Lena apressou-se para descer as escadas. Estava animada para encontrar suas amigas e Kara, pois era a primeira festa de aniversário que seu pai a permitia fazer. Ainda tentava deixar de lado o assunto anterior com o senhor Luthor, mas não conseguia achar um motivo óbvio para não poder se deitar com alguém. Para continuar pura.
Lembrou-se da sombra no lago, quando tinha quatorze anos. Aquilo voltou a acontecer no ano passado. Lena viu uma mulher encapuzada no espelho, não tinha olhos nem nariz, apenas uma boca seca e rachada, que nem sequer saía voz. O ser mexeu os lábios em direção ao espelho.
'Seu destino está traçado, demônio'
Lena quebrou o espelho com um só soco, fazendo sangue e cacos sujaram todo o chão de madeira do grande banheiro. Naquela noite, dormiu apavorada e chorou contra o travesseiro. 'Estou ficando louca?' pensou.
— Lena, minha filha, está tão bonita! – sua mãe a saudou logo que entrou no grande salão de baile. As reformas que o senhor Luthor havia feito ficaram incrivelmente magníficas. Sorriu à sua mãe e deu-lhe um beijo na bochecha, em agradecimento.
— Onde está Kara? – foi a primeira coisa que perguntou, olhando apressada para todos os lados e procurando a garota menor. Sua mãe apontou para a sala, e Lena deixou de lado todos os convidados do salão indo apressada até o outro cômodo.
Kara estava sentada no grande sofá ao lado de Maggie, rindo de algo muito engraçado que a morena dizia. Lena não gostava de admitir, mas sentia um ciúmes doentio dentro do peito quando o assunto era Kara. Sabia que os homens do vilarejo também se encantavam pelos olhos azuis, e não deixava de notar os olhares sujos que algumas moças direcionam às curvas da mais nova.
Era inevitável, Kara era dona de uma beleza de tirar o fôlego. Estava vestida com uma calça bege, uma blusa de botões com as mangas enroladas até o cotovelo, e suspensórios marrons assim como seus sapatos. Lena sentou ao lado da menor, que virou-se assustada, mas reconhecendo Lena de imediato e abraçando seu tronco com muita força.
— Feliz aniversário, Lee! – a garota disse, exalando seu perfume natural que Lena particularmente adorava. Cheirava a flores e limpo. Lena sentiu as mãos pequenas em volta de seu corpo, e aproveitou o momento para afundar o rosto nos cabelos loiros, respirando fundo.
— Obrigada – agradeceu, então ouviram um suspiro, Maggie revirou os olhos para as duas.
— Hey, não me excluam – caçoou, e Lena riu ao que Kara se desvencilhou de seu abraço, pedindo desculpas.
— Feliz aniversário, Lena – Maggie apertou a mão da amiga. Lena estava ciente de que Maggie não nutria nenhum sentimento amoroso por Kara, eram amigas há anos e já havia notado alguns olhares diferentes entre ela e Alex.
Mas não era da sua conta.
— Você demorou pra descer – Kara observou toda a sala, um pouco tímida. Suas amigas já haviam vindo em sua luxuosa casa, mas era a primeira vez que participavam de uma festa. Os Luthor, depois de fazerem fortuna, participavam de diversas festas da alta sociedade, e o senhor Luthor orgulhava-se muito disso.
— Meu pai estava me pedindo algo – retrucou, tentando novamente esquecer a história sobre a virgindade – Mas onde estão Alex e Cat?
— Cat está na mesa de doces e Alex foi ao banheiro, mas aposto que se perdeu nessa casa enorme – Maggie gargalhou. Kara sorriu doce, ninguém entendia o porquê dos Luthor ainda viverem no vilarejo, o senhor Luthor era rico o suficiente para comprar uma mansão duas vezes maior em National City. Não fazia sentido algum. Mas Lena sentia-se aliviada, acreditava que morreria se tivesse que viver longe de Kara.
Possessiva. Exatamente o que ela era.
— Eu vou procurá-la – Maggie disse, se referindo a Alex. As duas então se encontravam sozinhas no cômodo, e Kara olhou em volta duas vezes para certificar-se de que aquilo era verdade. Se acomodou mais em Lena, que passou o braço pelo seu ombro, escondendo o rosto em seu peito.
Lena ouviu seu suspiro, e por um instante teve a certeza de que a garota parecia triste.
