12 - O final

4001 Palavras
Lena e nenhuma das outras garotas ficaram para presenciar a execução. Mesmo com sua insegurança sobre a mentira, Kara percebeu que todo vilarejo acreditou intensamente na história que Lena contou. Ofereceram ajuda e moradia para Lena, mas Eliza se prontificou em acolher a garota e levá-la embora de uma vez daquela multidão. Kara sentiu uma nostalgia enquanto arrumava roupas para Lena vestir depois que tomasse seu banho. Lembrou-se do seu primeiro beijo, quando a maior lhe emprestou roupas secas após tomar uma grande chuva no estábulo. Conseguiu fazê-la sorrir por um instante quando encararam os dois corpos no espelho, a imagem de Lena com roupas menores do que as costumeiras era realmente uma imagem engraçada. — Pare de rir, eu estou ridícula! – Lena abraçou Kara de lado, afundando o rosto no pescoço da sua amada. O cheiro familiar lhe dava conforto, e seu coração sentia-se leve por alguns segundos, segura de que tinha Kara em seus braços. Kara iria dizer algo, mas Eliza entrou no cômodo, confusa com a imagem das duas naqueles toques tão íntimos. Lena e Kara se distanciaram o mais rápido possível, aceitando as xícaras de chá que a mulher lhes oferecia. — Eu queria muito que você me levasse agora ao hospital – a morena se referia ao pai, e Kara fez uma careta cansada. — Não acha melhor descansarem um pouco? – Eliza interferiu mais uma vez, já procurando por mais travesseiros e cobertores – Veja, você pode dormir na cama de Caitlin aqui no quarto com Kara, as duas ficarão bem com a sala — Não! Longe de mim tomar o lugar de suas filhas! – Lena se apressou, mas Eliza sorriu consoladora. — Caitlin e Samantha insistiram. Disseram que preferem a lareira aos roncos de Kara – a mãe disse sorridente. Agora que os problemas estavam solucionados, não tinha mais motivo para o medo. Pelo menos era isso que a mulher acreditava. — Eu ainda insisto para que me deixem ficar com a sala... — Tudo bem, Lena – Kara apertou seu braço – Cait sempre dorme na sala por causa da lareira no inverno, na verdade, você está fazendo um favor às duas. Eu não as deixo ficar cochichando a noite toda A cama foi rapidamente arrumada e as xícaras de chá vazias recolhidas. Eliza disse a Lena para que ela descansasse e que faria um prato especial para o jantar. — Sua mãe está fazendo muito por mim – Lena suspirou, sentando-se exausta na cama que ficava no meio, exatamente a de Caitlin. Kara estendia alguns cobertores em sua própria cama, sentindo seu corpo implorar imediatamente por descanso. Lena observou Kara arrastar a própria cama até a que estava sentada, resolvendo ajudar a menor que parecia fraca demais para o simples ato de movê-la mais alguns centímetros. — Obrigada – a de olhos azuis agradeceu. Checou se a porta estava realmente trancada, em seguida juntou-se a Lena que já se deitava na cama e usava os cobertores para se aquecer o mais rápido possível. Tudo estava bem agora. Sem medos e preocupações. Lena estava de volta, viva e à salvo. O coração de Kara finalmente teve uma trégua de tanto sofrimento. Kara se aproximou ainda mais de Lena, abraçando o peito da maior e respirando fundo seu cheiro. A menor sentiu tanto a falta daquele cheiro familiar, das mãos firmes acariciando sua cintura, dos beijos calmos em sua testa, dos carinhos viciantes em seus cabelos loiros. Ela sentiu a falta de Lena por completo. Da voz rouca, das piadas terríveis, dos elogios que a faziam corar. O que faria se não tivesse resgatado Lena? Kara nem sequer conseguia pensar nisso. — Hey – Lena chamou depois de alguns minutos, erguendo o queixo de Kara para poder encarar aquelas orbes azuis que tanto amava – Durma, ainda vamos ao hospital mais tarde, e sei que está cansada. — Eu estou – Kara confessou, beijando o pescoço exposto