11 - O assassino

4931 Palavras
— Winn – Kara chamou quando finalmente conseguiu acalmar a própria respiração – Precisamos procurar as outras, eu não sei o que aquele demônio está planejando, mas não posso deixar que machuque minhas amigas. — Sim, você tem razão – Winn guardou novamente a água benta – Você vai procurar por Alex e eu vou... — Não! Não vamos nos separar – Kara puxou Winn para fora da casa, as mãos ainda trêmulas pela adrenalina, prontas para se defender se fosse necessário – Talvez seja isso que ela queira, nós precisamos ficar todos juntos. Ouviram alguns passos pelo jardim, Winn já se posicionava ao lado de Kara apertando a mão da outra garota para que ficasse quieta. Quando uma sombra apareceu, Kara pegou sua água benta, estava pronta para jogar até que ouviram a voz de Cat. — Hey, por que está aqui? Você é a isca! – Cat disse em um sussurro, mas foi interrompida pelo abraço apertado de Kara – O quê? — O demônio sabe que estamos aqui – Winn explicou – Nós precisamos achar as outras duas. Você sabe onde elas estão? — Bom, pelos meus cálculos, a Alex e a Maggie chegariam aqui antes mesmo de mim – Cat encarou Kara com uma expressão preocupada, o medo tomando espaço em seu corpo – Isso não é nada bom... — Vamos procurá-las do lado de fora, talvez estejam apenas atrasadas – as duas seguiram Winn que resolveu ir na frente. Estava ainda mais escuro, a lamparina de Kara não ajudava muito no breu que se encontrava as ruas. Cat chamou por Alex e Maggie, mas não obtiveram nenhuma resposta. Resolveram dar a volta em toda mansão, o que foi uma missão um tanto demorada, já que a chuva do dia anterior derrubou algumas árvores pelo caminho. Não encontraram nenhum sinal das garotas, apenas as linhas de sal devidamente traçadas. — Elas estavam aqui e fizeram a linha de sal – Cat tentava entender – E se... E se elas arrumaram um jeito de entrar pela porta da frente da mansão, talvez quebraram alguma janela. — Nós teríamos ouvido – Kara suspirou, estava tão agoniada que seu coração doía dentro do peito – Mas... Cat! Quando viemos aqui pela última vez, Lena... digo, o demônio conseguia abrir e trancar as portas... E se a porta da frente estiver aberta? — Alex não seria tão tola de entrar – disse, então bateu em sua própria testa – Mas Maggie é uma i****a, e se ela entrou com certeza Alex não a deixou para trás. — Ou elas foram embora – Winn levantou a hipótese, mas Cat já caminhava para a entrada da mansão. — Elas entraram, eu tenho certeza disso. Alex e Maggie não nos abandonariam aqui – concluiu mais do que convencida. Caminharam rapidamente pela entrada principal da mansão, até então, tinham apenas entrado e saído pelos fundos, e agora procuravam pelas outras duas naquela grande escuridão. — Veja se está aberta – Kara o fez, segurando a maçaneta e respirando fundo antes de virar. Sim, estava aberta. — Alex? Maggie? – Kara sussurrou para dentro da casa, abrindo a porta de uma vez e esticando sua mão com a lamparina, tentando encontrá-las – Vocês estão aí? Os três adentraram a casa, Kara encarou o espelho onde se assustou há minutos atrás. Um arrepio percorreu todo seu corpo ao se lembrar das mãos quentes de Lena apertando sua cintura. Não poderia perder o foco, precisava encontrar Alex e Maggie. Ainda assim, as imagens dos sonhos que tivera não deixava sua mente em paz. — Você está bem? – Cat perguntou em sua direção, e a menor assentiu rapidamente. — Eu estou preocupada, nós não temos mais um plano – Kara confessou, encarando seu reflexo no espelho. O rosto estava extremamente pálido e o cabelo uma bagunça de fios loiros. As olheiras pelas noites m*l dormidas era o que mais chamava a atenção em seu rosto. Estava terrível. Principalmente porque ainda sentia dores em sua perna pelo machucado que recebeu na última vez que vieram até aqui. Kara sentiu-se ainda mais preocupada quando lembrou que Maggie também estava ferida. — Alex, Maggie! – Winn gritou diversas vezes, até que ouviram