— Lena – sussurrou. Tomou uma grande lufada de ar enquanto Lena esperava-a pacientemente para que continuasse – Eu não lhe trouxe nenhum presente...
Um sorriso bobo apareceu nos lábios da mais velha, sentindo o coração aquecer ao que os dedos pequenos de Kara brincavam com o botão de seu vestido. Era incrível como se sentiam tão íntimas. Tão ligadas.
— Eu não me importo com presentes, Kara – disse verdadeira, mas a garota negou com a cabeça.
— Não é verdade, acabei ouvindo sem querer um senhor dizer que lhe deu um quite de golfe novo – afundou ainda mais o rosto no peito da amiga – Me desculpe por não poder te dar nada...
Kara choramingou, sentindo-se envergonhada. Mas Lena não deixaria que a garota pensasse que ela se importava com isso. Sabia que a mãe da menor era uma costureira sem marido, que tinha de sustentar Kara e suas quatro irmãs.
— Kara – murmurou, acariciando os cabelos da mais nova – Você está aqui, não está?
Kara fungou baixinho, franzindo as sobrancelhas para o nada. Levantou o rosto devagar e encarou Lena, ainda um tanto envergonhada.
— Estou – respondeu sem entender, e Lena concordou com a cabeça.
— Pois então, não consigo imaginar um presente melhor do que sua presença – Lena disse sincera, vendo um sorriso tímido e as bochechas de Kara ficarem como dois tomates. A garota rapidamente a abraçou pelo pescoço, o coração batendo tão forte em felicidade e sentindo o peito se aquecer ao que Lena apertava sua cintura.
— Não disse, Alex – Maggie sentou-se ao lado das duas, rindo baixinho – É como se não existíssemos quando as duas estão juntas.
Kara tentou esconder o fato das bochechas coradas, discordando enquanto sentava-se corretamente no sofá. Adorava Maggie, Alex e Cat, mas sentia algo tão forte por Lena que chegava a machucá-la de dentro para fora.
— Vou me juntar a Cat nos doces então... – Alex fez biquinho, ela e Cat agora tinham dezesseis anos, Maggie também havia completado dezessete e Kara as vezes sentia-se deslocada por ter apenas quinze.
Lena sempre dizia que sua idade mental era duas vezes maior do que todo o grupo junto, e Kara não poderia ficar mais feliz.
— Lena Huff Luthor! – sua mãe gritou, puxando a garota pela orelha esquerda – Que falta de modos são esses? Vá agora cumprimentar seus outros convidados e depois pode voltar as suas amigas.
As garotas riram de Lena, que infelizmente foi obrigada a passar a maior parte da festa com velhos chatos e bigodudos que falavam sobre política.
Só conseguia pensar em como desejava um beijo de Kara. Já que jamais poderia realizar seus outros desejos sujos.
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Naquela noite, quando a garota Luthor já estava na cama e a escuridão engolia todo o vilarejo, Lillian Luthor mordia o lábio em nervosismo, os olhos repletos de lágrimas e as mãos trêmulas.
— Só resta um ano – chorou baixinho. O senhor Luthor posicionava-se em sua frente, estavam vestidos apropriadamente para dormir, mas Lillian não conseguia conter os pesadelos de perder a sua única filha.
— Eu vou reverter isso, querida – o homem tentou tocá-la, mas Lillian desviou de suas mãos ásperas.
— Não toque em mim, tudo isso é culpa sua – chorou desolada – Sua ganância e luxúria destruiu nossas vidas, e agora... Minha filha irá sofrer.
— Nossa filha – Senhor Luthor disse frio, sentindo a garganta seca. Desejava uma boa dose de Whisky.
— Não, minha filha. Sabe que continuo com você nessa casa imunda porque tenho que ter fé que ela será salva, você irá salvá-la. Acabou com nossas vidas e irá sofrer no lugar dela.
Lillian virou-se de costas, temia o senhor Luthor, mas temia ainda mais o que estava destinado a acontecer no ano que viria.
Pobre Lena. Sua filha m*l tinha consciência do terror que a rondava.
— Eu tinha dezoito anos, Lillian – o senhor Luthor repetiu a mesma desculpa que dava todas as noites – Nós éramos jovens, pobres...
— Ela era sua filha, como pôde ser tão sujo? Depois de 17 anos ainda sinto nojo de você.