de Lena timidamente – Mas eu quero... Ficar um pouco mais com você. Ela piscou cansada, sentindo Lena apertá-la ainda mais em seus braços. A morena beijou sua testa, sussurrando que não iria a lugar nenhum enquanto a menor dormia. — Você não vai descansar também? – perguntou confusa, sentindo a maior dar de ombros. — Não acho que consigo pegar no sono com tudo isso borbulhando em minha mente. Lena estava tentando lidar com todos aqueles sentimentos inquietantes, não queria preocupar Kara ainda mais do que já preocupava. Teria que aceitar o fato de que não foi a culpada pela morte de Lillian, por mais que isso parecesse impossível no momento. Sabia que tinha sua parcela de culpa, e nada a faria mudar de ideia. — Lena, eu vou dormir um pouquinho – Kara sussurrou, tirando a maior de seus devaneios – Mas, por favor, não saia sem mim. Sorriu um pouco com o beijo que Kara deixou em sua mandíbula, esfregando o nariz em seu pescoço e finalmente relaxando. Os corpos quentes embalados embaixo do cobertor, seguros e confortáveis como nunca. — Estarei aqui quando acordar – confirmou. — Eu te amo – Kara disse antes de cair no sono, relaxando o coração de Lena. — Eu também amo você – sussurrou – Obrigado por me salvar. Kara grunhiu em resposta, apertando-se ao corpo da sua amada. ◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆ — Prometam que voltarão antes do jantar?! – Eliza acenou para as duas garotas agasalhadas que partiam em direção ao hospital. — Não vamos demorar, senhora Danvers – Lena assegurou – Até. As duas seguiram em silêncio pelas ruas vazias do vilarejo. Kara não havia dormido o suficiente, mas prometera que levaria Lena até seu pai, então cumpriria sua promessa. Lena tentou contestar que conseguiria ir sozinha, mas a menor se negou a deixá-la. — Chegue mais perto, está muito frio – Lena abriu seu casaco, esticando o braço direito para que Kara se encaixasse ali. Alex havia deixado algumas roupas para Lena enquanto as duas descansavam. As roupas de Kara não serviriam nela de qualquer forma. — Alguém pode nos ver – Kara alertou, soprando o ar frio pelos seus lábios. — Só até chegarmos, você está congelando. Vamos, venha logo – Lena puxou a garota, sorrindo quando ela bufou desistente. Um sorriso feliz pairando em seus lábios finos. — Só porque você é quentinha – murmurou, respirando fundo. Kara podia sentir como a morena estava tensa para reencontrar seu pai. Não era para menos, ela foi a pessoa que causou tudo aquilo. Kara não tinha a certeza se queria reencontrá-lo também. Da última vez que se viram o senhor Luthor mandou que ela abrisse o cofre e matasse Lena. É claro que não contou isso a maior. Lena já tinha coisas demais em sua cabeça. Quando finalmente chegaram ao local, Kara apressou-se até uma senhora que vestia seu uniforme de enfermeira. Ela segurava uma prancheta em suas mãos, dando ordens para outras funcionárias. — Olá – a senhora deu atenção a Kara quando a jovem tocou seu ombro – E-eu trouxe a filha do senhor Luthor, Lena Luthor. Ela queria falar com o pai. Eu sei que não é o horário certo para visitas, mas... — Não! – a mulher se aproximou de Lena – Eu vi o alvoroço na praça. Fico feliz que esteja bem, minha filha. Lena concordou, sorrindo fraco para senhora. Tentou ajeitar os cabelos rebeldes para disfarçar o nervosismo. Não sabia se estava preparada para reencontrar aquele homem. — Então, eu posso vê-lo? – perguntou, e a senhora suspirou. — Eu sou a enfermeira chefe, é claro que pode – puxou Lena em direção ao grande corredor – Sua amiga vai acompanhá-la? — Eu posso? – Kara pediu permissão tanto para a senhora quanto para Lena. Não sabia exatamente se Lena queria falar com seu pai sozinha. Não queria atrapalhar nada. — Pode sim – ela respondeu, e Lena estendeu uma das