passos rápidos pela escada. Kara rapidamente ergueu a lamparina, se deparando com uma Maggie completamente espantada. Todo seu corpo tremia e seu rosto estava sujo e molhado pelo que parecia ser lágrimas. — Alex! Vocês a viram?! – ela perguntou aflita, o desespero em sua voz – Nós entramos aqui e quando eu me virei ela havia sumido! Eu tirei os olhos dela por dois segundos e ela desapareceu!! Maggie não conseguia conter o choro, gritando pelo nome da amiga diversas vezes. — Eu procurei em todos os quartos, ela não estava! Não estava! – soluçou, limpando o rosto com as costas de suas mãos – Eu não posso perdê-la. Kara correu para segurar a amiga, abraçando-a fortemente. Entendia sua dor, é claro que entendia. — Ela sabe do nosso plano – Kara contou, tentando conter seu próprio choro. Precisava se manter forte, suas amigas precisavam dela – O demônio pode estar brincando com a gente. — E acredite, essa é a brincadeira mais divertida que tive nesses últimos dias – uma voz soou da porta ao lado. Lena estava ali, limpando as mãos sujas na camisa. Sujas de sangue – O quê? Minhas mãos? Ah, eu tive alguns probleminhas lá em cima. Maggie berrou querendo soltar-se de Kara, mas ela segurou firme. — O que você fez com a Alex! – gritou – Eu vou acabar com você!! Seu monstro! Ela é a nossa amiga... — Não é a Lena – Kara sussurrou para Maggie, tentando contê-la o mais rápido possível. — Ora, não seja tão dramática assim – Lena se aproximou, arrumando os cabelos negros para trás. Mas infelizmente, não próximo o suficiente para Kara conseguisse acertá-la com a água benta, e mesmo que estivesse, suas mãos estavam ocupadas segurando Maggie – Você nem sequer sabe o que houve. Bem, vamos jogar um jogo, sim? Que tal esconde-esconde? Kara franziu o cenho, sua testa suava pelo esforço de segurar Maggie para que não atacasse Lena. Sabia que aquela não era uma boa ideia. Os lábios vermelhos do demônio foram mordidos pela mesma, atraindo a atenção da menor. Ela estava a provocando, Kara sabia disso. — Nós queremos saber onde está Alex! – Cat disse ríspida, mas ainda assim era perceptível o medo em sua voz. — Oh, e vocês vão saber – colocou a mão por dentro de seu terno. Kara esperou que ela tirasse algo como uma faca ou coisa pior, mas era apenas um relógio de bolso – Se decidirem brincar, eu explicarei as regras. E o melhor! O Prêmio será sua tão amada Alex. Kara engoliu em seco, sabia que teria de responder essa pergunta antes que Maggie perdesse a cabeça de uma vez. — Teremos à Alex de volta se... Se brincarmos? – perguntou nervosa, os cabelos loiros caindo em sua testa pelo suor. Lena sorriu em sua direção. — Se ganharem, sim – piscou os olhos negros para Kara – Esse esconde-esconde é diferente. Eu escondi o prêmio de vocês, e se encontrarem até o tempo que eu decidir, vocês ficam com ela. — E s-se não encontrarmos? – Winn finalmente conseguiu dizer algo. Lena guardou o relógio, fixando seus olhos negros na face angelical de Kara. Os olhos azuis mais puros que qualquer outro. Os lábios finos tão desejáveis, era enlouquecedor. — Se não encontrarem antes que o tempo termine, eu escolherei o meu prêmio – mordeu os lábios vermelhos. Os olhos transbordando luxúria – E eu quero a Kara. A respiração da menor paralisou-se, os músculos pareciam não sustentar mais o seu corpo. 'Venha comigo, amour', 'Seja minha de corpo e alma'. O demônio queria levá-la junto a si para algum lugar. A mente de Kara girava e girava sobre esse lugar ser o próprio inferno. Para onde mais esse demônio a levaria? — Vocês tem quinze minutos para encontrá-la na mansão – sorriu maldosamente – Estarei esperando por você, querida – cantarolou em direção a Kara, então desapareceu na escuridão. — Vamos! – Maggie gritou antes mesmo de repensarem sobre tudo o que o demônio havia dito. Era mesmo verdade? Alex poderia muito bem não estar aqui. Parecia descomplicado demais. Afinal, como confiar em um demônio? Qual a garantia de que achariam Alex no