desejo e o carinho falaram mais alto que a dúvida. Eu levantei com o coração mais leve. O dia passou com mensagens dele no celular 📲 Coroa: Tô pensando em você loira. Volto cedo, pra ficar contigo. Quando ele chegou, trouxe flores lindas, que ele disse ter pego no morro mesmo — umas flores roxas que nascem nas pedras. Me deu sem graça, como se fosse a primeira vez na vida que fazia isso. — Pra você. Eu sorri tanto que doeu a bochecha. — Thank you… é lindo. A gente jantou junto, só nós dois. Ele cozinhou de novo — arroz, feijão, bife acebolado e batata frita que quase queimou. Conversamos sobre tudo e nada. Ele contou histórias do morro quando era moleque, eu contei da Gold Coast, das ondas gigantes, dos cultos na praia. Ele segurou minha mão a noite inteira. Beijou meus dedos. Beijou a palma da mão. Olhar pesado prometendo mais, mas respeitando meu tempo. Eu tava feliz. Feliz de verdade. Namorando o homem mais improvável do mundo. Sentindo que era certo, mesmo com a dúvida rondando no fundo. Aí, no fim da noite, quando eu tava no quarto arrumando roupa pro dia seguinte, o celular tocou. Ligação de vídeo. Meus pais. Eu atendi já com o coração apertado. — Hi, mum… dad… A cara deles apareceu na tela. Mamãe com olhos vermelhos, papai sério como nunca. — Sienna, querida… precisamos conversar. Sério. Sobre aquele homem que você está morando... Eu respirei fundo. Sentei na cama. — Okay… pode falar. Eu sabia que essa conversa ia ser difícil. Mas eu tava pronta pra defender o que eu sinto. Porque agora é real. É namoro. E eu não quero abrir mão. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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