mãos para Kara. — Tudo bem mesmo? – Kara pegou em sua mão apenas por uns meros segundos, não querendo chamar a atenção das enfermeiras. — Tenho, eu preciso que esteja comigo. Kara sentiu o peso daquelas palavras. Queria dizer a ela que estaria ali sempre, que jamais a abandonaria. Mas quando percebeu já estavam em frente à porta do senhor Luthor. — Antes que entre, eu preciso que saiba – a enfermeira começou, encarando Lena com o sentimento de pena – Seu pai não está muito bem, nós tentamos muito, mas ele não tem mais do que alguns dias de vida. Seu corpo parece estar rejeitando nossos poucos medicamentos e seus ferimentos não estão se curando. Eu sinto muito. É completamente diferente de tudo o que já vimos. Seus machucados não cicatrizam, seu corpo está fraco e frágil demais. Aquelas palavras ecoaram pelo corredor. A Danvers pode ver como os olhos de Lena estavam cheios de lágrimas, e como sua pele parecia pálida novamente. Por mais que seu pai fosse culpado por tudo, ainda era o seu pai. Era um sentimento vazio dentro do peito, o coração afundando miseravelmente. — Lena? – Kara pegou em sua mão, ignorando a presença da enfermeira. Não sabia exatamente o que dizer, desejava poder sentir as dores de Lena e poupá-la se todos esses acontecimentos. Mas ela simplesmente não podia. — Vamos entrar – murmurou, com o olhar vago na porta de madeira em sua frente. A senhora abriu a porta devagar, deixando que as duas entrassem. — Vou estar na recepção – disse baixo, sorrindo tristemente para Kara. Lena caminhou devagar até a cama onde o homem repousava. Estava magro e os ferimentos de seu rosto realmente não haviam se curado. Uma faixa rodeava seu peito, e sua respiração era difícil. Puxou uma cadeira que estava encostada na parede, sentando-se ao lado de seu pai, finalmente caindo em lágrimas. — Por que fez isso?! – Lena disse em soluços – Eu só queria poder entender porquê acabou com nossas vidas dessa forma. Quero culpá-lo tanto quanto me culpo pela morte da minha mãe. Não posso acreditar que fez tudo isso... Por dinheiro. Foi por isso não foi? Kara me contou! Você fez isso por dinheiro. Kara sentiu pontadas em seu coração, as bochechas molhadas quando lágrimas também escorreram. Caminhou incerta até Lena, pousando uma das mãos em suas costas como consolo. Era tão doloroso presenciar ela destruída daquela forma. — Eu te odeio – Lena soluçou, cobrindo o rosto com as duas mãos abafando o próprio choro – Odeio o que fez comigo, com a nossa família... Como pôde ser tão frio? Como pôde?! Ela estava muito alterada, sua voz ecoava pelo quarto e com toda certeza pelos corredores. Mas Kara não queria pará-la, não tiraria o direito da maior de esvaziar seu peito das dores dilacerantes. Ouviram uma longa respiração. O senhor Luthor abriu os olhos com tamanha dificuldade, arregalando as orbes verdes quando avistou sua filha sentada ao seu lado. O homem tentou dizer algo, até mesmo sentar-se na cama, mas estava fraco demais. As vezes que tentava falar, uma crise de tosse interrompia, levando suas forças embora. Lena limpou suas bochechas no casaco, mordendo os lábios vermelhos para se conter. Sentia tanto ódio, tanta raiva do que aquele homem havia feito. — Nem sequer tem forças pra dizer que é um monstro – sussurrou para o pai – Queria que admitisse que é um monstro. Um demônio. Queria que admitisse que acabou com as nossas vidas, que fez tudo isso por dinheiro. Queria que me pudesse dizer que é um bastardo egoísta! Kara tremeu dos pés a cabeça, apertando o casaco de Lena em seus dedos. De repente, para a surpresa de Kara, lágrimas também escorreram pelo rosto do homem. O senhor Luthor murmurou palavras incompreensíveis, deixando que mais lágrimas escorressem por seu rosto. — Não sei o que está dizendo, mas espero