andar de cima? — Não se separem! – Kara esbravejou ao se esforçar ao máximo para não cair na escada, os sapatos pareciam escorregadios na madeira. Correram o mais rápido que puderam até a primeira porta, mas estava trancada. Então foram até a segunda, que também estava. O mesmo com a terceira. Winn já parecia exausto de tanto chutá-las. — Ela está nos enganando! – Cat gritou, esmurrando com ódio a terceira porta. — O que você esperava?! Ela é um demônio! – Winn testou a quarta porta com rapidez, mas também estava trancada – Alex? Alex?! Você está aqui! — Essa está aberta! – ouviram a voz de Maggie na sexta porta. Correram o mais rápido que puderam, mas de repente, a lamparina nas mãos de Kara foi apagada, exatamente como se alguém tivesse soprado. — A luz! – Kara berrou, mas foi interrompida por gritos desesperados de Cat. — Não! Kara! Me ajuda! Me ajuda! – a voz foi se distanciando pelo corredor, como se estivesse sendo arrastada – Socorro!! — Cat! – Kara gritou para a escuridão, uma luz apareceu no quarto quando Maggie abriu as cortinas com rapidez, deixando que a luminosidade da lua entrasse. — Vão atrás de Cat e eu procuro Alex! – exclamou correndo para o outro quarto, grunhindo quando percebeu que a porta estava trancada. — Mas não podemos nos separar.. – Kara já estava prestes a chorar, tinham quinze minutos para achar sua amiga e agora Cat havia sido levada. — Vá! – Maggie gritou, e Winn apressou-se para puxar Kara pelo corredor escuro. Ouviram mais gritos desesperados, a de olhos azuis sentia-se atordoada pela escuridão e os gritos suplicantes de Cat. Precisava fazer alguma coisa, precisava agora mesmo. Era a única que poderia terminar de uma vez por todas com isso. Colocaria um ponto final antes que machucasse todos os outros. Parou de correr, sentindo Winn o puxá-la. — Nós temos que encontrá-la! – Kara o ignorou, fechando os olhos com força e tomando coragem para fazer o que era certo. Suas amigas não iriam sofrer por um erro que ela cometeu. Trocaria sua vida pela delas se fosse preciso. — Lena! – gritou o mais alto que pode – Lena! Eu vou com você! Eu vou! Mas deixe eles em paz. Não ouviram mais nada depois daquilo. Era apenas o som das respirações ofegantes e de seu coração agitado. Ela engoliu em seco, os olhos espremidos tentando enxergar algo na escuridão do corredor. — Eu serei toda sua se deixar eles irem embora – as mãos buscaram a garrafa de água benta, em seguida jogou o objeto para longe – Eu prometo, só não os machuque. Winn estava boquiaberto ao lado de Kara, olhando incrédulo para a garota. Antes que dissesse algo, ouviram algumas palmas no começo do corredor. — Eu estava esperando por isso, querida – Lena entrou no campo de visão deles, a luz da lua iluminava muito bem sua face calma. Estendeu uma das mãos em direção a Kara, um sorriso pairava em seus lábios rubros. Mas Winn foi rápido em pegar sua garrafa e jogar o líquido na direção do demônio. Lena afastou-se antes que toda água a atingisse, pegando apenas uma área de seu braço. Urrou de dor, mirando seus olhos negros no garoto, caminhou até ele com rapidez e lhe deu um tapa tão forte que Winn foi lançado para o outro lado da parede. — Não! – Kara berrou, entrando na frente do corpo – Não o mate! Por favor! Eu já estou aqui! Os olhos de Lena transbordavam ódio, parecia tentar controlar sua vontade de acabar com a vida do garoto desacordado no chão. — Pegue minha mão – ordenou friamente, e a garota concordou o mais rápido possível, sabendo que assim salvaria Winn – Vamos para o sótão. Você irá fazer um juramento para mim. Um juramento. Kara não entendia o que aquilo significava. — Mas e minhas amigas?! — Estarão livres depois que fizer o que eu mandar – interrompeu os passos. O demônio encarou Kara, soltou sua mão para acariciar a bochecha macia da menor – Eu quero que seja inteiramente minha. Eu sinto inveja do que essa garota tinha com você, inveja de Lena. Quero que se entregue a mim como se entregou a ela. Quero que me ame, que me sinta, quero ser sua. Kara estava boquiaberta. Sua mente estava em branco. É claro, essa obsessão toda do demônio pela jovem. — A alma dela já está longe, mas eu estou aqui – aproximou-se do rosto de Kara, os lábios muito próximos. Uma lágrima desceu pelo seu rosto, e o demônio foi rápido em secá-la – Venha. Kara foi puxada novamente, seus olhos repletos de lágrimas pelas palavras do demônio sobre a alma de Lena. Queria poder salvá-la, mas suas esperanças estavam chegando ao fim. Se não fosse junto ao demônio, todos os outros sofreriam por um erro seu. 