Pré-visualização gratuita 1 – O início
1890
Era uma noite chuvosa, Lena Huff Luthor, uma garota de doze anos que com madeixas negras e perfeitas e bochechas coradas, escondia-se debaixo da cama. Seu coração batia acelerado quando ouviu seu pai, o senhor Luthor, subir as escadas devagar. Havia feito algo de errado, sabia muito bem que não deveria subir no sótão, mas como qualquer outra criança curiosa, se arriscou no quarto frio e escuro. Lena nem sequer havia mexido em alguma coisa, tinha certeza de que seu pai estava adormecido na poltrona em frente a lareira, e a chuva não lhe dava a possibilidade de ir até o lago com seus amigos.
Kara. Pensava na garota enquanto ouvia o ranger da madeira se aproximar. Sabia muito bem o que estava por vir.
Logo que estava pronta para descer as escadas velhas e sujas, seu pé deslizou dolorosamente pelos degraus, fazendo-lhe cair de costas e causar um grande estrondo. E o estrago estava feito. A garota correu para seu quarto, se afundou embaixo da cama escura escutando os passos de seu pai, divagares e apavorantes, próximo ao seu quarto.
Não deveria mentir. O senhor Luthor sabia completamente de tudo.
Era isso que a Madame Prescott dizia, a vizinha com dois cachorros esqueléticos que temia o senhor Luthor até mais do que a própria morte. Lena ouvia a mulher lhe dizer que seu pai era filho do demônio. A garota com seus doze anos nunca chegara a acreditar. Maggie, sua amiga mais próxima depois de Kara, a chamava de velha alucinada, mas não negava o fato do senhor Luthor ser horripilante.
'Esquisito' era o termo que Maggie costumava usar.
— Lena Huff Luthor – ouviu a voz rouca a chamar. Lena tremeu dos pés a cabeça, se arrependendo do segundo em que decidiu se aventurar no cômodo acima. 'Era apenas velharias', pensou. De que importava vasculhar aquele cômodo mofado?
Mas para seu pai não funcionava assim. Podia sentir o cheiro do charuto e Whisky que o corpo do homem costumava exalar. Desejou que sua mãe chegasse logo da prova de vestidos, mas sabia que pela chuva, não viria tão cedo.
Teria de arcar com as consequências. Dolorosas consequências.
— O gato por acaso comeu a sua língua?! – disse ríspido. O corpo de Lena se encolheu ainda mais embaixo da cama, já sentia as lágrimas se formarem em seus olhos – Se não me responder, eu mesmo darei para um deles comer!
Lena estremeceu, chiando baixinho como resposta. Sentia o suor acumular em sua testa, os cabelos molhados colando em seu rosto e o coração batendo tão forte que tinha a certeza de que seu pai estava ouvindo.
— Contarei até três para sair daí – disse. Lena tinha plena consciência que deveria sair, mas estava paralisada de medo, todos os seus músculos travaram com a imagem de seu pai segurando a longa cinta de couro, usada pela última vez quando a menor quebrou uma das garrafas de vinho francesas.
— Um – ele sussurrou, Lena chegou a identificar um traço de riso na voz de seu pai, fazendo seus dedos suarem.
A criança rezou baixinho para que sua mãe chegasse logo, mesmo que fosse naquela chuva.
— Dois – suas mãos suadas tamparam o rosto, espremendo firmemente os olhos e mordendo os lábios para tentar conter os choramingos. Prometeria que nunca mais subiria naquele sótão, nunca mais!
O corpo encolhido e trêmulo, as lágrimas escorrendo por suas bochechas quentes lhe deixavam completamente indefesa. Mas infelizmente, a contagem continuou.
— Três! – Lena sentiu uma mão firme puxar seu pulso para longe do rosto, fazendo-a abrir os olhos assustados enquanto era arrastada para fora da cama. Tentou segurar em qualquer lugar, chegando a arranhar a madeira do chão enquanto gritava desesperada pelo medo. Seu pai não teve piedade, o senhor Luthor naquela noite ensinou a filha a nunca desobedecê-lo.
A nunca mais subir naquele sótão.
1892
— Eu tenho medo – Kara sussurrou para Lena, estava encolhida enquanto Alex, Maggie e Cat já se divertiam no lago. Era sempre a mesma história, as garotas saem escondidas para se divertirem no pequeno lago que ficava a oeste do vilarejo. O pai de Lena dizia que a garota deveria voltar a tempo dos estudos, mas como viajava todos os dias para National City, não estava ciente dos atrasos de quase duas horas da filha. Joanne, a empregada da casa, permitia que Lena atrasasse, era uma boa mulher, doce e bondosa.