que não seja um pedido de desculpas – Lena levantou-se da cadeira – Por que isso nunca traria de volta tudo o que você tirou de mim. Minutos se arrastaram, os soluços do homem eram o único som naquela quarto. Kara queria poder confortar Lena, tirá-la daquele lugar e abraçá-la, dizer que tudo ficaria bem. O amor de Kara pela jovem Luthor era grande. Grande demais para o seu coração apertado pela dor de vê-la naquele estado. Ela desejou que pudessem se despedir do senhor Luthor de uma vez para saírem daquele hospital. Lena precisava de um descanso. Eles todos precisavam. Kara foi interrompida pela maior que já se levantava, arrastando a cadeira de volta para a parede e terminando de enxugar as bochechas. Os olhos verdes e úmidos entregavam completamente sua dor, mesmo que ela estivesse se esforçando muito para escondê-la. — Vamos, eu ainda quero ver onde minha mãe foi enterrada – Lena puxou seu pulso para que saíssem de uma vez do quarto, sem sequer olharem para trás. O senhor Luthor teria poucos dias de vida pelo que a enfermeira havia lhes contado, e com toda certeza aquela seria a última vez que Lena o visitaria. Kara pensou que talvez Lena se negasse até mesmo de ir ao enterro do pai. Mas jamais a culparia. O que o senhor Luthor fez jamais seria perdoado. Acenaram para a enfermeira antes de seguirem em direção à igreja. O cemitério ficava aos fundos, e para um vilarejo tão pequeno, não era difícil de encontrar o túmulo de Lillian. O de sua mãe estava mais ao fundo, embaixo de uma árvore seca pelo inverno. O nome estava um pouco coberto de neve, e Lena rapidamente se ajoelhou para retirá-la. Kara não queria incomodá-la naquele momento, mas a maior não deixou de segurar sua mão nem por um segundo, como um pedido silencioso para que permanecesse. — Eu não gosto de pensar que ela estava envolvida nisso – Lena fungou, negando-se a chorar mais uma vez – Sabe, eu sou sua única filha, ela poderia ter fugido comigo ou impedido que meu... Que aquele homem fizesse o que fez. Mas ela não fugiu. Não o impediu. Ela simplesmente deixou que ele tornasse as nossas vidas um inferno. Havia muitas flores, agora mortas, em volta do túmulo. Kara observou atentamente Lena limpar um pouco mais a neve, em seguida escondendo sua mão dentro do casaco por culpa do frio — Eu sinto muito – Kara finalmente disse, fungando logo em seguida – Sinto muito mesmo. O vento soprou muito forte, fazendo com que a árvore derrubasse mais neve. Lena sorriu tristemente, virando-se para poder abraçar Kara um pouco. O corpo quente de Lena fez Kara se sentir segura novamente, e o mesmo efeito aconteceu na jovem Luthor. — Eu também sinto – respondeu, tirando a mão do casaco para poder afastar os cabelos que caiam sobre o rosto de Kara em sua testa, em seguida beijando o local. Ficaram mais alguns minutos ali, até Lena dizer que deveriam ir antes que Eliza ficasse preocupada pela demora. Foi apenas uma desculpa para não chorar, Kara sabia disso. Lena estava quebrada e ainda assim tentava esconder seus ferimentos. — Vamos, eu tenho a certeza que Cat, Alex e Maggie estão esperando também – seguiram para fora do cemitério, as ruas vazias permitindo que voltassem de mãos dadas até a pequena casa. Antes que entrassem, a menor abraçou o peito de Lena, deixando-se escutar as batidas do seu coração. Lena apoiou seu queixo nos cabelos cheirosos de Kara, sentindo suas dores se acalmarem um pouco. — Eu te amo – Lena sussurrou, pensando em como aquelas palavras eram verdadeiras. Beijou a testa de Kara mais uma vez, afastando a garota para poder admirar os olhos azuis pelos quais era tão apaixonada. Deixou um pequeno beijo nos lábios frios e finos da menor, voltando a colocar seu queixo nos cabelos castanhos. Kara beijou seu queixo, respirando fundo o ar