'Por favor, Lena, me perdoe por não conseguir te salvar. Eu não posso deixar que ele machuque os outros. Por favor, me desculpe' Implorou, ainda sendo arrastada pelas mãos firmes até o sótão. Acabou tropeçando nas escadas, o coração cada vez mais pesado. Não sabia exatamente o que aconteceria, mas tinha a certeza que jamais veria seus amigos ou sua família. Nunca mais veria Lena. — Estenda sua outra mão para mim – ela ordenou, e Kara estendeu, sentindo os dedos frios sobre os seus – Vamos fazer o juramento de sangue. Assim, estaremos ligadas pela eternidade, amour. Sua mão foi apertada com força, Kara viu o demônio tirar uma pequena faca do bolso de seu terno. 'Eu jamais vou esquecer de você' Kara disse em seus pensamentos, desejando que Lena pudesse escutá-la. — O juramento começa agora – o demônio começou a proferir as palavras. 'Você é a melhor parte de mim, e não posso viver sem tê-la ao meu lado' — O sangue derramado irá nos unir – continuou, e Kara sentiu seu peito doer. Nunca poderia dizer a Lena o quanto sentia por ela. Nunca teria uma vida ao seu lado. Nunca realizaria seus sonhos. 'Eu te amo, Lena' Kara identificou a lâmina quando tocou sua pele, mas nada foi feito. Nenhum corte ou dor. Quando abriu os olhos viu Alex atrás do demônio, seu rosto sem qualquer expressão. O corpo de Lena tombou para frente e Kara teve de segurá-la. Então viu, cravado em suas costas havia uma faca. — NÃO! – gritou, segurando o corpo de Lena em seus braços. Kara se ajoelhou no chão, com a cabeça de Lena em seu colo. Seu sangue já manchava o chão, enquanto se engasgava sujando todo o paletó. Kara estava completamente chocada. Maggie gritava para ela se afastar, algo sobre ter conseguido abrir o cofre. Winn também estava lá, junto a Cat. Todos encarando Kara sem dizer uma palavra. Lena estava morrendo em seus braços. Sabia das consequências de usar a faca para matar o demônio. Isso também mataria Lena. E agora estava feito. Os olhos negros vidrados no rosto de Kara, havia um sorriso em seus lábios sujos, um sorriso sincero. Kara ouviu a sua voz rouca sair com dificuldade, o demônio se inclinando em seu colo, retirando a faca de suas costas. — Errou o coração – disse sorrindo, tentando se levantar, mas estava fraca. Kara arregalou os olhos. Ainda havia esperança. — Winn! É agora! – Kara segurou Lena em seus braços, mantendo-a no chão. O demônio estava fraco demais para lutar. Winn entendeu de imediato, tirando o papel com rapidez de seu bolso, o medo em sua voz era disfarçado pelas palavras fortes que saiam de seus lábios. O corpo no colo de Kara se sacudia como se queimasse por inteiro. Ela gritou, gritou para que parassem, gritou tão alto que Kara teve a sensação de seus ouvidos zunindo por um instante. O sangue havia parado de escorrer, mas a dor nas palavras de Lena eram esmagadoras. Kara quase pediu para que Winn parasse. Vê-la sofrer era doloroso demais. — Kara – o demônio chamou, gritando de dor mais uma vez – Eu irei esperar por você. Winn terminou de exorcizá-lo. Então, uma névoa foi vista sair do corpo de Lena, como uma luz n***a deixando-o, subindo cada vez mais, até desaparecer. Kara encarou o rosto em seu colo. Nada. — Lena! – chamou com esperança, mas não obteve nenhuma resposta. Tentou novamente – Lena! Lena, sou eu! Absolutamente nada. Cat ajoelhou-se próximo a Kara, estava chorando pelo desespero da