O dia não começa nada incrível, apesar de os árvomes e eu termos comido uma maravilhosa refeição, o que me surpreende.
Eu pensei que os gigantes de barro preparariam um ensopado de barro para a gente comer, mas eles vão ao bosque procurar algo comestível para a gente, e acham. Depois de muito tempo, me acostumo a comer carne de besouro.
Tadinhos, são usados para tudo neste mundo.
Quando amanhece, temos que partir, e bem cedo faz um frio terrível. A pior parte é que começa a chover e eu penso que os gigantes vão derreter, mas só ficam molhados.
Não entendo como funcionam.
Eu vou montada nas costas do Rei Gooraudo — até agora não sei pronunciar este nome direito — a pedido dele mesmo. Eu que não vou negar.
Quando começa a chover, eu fico com medo de cair escorregando pelo ombro dele, mas eles usam uma espécie de armadura de madeira e fico mais segura, dá para se segurar bem firme.
Ao chegarmos no vale, vamos direto para o caminho no penhasco até o rochedo pontiagudo. Mais uma coisa para eu tremer na base. Os gigantes sobem o penhasco pelo caminho em fila indiana, se um escorregar, é morte na certa, o que também me amedronta é o efeito dominó, os gigantes ocupam todo o espaço do caminho, mas os gigantes são muito fortes e equilibrados, fico impressionada.
Acho que por isso que ficaram impressionados comigo quando eu dei um soco na cara de um deles e ele desmaiou. São bastante resistentes.
Passamos pelo rochedo pontiagudo, pela área onde eu tinha matado as formigas, pela área cheia de poças onde mais gigantes repousam — eles não virão com a gente —, e ainda está chovendo e eu estou toda molhada.
Venho conversando com o Rei, ele é cheio de conhecimentos. Nem percebo quando a chuva começa a diminuir.
— Você acredita mesmo que os Árvos criaram outro arvomecida? — pergunta o Rei Gooraudo.
— Sim, acredito, Vossa Majestade — respondo. — Já fizeram uma vez e podem fazer de novo.
— Mas os elementos que usaram para tal feitio não eram, maioria, deste mudo. Como conseguiriam mais sem a ajuda das bruxas?
Eu faço uma pausa para pensar no que responder.
— Pode ser que não tenham usado tudo.
Agora, ele faz uma pausa pra refletir.
— Sim, você tem razão. Os elementos são imperecíveis. Possa ser que tenham guardado caso algo não saísse como no planejado.
— Por que as bruxas não nos ajudam? Na moral, velho, são um bando de egoístas.
— Não as julgue, os Árvos quase as exterminaram por sabotarem o arvomecida, eles são muito poderosos. As bruxas amarelas não eram deste mundo no início de tudo, eram de outro mundo, Noldá é o seu nome, e eram híbridas que fizeram um Pacto de Sangue com uma Entidade potente. Aqui elas não têm tanto poder como lá.
— E porque não voltam?
— Ainda não entendi esta parte, apenas sei que não podem. Algo a ver com abrir um portal especial.
— Hum!
Continuamos conversando, quero aprender muito. Eu fico curiosa sobre como os gigantes se reproduzem, não vi uma fêmea, mas ele me diz que só existe uma, que é a rainha, o resto é vassalo, exceto ele, que manda em todos.
Ai! A monarquia e patriarcado.
Eles não fazem s**o, o rei coloca um líquido cheio de gametas dentro de um tanque com água barrenta que sai da sua pélvis, e a rainha faz o mesmo, só que o líquido é cheio de óvulo, ai um vassalo mexe para que aconteça a fecundação.
Ele que me contou, não entendi nada.
Depois o tanque fica cheio de embriões, igual girinos, e daí, crescem apenas se banhando em barro, separados, até atingirem a fase adulta. Eles não comem pela boca, e sim pelo corpo, até que o corpo para de absorver o barro e param de crescer, somente ocorre a regeneração. Também descobri que não são imortais, mas não me aprofundei no assunto.