O problema é que ir até o lago não era tão divertido para todos. Kara, a garota mais nova do grupo, infelizmente não sabia nadar.
Lena, agora com seus quatorze anos, ainda não entendia o porquê de se importar tanto com a garota de olhos azuis. 'São tão bonitos', ela pensava. Lembrava-lhe o mar, o céu, lembrava a sua cor favorita.
Kara batia exatamente em seu ombro, mas nunca deixava de lhe explicar que cresceria logo, era por conta dos dois anos de diferença. Kara tinha doze, sua mãe não gostava muito que participasse das brincadeiras com Lena, mas a garota de olhos azuis sempre fora muito esperta.
Lena ficava admirada de que mesmo com dois anos de diferença, Kara era incrivelmente mais inteligente que ela. Sabia sobre as constelações, sobre os animais marinhos e agora contou a Lena que estava aprendendo tudo sobre répteis.
A garota de cabelos negros poderia passar o dia ouvindo a voz suave de Kara contar-lhe sobre o as cobras corais.
— Por favor, Kara – Lena juntou as mãos – Vamos entrar, eu juro que não te deixo afundar.
— Mas eu tenho medo, Lena – sussurrou envergonhada. Ouviam os gritos animados das outras garotas na água. Pareciam se divertir muito.
Lena pegou em uma das mãos de Kara, eram pequeninas e um tanto rechonchudas em comparação às suas. Kara apertou levemente os dedos longos de Lena.
— Mas você vai ficar aqui sozinha? – perguntou tristonha, e Kara formou um biquinho nos lábios finos e rosados. Lena sentia algo quente em seu coração quando a menor fixava os olhos azuis nos seus esverdeados. Talvez fossem cócegas de dentro para fora, não entendia muito bem sobre o corpo humano. Talvez devesse perguntar para Kara.
— Eu sempre fico, pode ir – sorriu calma, fazendo as ruguinhas em seus olhos aparecerem. Lena abotoou sua camisa novamente, decidida de que não iria deixar a garota sozinha. Soltou a mão da menor e sentou-se no chão rapidamente, tirando os sapatos sociais extremamente caros, então enrolando as calças até o final da batata da perna.
— Faça o mesmo – Lena disse a Kara, e a mesmo entendeu de imediato, tirando seus sapatos, um pouco surrados por conta do uso, e enrolando suas calças cinzas.
— Hey! – Maggie acenou para as duas, afundando no lago e rindo alegremente. Lena e Kara, agora de mãos dadas novamente, sentaram-se na borda do lado, apenas com os pés para dentro.
Lena sempre gostou de nadar, mas hoje deixaria de lado suas vontades para poder ficar ao lado da amiga menor.
Kara acenou para Cat, que nadava até a outra borda junto a Alex. Então, Lena viu algo se movimentando em meio a floresta, inevitavelmente apertou a mão de Kara, fazendo a menor olhar para sua face sem entender.
— Tudo bem, Lee? – a garota perguntou com sua voz fina, olhando para onde a amiga não desviava os olhos. Lena piscou várias e várias vezes, sentindo-se confusa, mas confirmando.
— Sim, eu só pensei ter visto algo, acho que era um cervo – contou, sentindo seus pelos da nuca se arrepiarem sem motivo algum. Minutos depois, logo que o movimento na floresta havia sido esquecido pela pequena Luthor, algo estranho aconteceu.
Uma voz obscura e nojenta soou em seu ouvido, não poderia ser Kara, mas ainda assim sentiu dedos apertarem seu ombro como se algo encostasse ali para cochichar em seu ouvido.
— Seu destino está traçado, demônio.
Lena olhou espantada para os lados, o coração acelerado e os olhos arregalados, soltando a mão de Kara de abrupto.
— Lena! – Kara gritou, tentando acalmar a amiga que parecia procurar algo em volta do lago e em meio às árvores. Lena estava apavorada, a voz havia lhe chamado de demônio. Ela queria perguntar a Kara se também havia escutado, mas estava apavorada demais e algo lhe dizia para não fazer isso. Sabia que apenas ela havia ouvido.
— Você está me assustando – Kara sussurrou, apertando a mão da amiga com um pouco de medo.
Então, como um estalo, o corpo de Lena se enrijeceu. Não queria que Kara sentisse medo dela.
— M-me desculpe – disse confusa e triste – Eu só quero ir embora.