amiga. Alex e Maggie fizeram o mesmo. Maggie tocou o ombro de Kara, como se dissesse que havia acabado. Mas Kara não queria aceitar. Lena estava salva, por que não acordava? Porque não estava respirando?! — Lena! Por favor! – engasgou com as lágrimas – Eu preciso de você aqui, eu preciso... Não me deixe, por favor... Isso não é justo! Deus! Isso não é justo! Abraçou o corpo em seus braços, as lágrimas molhando o rosto da amada. Sua mão direita desabotoou a camisa, buscando o colar que lhe dera em seu aniversário. Agarrou fortemente os dois colares juntos, chorando descontroladamente. — Eu te amo – sussurrou, apertando os olhos com força e abraçando Lena ainda mais – Não vá embora. Então, Kara sentiu uma mão quente acariciar seu rosto. Abriu os olhos depressa, avistando orbes verdes e cansadas encararem sua face assustada. — Kara? – a voz saiu rouca e fraca. A menor arregalou os olhos, mais lágrimas molharam seu rosto quando caiu por cima de Lena, abraçando seu corpo com tanto força que a fez gemer dolorida – Você está bem? Kara sorriu entre o choro, e não se conteve, e seus lábios vão rapidamente aos de Lena, beijando-a com pressa e saudade, foi apenas um selinho, mas ouviu-se das outras garotas exclamar em surpresa. — Eu te amo, eu te amo – disse finalmente em voz alta, segurando com firmeza o rosto de Lena – Eu te amo tanto. — Oh! – Lena tentou se sentar, mas continuava fraca. Alcançou o rosto de Kara novamente, acariciando as bochechas molhadas – Eu também te amo. Kara sorriu, finalmente encarando seus amigos, sua amada em seus braços. — Lena!!! – foi um grito alto. Alex, Maggie e Cat se atiraram na amiga, que exclamou sendo amassada por todas as outras. A menor soltou um grito assustado, afastando todos de cima de Lena. — Suas costas! Ela está ferida! – ralhou, ajudando Lena a sentar-se corretamente. Ergueu o paletó revelando a pele pálida da maior, e para o espanto de todos, sem nenhum machucado. — Se Alex errou o coração, o demônio pode ter se curado antes de terminar o exorcismo – Winn finalmente disse algo, suspirando – — Fico feliz que esteja bem, Luthor. — Demônio? – Lena disse confusa, deixando todos no sótão completamente tensos. — Você não se lembra de nada? – Kara foi a primeira a cortar o silêncio. Lena negou com a cabeça, encarando os olhos azuis dos quais era tão apaixonada. — Bom, eu me lembro de alguns pesadelos – disse fraca – E sinto como se tivesse passado muito tempo desacordada. Kara encarou suas amigas por um longo tempo. Lena precisava saber a verdade. — Nós vamos explicar, mas... Primeiro precisamos te tirar dessa casa. Lena estava pronta para fazer mais perguntas, mas Winn tomou a frente da situação. — Como é madrugada podemos ficar na igreja, eu posso esconder vocês nos fundos pela manhã. Kara concordou rapidamente, Em seguida encarando Lena e abraçando a maior com força. — Eu estou aqui com você, não esqueça disso. Lena sentiu uma certa preocupação naquelas palavras, mas seguiu as outras para fora da mansão. ◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆ Contaram tudo à menina Luthor. Quer dizer, Kara não achou que era o momento certo para contar sobre seus sonhos. Também não era necessário. Agora faziam parte do passado, assim como tudo o que sofreram naquela mansão. Lena estava em prantos, chorando desesperada nos braços de Kara, que também não pôde segurar suas lágrimas quando viu sua amada tão acabada. Imagine acordar de um 'pesadelo' e descobrir que tudo era pura realidade. Que sua mãe estava morta e que outros desastres também aconteceram por sua culpa. Lena encontrava-se completamente destruída. — Eu sinto muito – Kara murmurou, abraçando o peito da maior com mais firmeza. Os outros preferiram deixar Kara acalmar Lena sozinha. Sabiam que ela era a única que podia. — Não acredito que isso aconteceu, que deixei isso acontecer – soluçou, apertando-se contra Kara – Queria acordar desse verdadeiro pesadelo. — A culpa não é sua – Kara tirou o