Coroa
Porra, que ressaca filha da p**a.
Acordei com a cabeça parecendo que um caveirão tinha passado por cima. Dor latejando nas têmporas, boca seca que nem deserto, garganta arranhando, estômago revirado. A luz do sol entrando pela janela do quarto como se fosse farol alto na cara. Eu gemi baixo, virei de lado, apoiei a testa na mão. Onde c*****o eu tava ontem? Baile… foi dia de baile funk… som alto, bebida rolando solta, os cria tudo feliz… e ela. A Barbie. Dançando colada em mim, corpo macio encostado no meu, cheiro gostoso daquele cabelo loiro.
Depois disso? Buraco n***o.
Olhei pro lado da cama. Lençol bagunçado pra c*****o, travesseiro amassado dos dois lados. Eu devo ter rolado a noite inteira, sonhando merda.
Levantei devagar, corpo pesado, tomei um banho gelado, peguei uma cueca, vesti uma bermuda tactel. Desci a escada pisando duro, cada degrau latejando na cabeça.
Cheguei na cozinha. Ela tava lá. Sienna. Já acordada, como sempre. Parece que essa menina acorda com o g**o, mermão. Ela tava sentada na banqueta alta, tomando café com leite, mordendo uma tapioca, olhando pro celular. Vestidinho simples de algodão, cabelo solto ainda úmido do banho, pele branca brilhando com a luz da manhã. Linda pra p***a, mesmo de cara lavada.
Eu parei na porta, coçando a barba.
— Bom dia — grunhi, voz rouca de quem fumou demais e bebeu ontem.
Ela levantou o olhar rápido. E… c*****o. Ficou vermelha na hora. Bochecha cor de tomate, olho baixando pro copo como se o leite fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Bom… bom dia — gaguejou, voz baixa.
Eu fui até a cafeteira, servi uma xícara preta forte, tomei um gole queimando a língua. Precisava acordar essa merda de cérebro.
— Chegou bem em casa ontem? — perguntei, sem pensar.
Ela engasgou com a tapioca. Tossiu, bateu no peito, ficou mais vermelha ainda.
— Eu… sim. Cheguei bem. Obrigada.
Eu arqueei a sobrancelha.
Estranho.
Mas a cabeça tava latejando demais pra eu ligar os pontos. Sentei do lado dela, peguei uma banana da fruteira, descasquei devagar.
— O baile foi f**a, né? Lotado pra c*****o. Tu curtiu?
Ela assentiu rápido, sem olhar pra mim.
— Sim… foi… diferente. Muito diferente.
Eu ri baixo, mas a dor de cabeça reclamou.
— Diferente é pouco. Tu tava parecendo peixe fora d’água, Barbie.
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas não respondeu. Ficou mexendo no celular, dedo rolando a tela sem ler nada. Eu percebi que ela tava estranha. Distantona. Evitando olhar nos meus olhos. Culpa minha, pensei. Bebi demais, devo ter falado merda, feito papel de i****a na frente dela. Ou talvez ela tenha ficado chocada com o baile — aqueles casais se pegando nos paredões, os cara olhando pra ela como se ela fosse um sobremesa deliciosa. Eu mesmo quase quebrei a cara de dois ontem.
Terminei o café em silêncio. Ela levantou pra lavar a xícara, passou do meu lado rápido demais, como se tivesse medo de encostar. Eu franzi a testa, mas deixei pra lá.
Ressaca deixa a gente paranoico.
O dia passou devagar. Eu resolvi umas parada no QG: contei dinheiro do baile, mandei recado pros fornecedor, falei com os vapô sobre a segurança da semana. Mas a cabeça não tava lá. Ficava voltando pra ela. Pro jeito que ela dançou colada em mim. Pro cheiro. Pro corpo macio. E pro buraco n***o depois disso.
Voltei pra casa no fim da tarde. Ela tava na varanda, lendo a Bíblia dela, como sempre. Sentada na cadeira de balanço, pernas dobradas, cabelo solto balançando no vento. Eu parei na porta, olhando. Ela tava distante o dia inteiro. m*l falou comigo. Evitava ficar no mesmo cômodo. Eu achei que era culpa do baile — talvez ela tenha se assustado com a ousadia, com os olhares, comigo bebendo.
Aí o celular tocou. Lohana.
— Pai, e aí? Como foi a noite ontem? — voz animada dela.
— Normal. Baile lotou, dinheiro entrou, ninguém morreu. Por quê?
Ela riu.
— Normal uma ova. Eu vi tuas stories que a Jordana postou. Tu tava todo derretido com a loira, pai. Dançando coladinho, mão na cintura, cara de bobo. O morro inteiro tá comentando.
Eu parei. Derretido? Cara de bobo?
— Que p***a tu tá falando, filha? Eu tava só cuidando dela. Os cara tudo olhando, não ia deixar.
— Sei. Cuidando com a mão na cintura dela o baile inteiro? Tá bom. Só tô falando que tu tá apaixonado pra c*****o e nem disfarça mais.
Eu fiquei quieto. Apaixonado. Meus filhos já sacaram. O morro já sacou. Só eu que ainda tento negar.
— Cuida da tua vida, Lohana.
— Tá bom, pai. Mas se cuida também. Ela não é daqui. Ela vai embora um dia, pai. Não quero que o senhor se iluda...
Desliguei.
Fiquei olhando pro celular.
Derretido. p***a.
Iludido.
O dia foi indo. Jantei sozinho — ela disse que não tava com fome, subiu cedo pro quarto. Eu fiquei na sala, fumando um cigarro na varanda, olhando pro morrão todo aceso. Algo estranho no peito. Uma sensação esquisita na boca. Como se… tivesse gosto diferente. Eu toquei os lábios sem querer, passei o dedo neles. Por quê? Por que c*****o eu tô fazendo isso?
Aí a ficha começou a cair. Devagar. A cama bagunçada dos dois lados.
Ela estranha o dia inteiro. Vermelha toda vez que eu chegava perto. Gaguejando. Evitando olhar.
Aconteceu alguma coisa ontem. Alguma coisa que eu não lembro.
Eu apaguei o cigarro, entrei. Subi a escada devagar. Parei na porta do quarto dela. Bati leve.
— Barbie… abre aí.
Ela abriu depois de um tempo. Cara de quem tava tentando dormir, mas não conseguia. Olho azul assustado, bochecha vermelha de novo.
— Tá tudo bem? — perguntei, voz baixa.
— Sim… por quê?
Eu entrei um pouco, fechei a porta atrás de mim.
— Tu tá estranha o dia inteiro. Me evitando. Aconteceu alguma coisa ontem que eu não tô lembrando?
Ela congelou. Olho arregalado, boca entreaberta. Ficou vermelha que nem pimentão, mão subindo pro pescoço como se quisesse esconder.
— Não! Nada… nada aconteceu. Você… você só bebeu um pouco demais e… dormiu. Só isso.
Ela negou rápido demais. Vermelha demais. Olhar baixando pro chão.
Eu cheguei mais perto. Levantei o queixo dela com o dedo, forcei olhar nos meus olhos.
— Mente pra mim de novo, Barbie, que eu descubro do meu jeito.
Ela prendeu o ar. Olho brilhando. Mas não falou nada.
Eu fiquei ali, olhando praquela boca.
Eu soltei devagar.
— Tá bom. Boa noite.
Saí do quarto. Fechei a porta.
Mas eu sei.
Aconteceu alguma coisa.
E ela tá escondendo.
E isso tá me deixando louco pra c*****o.
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