— O que houve? – perguntou, parecia assustada também. A pequena Luthor pensou em dizer a verdade, entreabriu os lábios para dizer o que havia escutado, mas quando observou o carvalho velho do outro lado do lago, viu uma sombra negar com a cabeça, sumindo entre as árvores novamente.
— Nada, eu preciso ir – se exasperou, correndo de volta ao vilarejo sem nem sequer pegar seus sapatos caros.
Teria de explicar ao seu pai onde deixou os calçados, mas estava apavorada demais. Por que seu destino já estaria traçado? E por que foi chamada de demônio?
1894
Kara estava com quatorze anos, ouvia escondida por trás da porta sua mãe e a madame Prescott conversarem enquanto tomavam chá. Já era noite, Kara deveria estar dormindo a mais ou menos duas horas, mas o nome 'Lena Luthor' chamou sua atenção na conversa. Estava ajoelhada, escorada na parede do corredor enquanto sua mãe, uma costureira humilde chamada Alura, fofocava baixinho.
— O senhor Luthor está fazendo uma grande fortuna – sua mãe havia dito – A sua mulher, Lillian Luthor, encomendou três vestidos só essa semana, e mês passado quando fui comprar tecidos em National City, ouvi um boato de que ele já era dono de muitas terras por lá.
— Mas para quem ficará toda essa herança? – a madame Prescott perguntou, um sarcasmo dominava sua voz – A menina Lena não está destinada a isso.
Destinada. O que aquela mulher queria dizer?
Alura pareceu ler os pensamentos da filha escondida, e prontamente perguntou.
— Mas o que quer dizer com isso? – Kara escorou ainda mais na porta, agora podendo ver a madame Prescott alimentar um de seus cachorros esqueléticos com as bolachinhas doces que sua mãe assava. Kara odiava aqueles cães, eram feios e rabugentos.
— Não posso lhe dizer nada, querida – riu, como a risada de uma bruxa dos contos de fadas que Samantha, sua irmã mais velha, sempre a contava – Esse segredo não me pertence, e as pessoas sofrem quando contam segredos que não são seus.
Kara estremeceu com aquelas palavras.
— Em todo caso – Madame Prescott levantou-se do sofá florido, ajeitando o chapéu grande em sua cabeça – Não quero nenhum envolvimento com a família Luthor, o sangue que corre naquelas veias é amaldiçoado. O demônio encarregou-se de cuidar de toda aquela família.
Kara correu para seu quarto ao que os passos da mulher começaram a chegar até a porta, e escondeu-se em meio aos cobertores.
As palavras 'amaldiçoado' e 'demônio' a apavoravam. Mas a garota de olhos azuis sabia muito bem que Lena nunca poderia ser chamada assim, era bondosa com a menor e tinha um lindo rosto angelical. Kara imaginaria Lena como um anjo. Era o seu anjo da guarda, sempre protegendo e ajudando a menor das escapatórias até a clareira florida.
Nunca mais voltaram ao lago, Lena disse que seu pai havia lhe proibido.
Kara sonhou com algo estranho aquela noite, os olhos verdes esmeraldas da amiga agora eram tão negros quanto a noite, e os dedos frios apertavam-lhe o pescoço com força.
'Pare' Kara sussurrava no sonho, desesperada por ar enquanto a de olhos negros sorria triunfante.
1895
Era o aniversário de dezessete anos de Lena. O senhor Luthor, depois de muita insistência de sua mulher, permitiu que a filha fizesse uma pequena festa na mansão luxuosa. O vestido bem feito deixava o corpo, não mais infantil, completamente apetitoso. Lena não era mais uma criança, seus gostos haviam mudado e um deles era sua atração pela face angelical de Kara. Se tocou diversas noites pensando nas mãos pequenas da menor, sonhava com aqueles dedos curtos marcando seu corpo e lhe dando prazer até chegar a seus delírios.
Sentia-se suja por pensar tais atos com a menina, mas Kara, agora com quinze anos, exibia um maravilhoso corpo. Cintura fina e coxas tão grossas quanto seu traseiro. Lena adorava os jogos de polo que haviam no vilarejo, adorava ver a garota suada trocar-se ao seu lado, distinta de qualquer requisito de malícia. Os lábios finos sempre sendo mordidos pela timidez, e a mania insistente de Kara em segurar na barra da camisa de Lena, não importava o local ou ocasião onde estavam. Com exceção em frente ao senhor Luthor, já que todos o temiam, principalmente Kara, que recebia olhares duros todas as vezes que era pega perto de Lena.
