Coroa - A Ligação

1333 Palavras
Coroa Eu tava no meu quarto, terminando de vestir uma regata preta depois do banho, quando ouvi a voz dela vindo do quarto. Baixa, nervosa, resmungando sozinha em inglês. Parei na porta, encostei quieto. Ela tava no quarto dela, andando de um lado pro outro, celular tocando na mão, olhando pra tela como se fosse uma bomba prestes a explodir. Eu sabia o que era. Os pais dela. Ligação de vídeo. Desde a última vez que eu apareci no vídeo sem camisa, eles tavam loucos pra “conversar sério” com ela. Ela tava mordendo o lábio, respiração curta, mão tremendo um pouco. Nervosa pra c*****o. Eu senti um aperto no peito. Aperto de homem que quer proteger o que é seu. Não pensei duas vezes. Fiquei ali, esperando o momento certo pra entrar. O celular tocou mais uma vez. Chamada de vídeo. Ela atendeu, sentou na cama, tentou sorrir. — Hi, mum… dad… Eu ouvi a voz da mãe dela, aguda, preocupada. O pai mais firme no fundo. Eles começaram direto, sem rodeio. Tudo em inglês, claro, mas eu entendi o suficiente pelo tom e pelas palavras que conheço. — Sienna, querida… precisamos conversar. Sério. Sobre aquele homem que você está morando... — a mãe dela disse com preocupação. — Sim querida, precisamos esclarecer as coisas. — o pai dela disse sério. Ela se sentou na cama. — Okay… pode falar. — Sienna, meu amor, a gente tá pensando muito nisso. Por que você ainda tá morando aí? Com aquele homem tatuado? Não é seguro. A gente viu ele na última chamada… ele parece perigoso. Volta pra casa, por favor. — a mãe dela disse num tom preocupado e cauteloso. Ela respirou fundo, voz tremendo um pouco. — Mãe, pai… eu tô bem. Juro. Tô segura aqui. Ele cuida de mim. Eu decidi que era hora. Entrei no quarto sem bater, sem camisa de novo (bermuda tactel baixa mostrando a cueca, tatuagens à mostra, cabelo molhado). Sentei do lado dela na cama, corpo perto. Ela virou rápido, olho arregalado, mas não mandou eu sair. Pelo contrário, pareceu aliviada. Eu entrei no enquadro do vídeo. Os pais dela congelaram na tela. A mãe abriu a boca, o pai franziu a testa forte. — Boa tarde — falei, em português primeiro, depois repeti em inglês pra eles entenderem: — Good afternoon. A mãe dela gaguejou, em inglês: — Você… você é o homem da última chamada. Eu respondi calmo, traduzindo pra ela entender também: — Sou eu mesmo. O pai dela endureceu a voz, em inglês: — Moço, o que exatamente você tá fazendo com a nossa filha? Por que ela ainda tá morando na sua casa? Numa favela do Rio de Janeiro? Eu respirei fundo, mantive a calma. Firme, mas educado. Não ia brigar com os pais dela. Falei em inglês pra eles e pra Sienna não perder nada. — Senhor, senhora… eu cuido da Sienna desde o dia que ela chegou no morro. Ela foi abandonada na entrada, teve tiroteio, eu protegi. Trouxe pra cá porque é o lugar mais seguro pra ela agora. Eu não obrigo ela a nada. Ela fica porque quer. Porque sente que tem proteção aqui e também acha que tem uma missão em minha vida. A mãe dela quase chorou. — Missão? Sienna, isso não é mais missão. Isso é perigoso. Volta pra casa. A gente compra a passagem hoje. — a mãe dela me ignorou. Sienna olhou pra mim um segundo, pegou coragem. Mão dela veio pra cima da minha coxa, apertando de leve. Buscando apoio. — Mãe, pai… eu preciso contar uma coisa pra vocês. Eu… eu tô num relacionamento com o Rodrigo. A gente tá junto. Eu tô feliz aqui. Feliz de verdade. Eu sinto que esse é o caminho certo. Eu travei. Puta que pariu. Ela disse. Disse na frente dos pais dela. “A gente tá junto”. Namorando? Relacionamento? Eu passei a mão no cabelo, confuso pra c*****o. Só rolou beijo. Dois beijos, pra ser exato. Um