Sienna - A Sombra do Passado

1285 Palavras
Sienna Eu passei o dia inteiro com a cabeça girando. Depois daquela ligação com os meus pais, depois de eu soltar que tô num relacionamento com o Rodrigo na frente deles, eu não consegui parar de pensar. Eu tava feliz, sim. Feliz porque defendi o que eu sinto, porque vi o orgulho nos olhos dele quando me abraçou depois. Mas a dúvida voltou forte, como uma sombra que não sai de cima de mim. Eu estou me afastando de Deus? Eu vim pro Brasil pra missão, pra ajudar crianças, pra espalhar a Palavra, não pra me apaixonar por um homem que manda num morro cheio de armas e perigos. Ele não vai à igreja, não fala de Jesus, vive num mundo que a Bíblia chama de trevas. “Não se juntem com quem não tem a mesma fé”, eu lembro direitinho do versículo. Mas… e se Deus estiver usando isso tudo? E se Ele me colocou aqui exatamente pra alcançar o Coroa? Pra mostrar pra ele que tem salvação, que tem luz mesmo no lugar mais escuro? Eu sinto isso no coração. Sinto que ele tem um lado bom, que cuida das pessoas, que protege todo mundo. Mas e o desejo? Esse fogo que queima dentro de mim toda vez que ele chega perto? Isso é de Deus ou é pecado puro? Eu tentei me distrair. Ajudei na casa, lavei roupa, arrumei o quarto. Mas a cabeça não parava. À tarde, decidi que precisava falar com alguém que entende de fé. Peguei a Bíblia, um casaco leve, e desci o morro sozinha pra igreja. O Coroa tava resolvendo coisas no QG, não me viu sair. Eu precisava desse tempo só com Deus e com o pastor Carlos. Cheguei na igreja no fim da tarde. O culto já tava quase começando, poucas pessoas, mas o pastor me viu na porta e veio me abraçar forte. — Minha filha! Que benção te ver aqui. Vem, senta aqui, já vai começar. Eu sentei no banco da frente, cantei os hinos, ouvi a mensagem sobre “luz nas trevas”. Parecia feito pra mim. Depois do culto, o pastor me levou pra salinha dos fundos, ofereceu chá. — Fala, Sienna. Eu vejo nos teus olhos que tem algo pesando. Eu respirei fundo e contei tudo. A ligação com os pais, o relacionamento com o Rodrigo, o beijo na praia, o desejo misturado com culpa. — Pastor… eu tô confusa. Eu sinto que Deus me trouxe aqui, mas tô me envolvendo com um homem que não é crente. Ele é perigoso, vive no mundo do tráfico. Eu tô me afastando de Deus ou Ele tá usando isso pra salvar a alma do Coroa? O pastor Carlos me olhou sério, mão na Bíblia. — Filha… eu sinto trevas nesse morro. Trevas fortes. E principalmente nesse homem. Ele manda com arma na mão, vive na violência. Você é luz, pura, veio pra missão. Se envolver com ele pode te apagar. Pode te levar pra longe do caminho do Senhor. Eu te aconselho a descer o morro, continuar a obra no asfalto, onde é mais seguro pra tua alma. Eu ouvi tudo. Ouvi com o coração apertado. Ele tem razão em partes. Mas… eu sinto diferente. Sinto que se eu for embora agora, eu deixo uma alma pra trás. Uma alma que tá começando a se abrir pra luz por minha causa. — Pastor… eu respeito o senhor. Mas eu sinto que meu lugar é aqui. Agora. Com ele. Eu vou orar mais. Vou pedir direção. Mas eu não consigo ir embora now. Ele balançou a cabeça, olhos marejados. — Que Deus te proteja, filha. Porque você vai precisar de proteção divina. Eu abracei ele forte, agradeci. Saí da igreja com o peito mais leve, mas ainda confuso. O culto me fez bem. As músicas, as orações, os irmãos me cumprimentando. Eu saí ainda mais