Que complicado.
***
Após vários minutos de conversa na floresta, do nada, uma flecha acerta o ombro de um dos gigantes e vários outros cercam o Rei Gooraudo para proteger ele.
Muitos árvomes de cabelos de cor verde-menta descem das árvores de arco e flechas nas mãos. Eles têm cabelos longos e rostos femininos. São ridículos. Sempre fui alertada de que eles eram problemáticos e narcisistas, não contribuíram em nada para a evolução da espécie, se importavam apenas com a própria raça.
O líder dos Námdas Arqueiros se aproxima e diz:
— Vocês estão invadindo território da raça Námda, seus Nízkas insolentes.
— Caro Arqueiro Námda, não estamos invadindo estamos apenas de passagem — diz o guia do g***o de busca. — Fomos até à Floresta Proibida por ordem da Rainha Matid, tivemos que passar por aqui, este caminho é o mais rápido.
— Que dessem a volta. E o que os gigantes de barro fazem com vocês?
— Arqueiro, estamos perto de enfrentar uma guerra com os Árvos e…
— Isto não é provável — interrompe o líder dos Arqueiros Námdas. — Sabemos dos seus disparates, vocês é que estão se destruindo com isso.
— Ai! Deixa de ser insuportável, árvome — grito para o líder, estou um pouco longe.
— Quem disse isto? — ele pergunta.
Caramba! Eu sou pequena comparada a eles, mas não é possível que ninguém me nota direito, eu sou a única humana e albina daquele mundo.
Eu salto das costas do Rei Gooraudo e ando em direção a ele.
— Fui eu — assim que ele me vê, fica de boca aberta
— A… A humana — gagueja o árvome, provavelmente ouviu alguma coisa sobre mim também.
Eu dou mais um passo a frente, estou muito irritada, e ele recua, depois aponta a sua flecha para mim e grita:
— Nem mais um passo, humana, ou sofrerá as consequências.
Eu saco a espada e respondo.
— Saia do nosso caminho, i****a. Quer morrer?
Ele então fica nervoso, depois que dou mais outro passo. Trêmulo, por acidente o árvome dispara a flecha contra mim, mas eu seguro a flecha no ar, com uma mão, diante dos meus olhos.
Não me canso de fazer isso.
O árvome treme tanto que nem consigo mais crer que ele é o líder.
— Você tentou me m***r?
— Oh, não…
— Eu vou partir você ao meio — ameaço.
O árvome se ajoelha no chão e me pede perdão por aquilo, ele ouviu a minha fama, com certeza.
— Bassar, seu fraco — diz outro árvome, este parece mais destemido —, não merece ser o líder — ele aponta uma flecha para mim. — Não temos medo de você, n******e contra todos nós. Saiam dos nossos territórios, ou atacaremos…
Eu não espero ele terminar, estou tão irritada que corro tão rápido e de surpresa que nem puderam reagir. Agora estou atrás do árvome ousado com a minha espada empunhada.
O árvome está imóvel. Primeiro, o arco se parte no meio e a flecha se solta, depois o antebraço do árvome cai no chão e ele grita.
— Ai! — exclamo preocupada. — Me desculpe, eu não quis fazer isto. Tá vendo? A culpa é sua…
Enquanto eu falo, os outros arqueiros olham entre si e depois começam a jogar os seus arcos no chão.
O Rei Gooraudo começa a rir e a me aplaudir.
— Parabéns, Rosy de Aster, não há ninguém como você.
***
Demorou um pouco, mas chegamos ao Reino de Ezderom.
Os gigantes de barro recebem ordem para ficarem do lado de fora da muralha de madeira, somente o Rei e alguns outros entram para se encontrarem com o Rei de lá.
Ficamos apenas para repôr as energias, descansar. Os gigantes parecem ser lentos, mas têm uma velocidade comum aos árvomes, o ser mais rápido daquele mundo inteiro sou eu.