bêbado que eu nem lembro direito, outro na praia hoje cedo. Carícias leves, mão na cintura, no rosto. Nada além disso. E ela já tá chamando de relacionamento? Ela acha mesmo que a gente tá namorando? Meu peito apertou forte. Parte feliz pra c*****o, parte assustado. Eu nunca namorei de verdade depois da mãe dos meus filhos. Nunca quis. E agora essa loira australiana, crente, pura, tá me colocando nesse lugar? Os pais dela ficaram em choque. A mãe levou a mão na boca, claramente sem acreditar. — Relacionamento? Com ele? Sienna, ele tem o dobro da tua idade! E mora num lugar perigoso! O pai dela reagiu. — Filha, pensa bem. Esse homem… o que ele faz da vida? Como ele vive? Sienna apertou minha mão. — Ele cuida da comunidade, pai. Protege as pessoas. Ajuda com comida, escola, tudo. Ele é um homem bom. Eu sei que é. Eu olhei pra ela. Olhei fixo. Ela me defendendo pros pais dela. Dizendo que eu sou bom. Meu peito inchou. Orgulho misturado com medo, pois eu sei que isso não é verdade. Eu entrei na conversa de novo, em inglês pra eles entenderem. — Senhor, eu respeito vocês. Respeito que são pais dela. Eu cuido da Sienna com a minha vida se for preciso. Ninguém toca nela. Ela tá segura aqui. E se um dia ela quiser ir embora, eu mesmo levo no aeroporto. Mas agora… ela quer ficar. A mãe dela chorou baixinho, completamente inconformada. — Promete que vai cuidar dela? — Prometo — respondi firme, e repeti em português pra ela ouvir: — Eu prometo. O pai dela olhou pra mim por muito tempo. — Se acontecer qualquer coisa com a minha filha… — Não vai acontecer — cortei ele rapidamente. A ligação durou mais um pouco. Eles tentaram convencer mais, mas cederam um pouco no final. “Liga todo dia”, “Manda foto”, “Se precisar, a gente manda passagem na hora”. Desligaram preocupados, mas menos histéricos. Ela jogou o celular na cama, respirou fundo, mão no peito. Eu puxei ela pro abraço. Abraço forte, corpo no meu colo, rosto no meu pescoço. — Tu foi f**a, Barbie — murmurei no cabelo dela. — Enfrentou teus pais por mim. Tô orgulhoso pra c*****o. Ela riu baixinho, voz tremendo ainda. — Eu falei a verdade. Eu tô feliz contigo. Eu levantei o rosto dela, beijei devagar. Beijo molhado, quente, língua entrando devagar. Mão na nuca dela, outra na cintura, apertando. Ela correspondeu na hora, mão no meu peito nu, dedos traçando as tatuagens. Eu desci a boca pro pescoço dela, beijei ali, mordi de leve, senti ela arrepiar inteira. Mão minha subindo pela coxa, por cima do vestido, apertando. Ela gemeu baixinho no meu ouvido. Eu endureci na hora, quadril se mexendo contra o dela sem querer. Mas parei. Respirei fundo, encostei a testa na dela. — Não agora — falei, voz falhada. — Não assim. Ela piscou, confusa. — Por quê? Eu passei a mão no cabelo de novo, pensamentos confusos pra c*****o. Porque eu não tenho certeza se quero um relacionamento sério. Porque eu sou o Coroa, c*****o. Eu mato, eu mando, eu vivo no fogo. Eu não sei mais ser um namorado de verdade. Não sei ser o cara que ela merece. Ela acha que a gente tá namorando, mas eu… eu só sei proteger, possuir, desejar. Amor? Relacionamento? Isso me assusta pra p***a. Mas eu não disse nada disso. — Porque eu quero fazer direito. Quando for a hora. Ela sorriu pequeno, beijou minha bochecha. — Tá bom… A gente ficou ali mais um pouco, abraçados. Eu sentindo o cheiro dela, o corpo macio, o coração batendo junto com o meu. Mas dentro de mim a confusão tava grande. Ela quer namoro. Eu quero ela. Mas será que eu consigo dar o que ela precisa? Ou vou acabar queimando os dois? ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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