rosto de seu peito, inclinando-se para limpar as lágrimas das bochechas vermelhas de Lena – Nunca foi. — Mas... Minha mãe foi morta, e fui eu quem a matei – Lena se afastou, deixando-a confusa. Virou-se para respirar fundo, voltando a se lamentar. Seu coração doía tanto que desejava retirá-lo com as próprias mãos. Imediatamente, sentiu as mãos circularem suas costas, e viu por cima dos ombros Kara se aconchegar ali. — Você não é a culpada disso – repetiu contra as costas da maior – Seu pai é o culpado. E mesmo que quiséssemos, não podemos voltar no tempo e modificar todos esses acontecimentos desastrosos. Lena concordou, voltando a abraçá-la. Ali, nos braços de Kara, sentia-se realmente segura. — Quem mais eu... O demônio machucou? Kara não conseguia encarar os olhos verdes. Era tão doloroso ver Lena sofrer e não poder modificar o que passou. — O fazendeiro Justin, o seu pai, a família... — Kara, Lena! – Cat entrou rapidamente na sala onde as duas se abraçavam. Parecia confusa e assustada. — O que foi? Aconteceu alguma coisa? – Kara caminhou até a amiga. — Ainda não sabemos, mas todo o vilarejo está reunido na praça, parece que está acontecendo o julgamento. Concordou com a cabeça, encarando Lena logo em seguida. — Você pode nos esperar aqui? Prometo não demorar. Sem esperar por uma resposta, Kara seguiu Cat até saírem da igreja, encontrando as outras garotas que explicaram sobre a movimentação estranha. — Eu não sei, acabei de ver homens com foices e mulheres fofoqueiras seguindo para a praça. Algo realmente sério deve estar acontecendo. Avistaram Eliza e Caitlin indo em direção a praça também. Pareciam apressadas e nem sequer notaram as garotas ali. — Mãe! Cait! – Kara chamou as mulheres, que pararam de imediato. — Kara! Oh, eu estava tão preocupada! Onde passou a noite? – apalpou o rosto da filha, checando se estava tudo bem com sua menina. — O que está acontecendo? Por que o vilarejo enlouqueceu? Caitlin se aproximou, segurando na mão da irmã. — Encontraram o assassino, Kara – disse, parecendo aliviada – Encontraram o assassino que atacou a família Luthor e a família Allen. Kara paralisou. O que?! — Ele confessou, e agora irão executá-lo em praça pública... O quê?! Lena! Viraram-se de costas para onde Caitlin encarava com os olhos brilhantes. Lena negava com a cabeça, acabou escutando tudo. Não deixaria que um homem qualquer levasse a culpa por seus crimes. Não seria um verdadeiro monstro. — Lena! Não! – Kara berrou quando a garota Luthor disparou a correr em direção a praça. Desesperada, Kara a seguiu, tentando inutilmente pará-la. Todas as outras dispararam atrás da dupla, até mesmo Eliza e Caitlin , que não entenderam absolutamente nada. Como esperado, a praça toda parou ao ver a filha dos Luthor entrar no meio da algazarra, encarando o homem ajoelhado que morreria se não impedisse. Lena jamais iria se perdoar se alguém pagasse pelos seus erros. — Lena! – Kara gritou arfante, chamando ainda mais atenção quando puxou o braço da maior – Vamos... — É a filha dos Luthor! A que estava desaparecida! – uma mulher gritou, e em um piscar de olhos um aglomerado de pessoas já cercavam as duas em meio a praça. Kara acabou sendo jogada para trás, enquanto enchiam Lena de perguntas e preocupações. — Encontramos o assassino que matou sua mãe, minha filha – o senhor Grant disse, apontando para o homem ainda amarrado e ajoelhado. Sua face estava abaixada. — Eu preciso que vocês me escutem... Mas antes que Lena terminasse, o homem de cabeça baixa desabou aos gritos. — Eu matei aquele imundo e sua família! Matei! Ele não teve piedade de meu irmão há anos atrás, nada mais justo do que tirar a vida daquele porco! Os Allen mereceram – sua respiração estava agitada – E faria tudo de novo se fosse possível! Enfiaria a faca no coração dele com mais força ainda se pudesse repetir. Ele só se calou quando foi atacado por chutes de moradores indignados. Lena estava boquiaberta com aquela reação repentina. Kara