Coroa - O Abusado

863 Palavras
Coroa Eu tava no pé do morro desde cedo, sol rachando, suor escorrendo pelas minhas costas, arma na cintura pesando mais que o normal. Parada pesada. Treta com os alemão da ladeira quatro tavam apertando demais: olheiro deles subindo minha linha, tiro de aviso na madrugada, recado claro que queriam expandir. Eu não ia deixar. Marquei reunião neutra no bar do Zé, território de ninguém, pra tentar paz na fronteira. Paz relativa, né? No morro paz é só trégua armada. Cheguei com quatro vapô de confiança: Careca, Magrão, e mais dois cria que não piscam. Do outro lado, o Pedrada, dono do morro rival, veio com o mesmo número. Cara grande, cicatriz no rosto de facada antiga, olho frio que nem o meu. A gente sentou em mesa de plástico no meio do bar, cerveja gelada na frente, mas ninguém bebia. Tensão no ar que dava pra cortar com faca. — Fala logo, Coroa — Pedrada começou, voz grossa, dedo batendo na mesa. — Teus cria tavam olhando torto pros meus na divisa ontem. Quer guerra? Eu respirei fundo, mantive a calma. Não vim pra briga, vim pra acertar. — Guerra não interessa pra ninguém, Pedrada. Criança morre, mãe chora, polícia sobe e fode todo mundo. Meus olheiro viram os teus subindo minha ladeira três vezes essa semana. Recado claro: fica na tua linha que eu fico na minha. Ele riu seco, inclinou pra frente. — Minha linha tá crescendo, viado. O morro tá apertado, ponto novo abriu no asfalto. Preciso de espaço. Eu apertei o copo de cerveja, veia saltando no braço. — Espaço tu ganha no teu lado. O meu é meu. Ponto final. Se subir mais um centímetro, eu mando resposta que tu não esquece. Os vapô dos dois lados se mexeram, mão coçando pra arma. Careca do meu lado já tava de pé. Pedrada levantou a mão pros dele ficarem quietos. — Tu tá velho, Coroa. Cinquentão achando que ainda manda em tudo. Talvez seja hora de dividir o bolo. Eu levantei devagar. Olhar cravado no dele. — Velho mas não gagá. Eu construí esse morro com bala e sangue. Tu era moleque vendendo bala quando eu já era rei. Não vem me ameaçar na minha frente, c*****o. A gente ficou se olhando. Segundos que pareceram horas. Quase saímos na mão ali mesmo. Eu já via na cabeça: mesa voando, tiro comendo, sangue no chão do bar do Zé. Mas eu segurei. Porque guerra agora fodia o baile da semana que vem, fodia as crianças, fodia tudo que eu construí. — Trégua então — falei, voz baixa mas firme. — A linha da fronteira fica como tá. Ninguém sobe, ninguém desce. Se alguém furar, respondo na hora. Mas quero paz por enquanto. Ele pensou. Olhou pros vapô dele, depois pra mim. — Trégua. Mas se eu ver um cria teu no meu lado… — Mesmo recado pra ti. A gente apertou mão. Aperto forte, olho no olho. Paz relativa. Eu sabia que não ia durar pra sempre, mas comprava tempo. Saí do bar com os meus, moto ligando, subindo devagar. Celular vibrou no bolso. 📲 Lohana: Pai, o Lucca passou aqui na minha casa dizendo que ia pegar uma grana contigo. Tá estranho, tá bêbado desde cedo. Fica esperto. Eu franzi a testa. Lucca. Meu filho que dá mais trabalho. Sangue quente, cabeça fraca pra bebida e pra mina. Ele sabe que não entra na minha casa sem avisar. Desconfiei na hora. Mas eu tava no pé do morro ainda, resolvendo o resto do acordo com o Pedrada. Não podia voltar agora. Mandei mensagem rápida pra minha filha Lohana. 📲 Eu: Fica de olho. Qualquer coisa me liga. Continuei o meu dia. Reunião com os vapô, distribuição de ponto, checagem de arma pro baile da semana que vem. Cabeça dividida entre a treta com Pedrada que tá controlada por enquanto, mas o meu filho Lucca rondando minha casa. Minha casa onde a Sienna tá sozinha, pois é dia de folga dos meus funcionários. Tensão aumentando no peito. Aí o celular tocou. Número dela. Sienna. Atendi na hora. — Alô, Sienna? Tudo bem? Voz dela desesperada, baixa, tremendo. — Vem… vem pra casa agora. Por favor. O seu filho Lucca… ele tá aqui. Ele tá bêbado? É assim que fala? Tá descontrolado. Tá… tava me apertando... apalpando. Eu me tranquei no quarto, mas ele tá batendo na porta. Eu travei. Sangue subindo pro cérebro na hora. Visão vermelha. — Lucca? Meu filho? — Sim… ele disse que veio pegar dinheiro, mas… tá falando coisa errada. Tá tentando entrar. Eu desliguei sem falar mais nada. Joguei o celular no bolso, liguei a moto com raiva. — Careca! Fica no comando aqui. Qualquer coisa me liga. — Tá rolando o quê, chefe? — Problema em casa. Problema grande. Eu acelerei. Acelerei pra c*****o. Ladeira acima voando, pneu cantando, vento batendo na cara. Furioso. Furioso pra p***a. Meu próprio filho. Meu sangue. Assediando a minha mulher. Na minha casa. Onde eu levei ela pra proteger. Eu vou matar esse abusado. Vou chegar lá e vou acabar com isso. Ninguém toca na Sienna. Ninguém. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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