frio da noite. A porta se abriu, revelando Cat com um grande prato de sopa e um pedaço de pão na boca. — Elas já chegaram! – gritou em felicidade, atraindo a atenção de todas as outras amigas e a família de Kara. — Oh, finalmente! Entrem, vou preparar um prato de sopa para vocês duas – a mãe de Kara já ia para a cozinha, pedindo ajuda para Caitlin que alimentava suas irmãs. Lena foi esmagada por abraços de Alex e Maggie. Cat até deixou seu jantar de lado para se agarrar a Lena e dizer que sentiu muito sua falta. Mais tarde, quando todas já estavam saciadas com a deliciosa sopa de Eliza, Lena recebeu a visita de Joanne, a empregada da casa dos Luthor e claro, sua segunda mãe. Lena não conseguia conter tamanha alegria em saber que a mulher estava bem, chorando mais uma vez. Kara sorriu muito naquele jantar, apaixonada pela ideia de que sua Lena estava ali, sã e salva, com um pequeno sorriso no rosto e principalmente, pronta para recomeçar. ◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆ — Então, o que pretende fazer agora? Já faz duas semanas desde... – Maggie deu uma pausa, respirando o ar puro e gelado da clareira onde estavam – Desde que seu pai... Faleceu. Você parece calma, eu não sei, estou preocupada. Lena sorriu um pouco ao ver Kara correr atrás de uma bola de futebol junto à Alex e Cat, que discutiam sobre o que iriam jogar. Era uma manhã de domingo, a neve finalmente estava derretendo e o sol esquentava a pele exposta de Lena, deixando-a confortável. Kara gargalhava alto, acenando para a mais velha que estava sentada próximo a Maggie. Superar o passado era difícil. Lena sabia disso. Mas estava se esforçando muito para erguer a cabeça e seguir em frente. Os dias de lágrimas e dores haviam deixado marcas profundas, mas essas marcas iriam cicatrizar em algum momento. — Não se preocupe comigo, eu só estou lidando com as coisas – deu de ombros, sorrindo calmamente para a amiga – Temos que seguir em frente, Maggie. Eu digo isso a mim mesma todos os dias. — Eu sei, eu sei, só quero que saiba que eu estou aqui para o que precisar, okay? Lena concordou, afastando as lembranças do passado de sua mente. Ele havia falecido no hospital, todos já conformados que o homem não teria muitos dias. Joanne cuidou de todos os documentos relacionados ao enterro, e como pedido de Lena, o túmulo do senhor Luthor não foi construído próximo ao de Lillian. — Você tem planos? Pode ficar um tempo em minha casa se quiser. Eu sei que Eliza está adorando ter você lá, principalmente Kara, mas pode contar com a minha ajuda. A mão de Lena pairou no ombro da amiga, apertando levemente e lhe passando confiança. — Mandei uma carta para o meu avô há alguns dias. Ele foi a única família que me sobrou, e eu sou sua única herdeira. Ele e meu pai... Nunca foram próximos, não sei o real motivo. Meu avô é dono de uma grande indústria de carvão, mas o pouco que eu sei e pela resposta dita na carta, ele não passaria sua herança para o meu pai. Não sei sobre a briga que tiveram no passado, e realmente não me importo. Mas, para minha surpresa, meu avô ficou feliz quando eu lhe pedi um emprego na cidade, e ele disse que seu sócio, chamado Oliver Queen, iria me visitar em breve. — Então você vai embora?! – Maggie perguntou surpresa. — Eu sou a única herdeira do meu avô. E cheguei a conclusão de que... De que não posso mais viver nesse vilarejo. Com esses mesmos rostos, as mesmas lembranças, com aquela mansão. Preciso recomeçar minha vida em outro lugar. Meu avô está disposto a me ensinar tudo o que sabe, e eu quero aprender. Quero ser uma mulher independente, dona do meu próprio destino e da minha própria verdade. O vento frio acariciou as bochechas de Lena, bagunçando ainda mais seus cabelos rebeldes. — Mas e... e Kara? Lena admirou