O senhor Luthor suspirou, olhando pela sacada do grande quarto e sentindo o vento frio fazer-lhe estremecer.
— Prometi a você que iria reverter isso – murmurou. Lillian virou-se para o marido, limpando as dolorosas lágrimas.
— Disse a ela para continuar pura? Ela não pode antes de completar...
— Eu sempre disse a você que deveríamos ter mantido a garota isolada, sem descobrir os pecados do mundo. Ela não irá conseguir se segurar...
Um tapa forte foi dado no rosto do homem, as mãos trêmulas de Lillian se abaixaram rapidamente.
— Não diga que ela não irá conseguir! Você não é um homem, é fraco, Lena merecia ter uma vida normal, e ela continuará tendo depois dos dezoito anos – sussurrou entre dentes, sabia que o marido não iria lhe agredir – Ela não irá te desobedecer, criamos bem a minha filha e sei de todos os seus passos.
O senhor Luthor concordou.
— Desculpe pelo que causei, mas foi necessário – disse, apontando para o guarda-roupa cheio de vestidos da mulher – Você desfruta de tudo isso tão bem.
A mulher sentiu-se enjoada.
— O dinheiro não é o problema – foi em direção a cama, deitando-se na ponta e fechando os olhos com força – O problema foi a forma que você conseguiu.
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— Corram! – Maggie gritou, estavam todas encharcadas pela chuva repentina. A casa mais próxima era a de Lena, e a garota contou que seus pais haviam viajado naquela semana. Joanne, a empregada da casa, havia avisado a Lena que o tempo não estava bom para seus passeios costumeiros com as amigas, mas Lena, como qualquer outra adolescente, não lhe deu ouvidos.
Agora as cinco garotas estavam molhadas e assustadas pela quantidade de trovões e relâmpagos que dominavam o céu escuro.
— Ainda são três da tarde, como pode parecer noite? – Cat perguntou a si mesma, enquanto Lena empurrava as portas da grande mansão para que todas suas amigas molhadas entrassem.
— Fiquem quietas, acho que a Joanne está dormindo no seu quarto – Lena pensou por um instante, a empregada sempre descansava quando seus pais viajavam – Vamos pegar toalhas lá em cima.
Kara tremia dos pés à cabeça, continuava tão assustada por conta da chuva que nem percebeu que praticamente estava colada nas costas de Lena. A maior sorriu consoladora enquanto as outras garotas já se apressaram para subir as grandes escadarias, sabiam o caminho até a suíte de Lena.
— Está tudo bem? – perguntou a Kara, sentindo uma imensa vontade de beijar as bochechas vermelhas da garota. Kara soltou as costas de Lena e concordou pensativa, admirando a enorme casa ao seu redor.
— É tão grande, não me canso de dizer isso – Kara sussurrou, fazendo Lena confirmar olhando também para os quadros velhos na parede.
— Vem, vamos nos secar antes que você pegue um resfriado – disse preocupada, não queria Kara doente.
Ao subirem as escadas, Lena ouviu sussurros em sua mente, eram palavras desconexas que perturbavam o seu cérebro e deixavam-a sem reação por alguns segundos. Suas mãos se apertaram no pulso de Kara, que parou abruptamente na escada.
— Lena, tudo bem? – perguntou baixinho, a voz carregada de preocupação. Luthor tentava focar em sua voz, mas sua mente estava embaralhada, sentia o corpo preso nos degraus e algo queimá-la de dentro para fora – Lee...
Os olhos de Lena se fecharam, algo queimava suas narinas e olhos, como se tudo se transformasse em brasa, esquentando seus pulmões. E de repente parou, a voz de Kara não parecia mais distante, e sua mão afrouxou o pulso da menor.
Lena se sentia estranha, confusa e com frio.
— Vamos pegar as toalhas – disse rapidamente, sacudindo a cabeça e ignorando o sentimento sombrio que rondava seu peito.
— Claro.
Depois de tentarem secar as roupas encharcadas com a toalha, reuniram-se em frente a lareira e ali ficaram até sentirem o fogo aquecê-las e deixá-las confortáveis.
A chuva ainda caía desenfreada lá fora, Lena procurou por Joanne, mas teve a impressão de que a empregada saíra antes da tempestade começar, e agora também estava ilhada em algum lugar.
Alex foi a primeira a quebrar o silêncio depois de trinta minutos tediosos.
