Coroa
Eu não dormi direito. Fiquei rolando na cama a noite inteira, cabeça latejando com as minhas dúvidas. Aquela sensação esquisita na boca, o jeito que ela me evita, a cara vermelha toda vez que eu chego perto… alguma coisa rolou depois do baile. Alguma coisa importante. E eu não me lembro, fui um o****o, fiquei bêbado demais pra lembrar. Isso tá me corroendo por dentro.
Eu sou o Coroa, c*****o.
O rei do morro.
Homem que lembra cada tiro que deu, cada palavra que disse em reunião. E agora não lembro do que pode ter sido o momento mais importante da minha vida nos últimos dez anos.
Chega. Não vou mais beber quando estiver com ela. Promessa interna. Promessa de homem. Cerveja só longe dela. Porque se acontecer algo de novo, eu quero lembrar cada segundo. Cada toque. Cada som que ela fizer.
Decidi resolver isso de uma vez. Cedo, antes do morro acordar inteiro. Bati na porta do quarto dela às seis da manhã. Ela abriu meio sonolenta, pijaminha curto, cabelo bagunçado, olho azul piscando confuso.
— Acorda, Barbie. Vamos dar um rolé.
— Agora? — voz rouquinha de sono.
— Agora. Vista uma roupa leve. Leva um protetor solar. Vamos pra praia.
Ela piscou, mas não discutiu. Meia hora depois já tava pronta: short jeans, regatinha branca, tênis, cabelo preso num r**o de cavalo alto. Linda mesmo de cara amassada. Subiu na moto atrás de mim, braços na minha cintura, mãos na minha barriga. Eu acelerei devagar, saindo do morro antes do sol subir de vez. Peguei a estrada pro Recreio, praia mais calma, sem muito movimento cedo.
Chegamos com o céu ainda rosa. Estacionei a moto, tirei o tênis, ela fez o mesmo. Caminhamos até a beira do mar, com as ondas molhando os pés. Mar calmo, quase sem gente. Só uns navios ao longe, gaivota voando. Ar salgado limpando a cabeça.
Sentei na areia seca, fiz sinal pra ela sentar do meu lado. Ela sentou, pernas dobradas, olhando pro horizonte.
— Desculpa qualquer coisa que eu tenha feito bêbado ontem — comecei direto, voz baixa. — Eu bebi demais. Apaguei. Não lembro de nada depois do baile. Se eu falei merda, se eu te desrespeitei de algum jeito… me perdoa por favor.
Ela virou o rosto rápido, olho arregalado.
— Não! Você não fez nada errado… quer dizer… você…
Ela travou. Bochecha vermelha aparecendo devagar. Eu cheguei mais perto, peguei a mão dela na areia. Mãozinha pequena, fria.
— Barbie… eu sei que aconteceu alguma coisa. Eu sinto. Na boca, no peito, em tudo. Se aconteceu algo, eu quero lembrar. Porque eu não quero perder nenhum segundo contigo.
Ela prendeu o ar. Ficou inteira vermelha, olho brilhando. Mão tremendo na minha.
— Aconteceu… — sussurrou, voz quase sumindo no barulho da onda. — Você… você me beijou. Me carregou pro teu quarto. Me deitou na cama. Beijou mais… acariciou… e depois… você dormiu, apagou.
Eu parei de respirar. Olhei pra ela. Olhei fixo. Tentando puxar a memória. Nada. Buraco n***o. Mas o corpo reagiu na hora: p*u latejando na bermuda só de imaginar. Eu sorri devagar. Sorri lento, sentindo o peito explodir.
— Então foi real… eu achei que tinha sonhado — murmurei.
Ela abaixou a cabeça, mordendo o lábio.
— Foi real.
Eu não aguentei mais. Cheguei perto, mão subindo pro rosto dela, segurando o queixo com cuidado. Levantei até ela olhar pra mim.
— Então deixa eu fazer direito agora.
Eu não esperei resposta, eu a beijei.
Dessa vez sóbrio. Consciente. Lembrando cada segundo.
Boca na dela devagar primeiro, sentindo o gosto — doce, puro, com um toque de pasta de dente. Ela abriu a boca na hora, língua tímida encostando na minha. Eu aprofundei, mão no cabelo dela, puxando de leve pra trás pra ter ela mais exposta. Outra mão na cintura, apertando, trazendo o corpo dela pro meu. Ela gemeu baixinho na minha boca — som mais gostoso que eu já ouvi na vida. Eu grunhi de volta, língua explorando, chupando o lábio inferior dela, mordendo de leve.
Beijo intenso, mas sem pressa. Sem ir além. Eu respeitei o ritmo dela. Mão na cintura, no cabelo, no rosto. Nada por baixo da roupa. Ainda não. Ela tava tremendo, respiração curta, mãozinha apertando minha regata. Eu parei um pouco, encostei a testa na dela, respirando pesado.
— Eu quero fazer direito — falei, voz rouca. — Quero lembrar de tudo. Cada toque. Cada som teu.
Ela abriu os olhos, azul brilhando com lágrima de emoção.
— Foi… foi o meu first kiss. O primeiro da vida.
Eu travei. Olhei pra ela. Dezenove anos. Missionária. Pura. E o primeiro beijo dela foi comigo. Com o Coroa. O cara que todo mundo teme. O rei do morro.
Meu peito apertou forte.
Eu a beijei novamente possessivo pra c*****o. Carinhoso ao mesmo tempo. Eu beijei a testa dela, o nariz, a bochecha.
— Então eu sou o primeiro… e vou ser o último, Barbie. Entendeu?
Ela assentiu, lágrima escorrendo. Eu limpei com o polegar.
— Tu é minha. Minha de verdade.
Eu abracei forte. Ela enroscou os braços no meu pescoço, rosto no meu peito. Ficamos assim um tempo longo. Onda já batendo nos pés, sol subindo devagar, pintando o céu de laranja.
Eu senti. Senti no peito, na alma, em tudo.
O ponto sem volta foi atingido.
Não tem mais como voltar atrás.
Ela é minha.
E agora que eu sei o gosto da boca dela de verdade… não vou mais esquecer.
Nunca mais.
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