Kara se jogar na grama com um sorriso magnífico. Sua risada ecoava por todos os cantos daquela clareira. Parecia tão feliz, com aquele pequeno v que se formava entre seus olhos e as mãos levantadas em busca de ajuda para se levantar. Luthor a amava tanto. Era um sentimento indescritível. Como se cada célula de seu corpo pedisse por Kara a todo instante. Como se a única razão de acordar todos os dias fosse ela. Acordar e ver aquele lindo sorriso, ouvir sua voz angelical e risada contagiante, e principalmente admirar a beleza sobrenatural da menor. Lena não abandonaria Kara. Jamais. — Quando Oliver chegar ao vilarejo para me buscar, eu irei com ele. Aprenderei tudo o que preciso com meu avô e seguirei seus passos, talvez farei uma faculdade. Eu vou formar a minha vida longe desse passado. E Kara irá comigo. — O quê? Lena... E-eu não acho que Eliza permitiria isso... E que Kara teria coragem de abandonar sua família. Me desculpe. Um suspiro deixou o peito da maior, que fechou os olhos aproveitando a brisa. — Ela não vai abandonar sua família. Vou levar Kara para estudar na cidade. Ela será minha sombra naquele lugar. Eu não vou deixá-la aqui, Maggie. Onde eu estiver, Kara vai estar. Ela irá estudar em uma faculdade, eu bancarei seus custos com o todo o dinheiro sujo que meu pai conseguiu. Também ajudarei Eliza, aquela mulher tem sido incrível. Comprarei uma boa casa, investirei no meu futuro. No nosso futuro. Maggie deixou-se pensar por um tempo, encarando sua amiga. — Você... A ama? Digo, amar daquela forma mesmo? Desde aquele beijo de vocês venho me perguntando isso. Lena concordou sem hesitar, estava se perguntando desde aquele dia quando alguma delas iria perguntar sobre. Maggie tomou uma grande lufada de ar. — Eu sabia – finalmente sorriu, dando um pequeno soco sem jeito no ombro da morena – Você está certa, se a ama, não a abandone aqui. Depois de tudo o que passaram, em hipótese alguma merecem se distanciar. As duas amigas ouviram gritos e mais risadas se aproximando, Kara segurava um coelho assustado nos braços e Cat tentava tirá-la da outra a todo custo. — Lena! – Kara sorriu alegre, levando o coelho até a maior – Olha o que eu consegui pegar! — Deixe o coelho em paz, Kara! – Alex choramingou, com pena do pobre animal. Mas Kara parecia encantada pela criatura, abraçando-o contra o peito com cuidado e acariciando suas orelhas compridas. — Eu não vou machucar ele – fez um pequeno biquinho adorável, os olhos azuis encontrando os verdes – Diga à ela, Lee. Eu não vou machucá-lo. Alex bufou. — É só um coelho, Alex – Lena sorriu consoladora, enquanto Alex tentava arrancar o animal dos braços de Kara novamente. Até que, em meio à discussão, o pequeno coelho escapou do aperto da menor, correndo de volta para mata. Kara gritou e disparou atrás do animal, sendo seguido por Alex que gritava para deixá-lo em paz, e Cat que ria pelo desespero de Kara. Maggie e Lena riram quando as garotas desapareceram em meio as árvores, ainda escutando os gritos de Kara e a risada escandalosa de Cat. — Vou sentir falta de vocês – Sawyer afirmou. — Não sinta, vou esperar a visita de vocês sempre. Prometa que não deixará de enviar cartas também, Kara ficará muito feliz. — Eu prometo – Maggie riu, suspirando – Cuide bem dela. As garotas voltaram à clareira, Kara com a fachada emburrada sem nenhum coelho nos braços, Alex extremamente aliviada, e Cat ainda risonha. A jovem de olhos verdes concordou, admirando Kara voltar para ela devagar, um tanto desapontada, sentando-se ao seu lado e descansando a cabeça em seu ombro. — Ela é a luz que sempre me salvará da escuridão – Lena sussurrou, beijando a bochecha corada de Kara – E eu sempre cuidarei para que nunca se apague. FIM.
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