— Eu estou cansada de ficar vendo essas toras queimando – bufou, espreguiçando-se. Cat concordou abatida, e Maggie resmungava sonolenta.
Lena ainda sentia-se confusa e estranha, mas concordou com Alex.
— Que tal brincarmos de esconder? – Kara perguntou, abraçada aos próprios joelhos. Cat negou com a cabeça.
— É brincadeira de criança – ela retrucou, recebendo um tapa na cabeça de Maggie.
— Você é só um ano mais velha que a Kara, cabeçona – voltou a fechar os olhos, aproveitando o calor da lareira – E eu topo, ninguém tem uma ideia melhor mesmo.
Todos acabaram se levantando, e Cat se negou a contar, já que tinha medo de se perder na grandiosa mansão.
— Acho justo que Lena conte – Alex apontou para a amiga, que tinha o olhar vago em uma das paredes. Reparam que ela estava distante da conversa, parecia alheia a tudo aquilo – Lena? Você está bem?
Lena confirmou com a cabeça, mas Kara se apressou para segurar na barra de sua camisa e lhe lançar um olhar preocupado.
— Tem certeza? – perguntou baixinho, mas Lena não sorriu como todas as vezes. Apenas concordou. Sentia-se estranha, queria sorrir para Kara, mas não havia nenhum traço de alegria em seu peito.
— Tenho – disse fria, assustando Kara por um momento, que tirou suas mãos da camisa de Lena – Eu irei contar, podem ir se esconder.
Lena caminhou em passos lentos até a parede mais próxima, inclinando-se ali e fechando os olhos quando a contagem começou.
As garotas riram baixinho enquanto corriam escadas acima, animadas para se aventurar naquela enorme mansão. Menos Kara, a garota olhou para trás diversas vezes sentindo que algo de errado estava acontecendo com Lena. 'Ela parece outra pessoa' pensou.
Quando Lena estava no número 42 da contagem, Kara encontrava-se perdida e amedrontada. Cada um de seus passos fazia a madeira embaixo de seus pés rangerem, e a pouca iluminação deixava tudo cada vez mais apavorante. Um relâmpago iluminou o céu por uma das grandes cortinas, e Kara esbarrou em uma pequena escada no final do corredor. Era velha e muito empoeirada, e dava direto para uma portinha n***a que parecia fechada.
Subiu podendo ouvir a madeira ranger, e empurrou devagar a porta para cima, fazendo um barulho horripilante se alastrar pelo corredor escuro. Suas mãos suavam enquanto algo em sua mente gritava para não ir até ali. Mas ainda assim terminou de subir os degraus e entrou no pequeno cômodo completamente escuro. Fechou a porta com cuidado e virou-se para observar todo o local.
Era obviamente o sótão da mansão.
A pouca luminosidade que tinha era das janelas, onde as gotas de chuva batiam com extrema força, fazendo um estalo nos vidros. As paredes e alguns móveis eram completamente forrados por lençóis brancos, agora manchados pela quantidade de tempo que pareciam estar ali. Haviam livros mofados nas prateleiras, sujeira de ratos e teias, muitas teias de aranha.
Kara sentiu o coração gelar quando ouviu a voz de Lena chegar ao 95.
Se apressou em meio aquelas velharias, encontrando um vão entre dois lençóis cobrindo as paredes. Pareciam cortinas, mas sem janelas atrás. Escondeu-se ali e tinha toda certeza de que Lena nunca a encontraria naquela escuridão.
Além do medo, a única coisa que incomodava Kara era o cheiro. Lembrava-a podre, comida estragada ou até mesmo animais em decomposição.
Lena gritou estridente a palavra 'cem'.
Então, o coração de Kara disparou, ela com toda certeza seria a última a ser encontrada, ninguém seria corajosa para subir até aqui. Mas Kara não era corajosa, era curiosa.
Dez minutos se passaram, a garota de olhos azuis tremia dos pés à cabeça pelo frio, e o lençol fedorento em sua frente estava incomodando demais o seu nariz.
Até que um barulho a assustou. A porta do sótão havia sido aberta.
Kara ouviu passos, tão divagares que deixavam-a agoniada. Seu coração batia tão rápido que podia senti-lo contra a camisa de botões, e suas mãos suadas taparam sua boca rapidamente, implorando a RAO para que não fizesse nenhum mísero barulho.