não esperou que voltassem a atenção para a Luthor, puxando-a com força para longe da multidão. Lena estava aturdida demais para pestanejar, então a seguiu até os fundos da pequena padaria, que se encontrava fechada pelo tumulto no vilarejo. — O que é tudo isso? – foi a única coisa que conseguiu perguntar. Kara negou com a cabeça, controlando suas emoções. — Encontraram a família Allen morta ontem, e aquele homem é o assassino – Kara sentiu a garganta secar – Nós o vimos no lago, ele não estava caçando... É claro, ele estava limpando uma faca cheia de sangue. A faca que usou para... Para matar toda aquela família. — Mas todos pensam que ele assassinou minha mãe – Lena sussurrou, o coração se apertando novamente – E ele não fez isso. Eu fiz. — Não! Você não fez! Quem fez isso foi o demônio que te possuiu – Kara gritou, então fez o máximo de esforço para controlar o tom de voz – Você nunca machucaria ninguém. — Mas eu machuquei! – Lena não conseguiu se controlar também – A minha mãe está morta! Morta! Eu não posso viver com isso, eu não posso... Kara só percebeu que chorava quando as lágrimas pingaram em sua camisa, não contendo mais os soluços. — E eu não posso viver sem você – admitiu fraca, encarando Lena – Por favor, aquele homem vai morrer de qualquer forma. Ele matou uma criança, uma criança inocente! Matou uma família inteira — Kara... — Não! Me escuta. Eu já te perdi uma vez, e não posso passar por isso de novo – confessou, voltando a soluçar – Faz ideia de como me machuca te ver assim? Eu estou tão destruída quanto você. Sua dor é a minha dor. Mas por favor, não estrague nossa chance de recomeçar. Eu não posso deixar você ir até lá e dizer que matou pessoas quando na verdade não matou. Eu te amo demais pra te ver partir. Quando terminou, sentiu seu coração ainda mais apertado. Virou-se de costas e se permitiu chorar de verdade, soluçando e limpando as lágrimas com as costas das mãos, tentando inútilmente contê-las. — Você não pode me deixar de novo, não pode – engasgou, enrolando-se nos próprios braços. Sentiu Lena puxar seu ombro, mas estava cansada demais para discutir sobre tudo isso novamente. — Kara – Lena chamou, sem ter resposta – Me desculpe... E-eu não sei o que fazer. A menor finalmente se virou, encarando os olhos verdes molhados. Tomou uma lufada de ar, concordando com a cabeça. — Você confia em mim, não confia? – perguntou, tendo uma resposta positiva no mesmo instante – Então, faça tudo o que eu disser. Aquele assassino vai morrer, então deixe que ele carregue toda culpa. Lena ainda estava incerta sobre isso, mas confiaria em Kara. — Ninguém vai acreditar na verdade sobre o demônio. Eu sei que é errado mentir e culpar outra pessoa por tudo isso, mas só assim estaremos livres de toda essa história. Por favor, Lee. Lena sentiu seu peito doer ao ver Kara chorar tão desesperadamente. Sem demora, abraçou a de olhos azuis e beijou sua testa, deixando que as próprias lágrimas molhassem suas bochechas. — Nós vamos acabar com isso – concordou – Me diga o que eu tenho que fazer. Kara se agarrou ainda mais no calor de seus braços, agradecendo por tê-la junto a si novamente. — Diga que ele te escondeu na cabana no lago, ele estava lá quando o vimos – sussurrou – Não precisa dizer que viu ele, só diga que acordou lá. E se perguntarem se foi ele que matou sua mãe, apenas diga que não se lembra. Lena podia fazer isso. Podia deixar que toda essa história morresse com o assassino. — Eu vou dizer – beijou a testa de Kara mais uma vez – Mas por favor, depois disso me leve até onde minha mãe foi enterrada. Kara concordou, então se lembrou de um detalhe. — O seu pai está no hospital – contou, encarando o chão – Você quer visitá-lo? Lena concordou com a cabeça, limpando as bochechas molhadas. — Quero respostas – disse, então apontou para o caminho que vieram – Vamos terminar com essa história de uma vez por todas. CONTINUA...
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