decidida a ficar com o Coroa. Se Deus quiser que eu vá embora, Ele vai me mostrar de um jeito claro. Até lá, eu fico. Eu tento. Eu luto pela alma dele… e pela minha. Voltei pra casa a pé, subindo o morro devagar, olhando as luzes acendendo nas casas. O morro tava calmo aquela noite. Cheguei e ele tava na varanda, fumando um cigarro, olhando pro nada. — Onde tu tava? — perguntou, voz baixa, mas com um tom de preocupação. — Na igreja. Precisava conversar com o pastor Carlos. Ele apagou o cigarro, chegou perto. — E o que o velhinho disse? — Que eu devia ir embora. Que você é trevas. Ele riu seco, mas eu vi que doeu. — Ele não tá errado. Eu peguei a mão dele. — Mas eu não acho. Eu vejo luz em você. E eu fico. Ele me olhou muito tempo. Aí segurou minha mão, entrelaçou os dedos. — Vem comigo. Ele me levou de moto pro mirante do topo do morro. Aquele lugar que ele me mostrou outro dia, com vista pro mar, pras luzes da cidade brilhando longe. Noite clara, lua cheia, vento fresco. Ele estacionou, a gente desceu, sentou na mureta de concreto, pernas penduradas. Silêncio primeiro. Só o barulho do vento e do morro lá embaixo. — Tu falou pros teus pais que a gente tá junto — ele começou, voz baixa. — Namorando. Eu corei. — Sim… porque é verdade. Não é? Ele passou a mão no cabelo, confuso como ontem. — Eu… eu não sei ser namorado, Barbie. Não sei ser o cara certinho que tu merece. Meu mundo é esse aqui. Perigoso. Sujo. Eu virei pra ele, peguei o rosto dele com as duas mãos. — Eu não quero cara certinho. Eu quero você. Com tudo que vem junto. Eu sinto que posso te ajudar a ser melhor. E você me ajuda a ser mais forte. Ele me olhou. Olhou no fundo dos meus olhos. Aí falou, voz falhada: — Eu quero tentar ser melhor. Por você. Nunca quis isso pra ninguém desde… desde a mãe dos meus filhos. Mas por você… eu quero. Meu coração explodiu. Eu cheguei perto, beijei ele. Beijo que começou devagar, mas virou intenso rápido. Boca aberta, língua dele na minha, mão no meu cabelo puxando de leve, outra na minha cintura me trazendo pro colo dele. Eu sentei de frente, pernas dos lados dele, vestido subindo um pouco. O beijo foi ficando quente, urgente. Mão dele descendo pra minha coxa nua, apertando, subindo devagar. Eu gemi na boca dele, corpo arqueando contra o dele, sentindo ele duro embaixo de mim. Tensão s****l subindo louca, fogo queimando tudo. Eu queria mais. Queria que ele não parasse. Mas ele parou. Respirou fundo, encostou a testa na minha. — Não aqui. Não assim — murmurou. — Tu merece melhor. Eu assenti, ofegante, corpo latejando. A gente ficou ali mais um tempo, abraçados, olhando as estrelas. Conversando sobre futuro. Ele falou que quer me levar pra conhecer lugares fora do morro. Eu falei que quero levar ele pra igreja um dia. Ele riu, mas não disse não. Voltamos pra casa tarde. Beijo na porta do meu quarto, bom noite sussurrado. Eu dormi feliz. Decidida. No dia seguinte, ele passou no meu quarto e me acordou cedo. Beijou minha testa antes de sair. — Tenho uma parada pesada pra resolver no morro hoje. Volto só à tarde, talvez a noite. — Se cuida — falei, ainda sonolenta. — Sempre. Ele saiu. A casa ficou silenciosa. Eu levantei, tomei café sozinha, arrumei tudo. Pela primeira vez desde que cheguei, eu tava completamente sozinha na casa do Coroa. Sem empregados, sem os filhos dele. Mas o dia m*l tinha começado. 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