Nunca senti tanto medo, os passos de Lena ou de quem quer que fosse parecia se aproximar devagar. Muito devagar! Como se sentisse prazer em torturá-la com a espera.
Sua testa já estava molhada pelo suor, e precisou fechar os olhos com força quando ouviu um dos lençóis ser retirado do lugar. Um estalo ainda mais alto foi ouvido, como uma cadeira sendo chutada para longe.
O que Lena estava fazendo?!
— Kara – ouviu a voz rouca de Lena chamar. Pensou no início que fosse o medo, já que poderia jurar que não foi apenas uma voz que lhe chamara. Era como se duas pessoas dissessem ao mesmo tempo, a voz rouca e arrastada de Lena e outra mais potente e forte, fazendo-lhe arrepiar todos os pelos do corpo.
Ela estava ouvindo coisas? Era tudo por conta do medo?
Kara trancou a respiração quando os passos se direcionaram para onde estava escondida. Sentiu a parede fria contra suas costas, e grunhiu baixinho, mordendo os dedos para que calasse a boca.
Ela estava desesperada.
— Kara, eu consigo te ouvir respirar – a voz de Lena voltou a soar, e agora Kara poderia ter certeza de que estava embriagada pelo medo, pois ouvira duas vozes novamente. Ela não queria mais brincar, queria apenas chorar e voltar para casa. Seus dedos já doíam pela força das mordidas, e tentou parar de respirar mais uma vez.
Os passos pararam. Kara estava de olhos fechados e desejava que Lena estivesse brincando, fingindo que sabia onde a garota estava.
Depois de alguns segundos de silêncio, Kara deixou-se respirar. Um minuto se passou e a garota deixou de morder os dedos. Onde estava Lena? Ou seus passos?
Sentia o corpo tremer ainda, mas criou coragem e tentou abrir os olhos o mais devagar possível.
Então, sentiu algo respirar próximo ao seu ouvido. Lena estava parada atrás do lençol ao seu lado! Com um sorriso estampado no rosto e olhos tão negros quanto a noite.
Kara abriu a boca para gritar, mas Lena a tampou rapidamente, prensando a garota contra a parede com força e apertando a mão vaga em seu pescoço.
Kara sentiu os pulmões implorando por ar, seus olhos lacrimejarem e sua boca entreaberta tentar gritar para que a amiga parasse. Até que Lena rapidamente a soltou, fazendo a garota respirar forte e fechar os olhos doloridos.
— Te achei! – disse animada, sua voz voltará ao normal e um sorriso doce estampava seu rosto.
Kara tinha os olhos arregalados e ouviu mais passos até o sótão, Alex, Cat e Maggie aparecem confusas, olhando em volta do cômodo.
— Que barulheira vocês duas! – Maggie disse, em seguida olhando assustada para Kara que segurava o pescoço – Tudo bem? O que aconteceu?
Lena olhou confusa para Kara, realmente não entendia o que acontecia com a garota. Estava com frio?
Kara por sua vez olhava espantada para Lena. Que tipo de brincadeira era aquela? Porque havia tentado enforcá-la?
— Tudo bem, Kaa? – Lena perguntou, com a preocupação costumeira – Eu assustei você?
Kara negou com a cabeça, não queria contar às outras garotas o que acabara de acontecer. Na verdade, nem ela mesmo entendia o que havia acontecido.
— E-eu não quero mais brincar – disse assustada, se esgueirando para o lado de Cat e deixando Lena ainda mais confusa.
Não entendia o que tinha deixado Kara tão assustada daquela forma!
— Vamos voltar para a lareira, meus dedos estão congelando! – Maggie reclamou.
Lena então percebeu que estavam no sótão, e seus olhos arregalaram implorando para que todos saíssem logo daquele lugar.
— Calma aí, Luthor – Alex riu, mas Lena não parecia estar brincando.
Quando já desciam as longas escadarias, Lena tentou segurar na mão de Kara, mas a garota recuou rapidamente, assustada.
Vendo os olhos magoados de Lena, Kara não se conteve em enlaçar seus dedos na da amiga, deixando suas dúvidas e medos para mais tarde.
O que havia acontecido era tudo fruto da sua imaginação? Era o medo deixando-a louca e alucinada por alguns minutos?
Conversaria com Lena, havia algo muito estranho em tudo aquilo.