A morena sorriu maliciosa para o espelho, gostaria de tocar aquele corpo esta noite, em seu aniversário, queria tirar qualquer rastro de pureza de sua amiga, queria ouvir os gemidos manhosos e finos em seu ouvido, sentir a maciez da pele em seus dedos e afundar-se em Kara até chegar ao seu limite de prazer.
Lena queria descobrir sobre tudo isso com Kara, apenas com Kara.
— Lena – uma voz dura fez seu corpo travar. Olhou para trás devagar, observando seu pai sentar-se na grande cama de seu quarto. Ainda respeitava seu pai e o temia mais do que qualquer coisa. Sabia das consequências, não arriscaria uma nova cicatriz em seu peito ou costas por conta dos chicotes ou cintas.
Suas amigas fingiam ignorar, mas as marcas eram chamativas demais para desviar os olhos às vezes. Menos Kara, ela sentia pena de Lena e às vezes acariciava as cicatrizes contando sobre seus joelhos marcados pelas corridas no futebol.
Kara era tão especial.
— Senhor – disse, com a voz tão fria quanto a do pai – Eu estou me aprontando para...
— Sente-se aqui – apontou para seu lado, Lena observou o rosto frio de seu pai. A filha única dos Luthor e herdeira da fortuna conquistada. Sentou-se onde lhe fora indicada, sentindo as mãos soarem como de costume.
— Já tem dezessete anos – a voz era dura e o hálito cheirava a bebida – Quero lhe dizer uma coisa, e quero que obedeça. Não tente me desafiar, não tente me enganar, sabe que eu não poupo esforços para lhe fazer aprender. E se precisar lhe ensinar do jeito difícil, eu irei...
Lena estremeceu, assentindo rapidamente. Não importava a ordem de seu pai, cumpriria de qualquer forma.
— Sim – respondeu receosa, odiava o fato de se sentir fraca ao lado do senhor Luthor. Era forte, era uma líder e gostava do fato das pessoas se curvarem e obedecerem suas ordens. Gostava de como as empregadas a temiam. Estava se tornando uma pessoa como seu pai, e de certa maneira tinha orgulho disso.
— Já é madura, tenho certeza que está descobrindo sobre o sexo – murmurou, e Lena enrijeceu. O que ele estava dizendo? – Sei também que ainda é virgem.
— Papai, o que...
— Calada – a interrompeu – Eu não quero que diga absolutamente nada.
Lena concordou, sentindo-se envergonhada. Estavam falando sobre sexo. Isso era tão vergonhoso que sentia suas bochechas pegarem fogo.
— Quero que continue pura, virgem – disse de uma vez, e Lena praticamente engasgou com a saliva. O quê?!
— Como assim?! – gritou, mas o olhar frio de seu pai fez todos seus pelos se arrepiarem. Pediu desculpas brevemente, tentando controlar a respiração.
Por que não poderia se deitar com alguém? Seu pai mesmo havia a chamado de madura, e por suas condições especiais, acreditava que não precisaria ser tratada como as outras meninas por aí. Até Maggie que tinha a mesma condição que ela já havia perdido a virgindade, e feito sexo com muitas e muitas pessoas.
Quer dizer, Lena sabia muito bem que era errado desejar Kara, ela era uma ser humano, errava, era suja e pecaminosa. Mas a morena não poderia evitar, parecia completamente deliciosa a ideia de beijar todo o corpo leitoso da mais nova.
Seu pai se levantou.
— É essa a minha ordem, não ouse deitar-se com qualquer pessoa que seja, não ouse me desobedecer – esbravejou, segurando com força o cabelos da filha, puxando com extrema brutalidade o rosto da menor para trás – Não vai querer se arriscar e pensar que eu sou i****a, vai ter consequências piores do que pode imaginar, vai implorar para que nunca tivesse feito...
Lena sentia lágrimas encherem seus olhos enquanto o couro cabeludo ardia pelos puxões. Começou a concordar desesperadamente, não se deitaria com ninguém. Temia demais o seu pai para desobedecê-lo e deixar seus desejos sujos causarem-lhe m*l.
Conhecia muito bem o tom de voz que seu pai havia usado. Aquela ameaça foi tão verdadeira quanto sua existência.
Não o desafiaria.
— Feliz aniversário – disse soltando os cabelos – E sorria, sua mãe está esperando-lhe no andar de baixo com os convidados.
Lena precisou de um momento para se recompor, assim deixando de lado seus medos e frustrações, finalmente descendo para sua festa