Sienna - Segredos e Silêncios

1143 Palavras
Sienna Eu passei o dia inteiro tentando fingir que nada tinha acontecido. Tentando ser a Sienna de sempre: missionária organizada, sorridente, que acorda cedo pra orar e ajudar na creche. Mas era impossível. Toda hora que eu fechava os olhos, lá estava: a boca dele na minha, quente, urgente, língua explorando, mão na minha coxa subindo o vestido. Meu corpo reagia na hora. Calor subindo pelo pescoço, barriga apertando, pernas ficando moles só de lembrar. Eu tinha que parar o que tava fazendo, respirar fundo, olhar pro céu e pedir “Senhor, me ajuda”. Mas a verdade é que eu não queria ajuda. Eu queria mais. Eu evitei ele o dia todo. Quando ouvia os passos pesados dele na escada, eu corria pro quarto ou pra varanda. Se ele entrava na cozinha, eu inventava que precisava lavar roupa. Não conseguia olhar nos olhos dele sem ficar vermelha que nem uma adolescente boba. Porque se eu olhasse, eu ia lembrar do beijo. Ia lembrar do gosto. Ia lembrar do peso dele em cima de mim na cama. E aí meu corpo ia entregar tudo. Almocei sozinha, fingindo que tava com dor de cabeça. Fiquei no quarto à tarde, deitada, tentando ler a Bíblia. Abri em Provérbios, Romanos, qualquer coisa que falasse de pureza, de domínio próprio. Mas as palavras dançavam. Eu lia “fugi da imoralidade s****l” e lembrava da mão dele na minha coxa. Lia “o amor é paciente” e pensava que eu não queria paciência nenhuma. Queria ele agora. A culpa vinha em onda: eu sou missionária, vim salvar almas, não vim pecar com o dono do morro. Mas o desejo vinha mais forte. Culpa e desejo brigando no peito o dia inteiro. Eu orei. Ajoelhei do lado da cama, juntei as mãos, pedi direção. — Deus… me mostra o que fazer. Eu sinto que tô aqui por um motivo, mas isso… isso que eu sinto por ele… é errado? Ou é parte do plano? Me dá um sinal, por favor. Silêncio. Nenhum sinal. Só o barulho do morro lá fora e meu coração batendo rápido. Lá pelas quatro da tarde, ouvi a porta da frente. Voz da Jordana gritando “oi, gente!”. Eu desci devagar, tentando parecer normal. Ela tava na cozinha, pegando suco na geladeira, Lohana do lado mexendo no celular. — E aí, loira sobrevivente do primeiro baile! — Jordana veio me abraçar. — Tu arrasou ontem, hein? Mesmo usando aquele vestido de freira, os cara ficou tudo babando por você. Eu ri nervosa. — Para com isso… Lohana levantou o olhar, sorrindo de canto. — É verdade. Meu pai não tirava a mão da tua cintura o baile inteiro. O morro inteiro tá comentando. Eu fiquei vermelha na hora. Jordana percebeu. Claro que percebeu. Ela é rápida pra essas coisas. — Pera aí… — ela estreitou os olhos, chegou mais perto. — Tu tá estranha hoje. Olho baixo, cara vermelha… o que rolou entre vocês ontem depois que vieram embora? Eu engoli em seco. — Nada! Nada rolou. A gente só… veio pra casa e dormiu. Jordana cruzou os braços, cabeça tombada. — Nada? Sienna, tua cara tá entregando tudo. Tu tá vermelha que nem tomate, mão tremendo, nem olha pra gente direito. E meu pai hoje cedo tava com uma ressaca braba, mas com uma cara de quem sonhou com anjo. Fala a verdade. Eu abaixei a cabeça. — Juro que não rolou nada… sério. Ela riu alto. — Sei. Tua reação corporal não mente, amiga. Olha só: tu tá até suando. Algo rolou, sim. E tu tá morrendo de vergonha… ou de vontade de repetir. Lohana riu também. — Deixa a menina, Jordana. Ela é crente, vai ficar com culpa até o fim do ano. Eu quis morrer. Quis entrar num buraco. Elas ficaram mais um pouco, falando do baile, de fofoca do morro, mas eu m*l acompanhava. Minha cabeça tava no beijo. No corpo dele. Na cama dele. Elas foram embora no fim da tarde. Eu subi pro quarto de novo, tentando me distrair arrumando as roupas na cômoda. Mas aí ouvi ele chegando. Passos pesados na escada, porta do quarto dele batendo. Eu travei. Fiquei quieta, esperando ele descer ou chamar. Mas nada. Eu lavei a louça, fiquei na sala vendo TV sem ver nada. O clima na casa tava estranho. Pesado. Como se os dois soubessem que tinha um segredo no ar. Noite. Eu já tava de pijama, deitada, olhando pro teto mais uma vez. Tocando os lábios que ele beijou. Revivendo tudo. O corpo reagindo de novo. Eu tava quase dormindo quando ouvi a batida na porta. Três toques leves. — Barbie… abre aí. Preciso falar contigo. Meu coração disparou. Eu levantei rápido, arrumei o pijama (short e camiseta larga), abri a porta. Ele entrou. Sem pedir licença. Fechou a porta atrás de si, encostou nela. A gente ficou próximo demais no quarto pequeno. Eu senti o cheiro dele — cigarro, perfume, homem. Ele tava de bermuda e regata, braço tatuado brilhando na luz fraca do abajur. Clima pesado. Ar denso. Eu m*l respirava. — Tu tá me evitando o dia inteiro — ele falou, voz baixa, rouca. — Por quê? — Eu… não tô evitando. Só… cansada. Ele chegou mais perto. Um passo. Dois. Até eu encostar na parede sem querer. — Mente pra mim de novo, Barbie. Eu levantei o olhar. Encontrei o dele. Azul escuro, intenso. Ele tava desconfiando. Percebendo que algo aconteceu. A mão dele subiu devagar, segurou meu queixo com firmeza, mas sem machucar. Polegar roçando meu lábio inferior de leve. — Aconteceu alguma coisa ontem que eu não tô lembrando? — perguntou, voz mais baixa ainda. Eu abri a boca. Quase contei. Quase disse “você me beijou, me carregou pro teu quarto, me acariciou inteira e dormiu no meio do caminho pra algo que eu queria muito”. Quase. Mas travei. A culpa veio forte. A vergonha. O medo de ele rir, ou de ele não lembrar e achar que eu inventei. — Não… nada — sussurrei, voz falhada. Ele ficou quieto. Olhando pra mim. Olhando pra minha boca. O polegar parou de roçar, mas não soltou. Eu esqueci de respirar. Esqueci tudo. Só queria que ele chegasse mais perto, que beijasse de novo, que fizesse tudo que começou ontem. Queria sentir a boca dele, a língua, as mãos. Queria que ele não parasse dessa vez. Mas ele não beijou. Ele só olhou mais um segundo, olhos descendo pra minha boca, subindo de novo. Respirou fundo, como se doesse. — Boa noite, Barbie — murmurou. Soltou meu queixo. Virou. Abriu a porta. Saiu. Eu fiquei ali, encostada na parede, mão no peito, respirando rápido. Sem reação. Corpo pegando fogo. Coração louco. Senhor… eu tô perdida. Completamente perdida. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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