Capítulo Quatro

2374 Palavras
O Les Ombres era sofisticado e tinha como um dos atrativos, a vizinhança. Ao seu lado, a Torre Eiffel. E esta era admirada através do teto disposto num trançado de ferro e vidro e nas paredes envidraçadas. Outro atrativo localizava-se abaixo dele, o Museu Quai Branly cuja fachada exibia um dos mais famosos jardins verticais do mundo, Le Mur Vegetal ,concebido por Patrick Blanc, com mais de cento e cinquenta mil plantas de diversas partes do mundo. Diversidade essa que se via também entre as pessoas que frequentavam o restaurante na cobertura do museu. Mesas pequenas e quadradas, poltronas confortáveis no lugar de cadeiras e atendimento algumas vezes lento. Mas não naquele início de tarde. Numa mesa próxima à parede envidraçada, longe de tumultos (como dizia Jules), estavam uma brasileira, um francês e um finlandês. Todos degustando a badalada cozinha francesa acompanhada por um bom vinho. Jarkko Koskinen aparentava uns trinta anos, porém, sendo escandinavo, poderia ter vinte e poucos. O cabelo era loiro, cor de trigo, a pele avermelhada e os olhos incrivelmente azuis. Parecia-se muito com o chef inglês bonitinho, o Jamie Oliver. Vestia-se com discrição, nada mais que um terno cinza quase azul. Comia como um viking, apesar de ser magro. Era um homem simpático, comunicativo e inteligente. Anos atrás, começara uma empresa de criação e venda de software, vendera a sua parte ao sócio para disputar o rali Paris-Dakar. Agora, voltava ao mundo dos negócios na mesma área que tanto conhecia. Amanda prestava a atenção em tudo que se dizia nos almoços e jantares. Quando Jules esquecia-se de algum detalhe perguntava a ela, que o informava sem pestanejar. Era por isso que ele levava-a a todos os eventos pessoais e profissionais. No momento, entretanto, m*l ouvia a conversa dos dois, tinha algo a ver com mercado, bolsa de valores e impostos. Típica conversa de negócios, só mudava o país, a burocracia era a mesma. Faltavam os sapatos. Pela manhã, Jules havia-lhe pedido que buscasse seu terno na lavanderia e que lhe comprasse um par de sapatos. — Caso ainda tenha alguma dúvida sobre o potencial do mercado finlandês que, bem ou m*l, acaba influenciando o sueco e o russo, volta comigo para Helsinque. Fica um tempo conosco, conheça os executivos de lá e estude as pesquisas mercadológicas mais recentes. Jules assentiu levemente com a cabeça, e Amanda quase podia ver os pensamentos dele rolando dentro da mente. Por fim, ele tomou mais um gole de vinho, olhou ao redor à procura do garçom e disse: —Você quer sobremesa ou café, mademoiselle Rossi? Antes que respondesse o finlandês sorriu e comentou: — Nunca vi um povo que gosta tanto de açúcar como o francês. – em seguida, ainda sorrindo, voltou-se amistosamente para Jules – Sabe o que podemos fazer? Uma reunião entre os executivos escandinavos e o senhor, como uma espécie de dinâmica de reconhecimento e troca de experiências. No fundo da sua memória, uma burguesia enjoada chamada Geneviève batia palmas dizendo: vamos, vamos! — Como está minha agenda para os próximos dias? Folheou algumas páginas e constatou que a partir do final da semana, haveria brechas disponíveis para novos eventos. Jules observou os comentários de Amanda, voltou-se para Jarkko e confirmou a ida para Helsinque em três dias. Endereçou um rápido olhar à assistente e pediu: — Reserve duas passagens na primeira classe para Helsinque, na sexta-feira. – voltando-se para Jarkko, indagou: — Até quando fica em Paris? — Amanhã pela manhã. Mas tudo estará pronto para quando chegar. Não se preocupe com as reservas no hotel, mademoiselle Rossi, eu mesmo as farei. — Merci, monsieur Koskinen. – agradeceu incluindo um sorriso. –Agora, devo ir, monsieur Brienne. — D’accord. – concordou Jules. Fez um sinal com o dedo indicador apontando para baixo e avisou-a quase num murmúrio: — Italiano, oui? Assentiu com a cabeça, pegou a bolsa e saiu do restaurante, desviando das mesas, cadeiras e garçons. Temia que a boutique onde sempre comprava os sapatos, meias e gravatas preferidas do chefe já estivesse fechada. O proprietário sofria de transtorno bipolar; assim, abrir a loja para ele não era tarefa fácil. Dependia, obviamente, de seu humor. Despediu-se dos homens, partiu em disparada e alcançou a calçada entupida de gente. Constatou que eram quase três da tarde e não era preciso agitar-se tanto. O problema era que ela queria o sapato CERTO, do jeito que escolhera todos os outros, pois sempre acertara a preferência do patrão. Comprou o sapato, passou na casa de Jules e o deixou com Annie. Estava exausta e já passava das seis. Às nove horas seria o jantar com os Roche. Teria tempo para tomar um banho, arrumar-se e dirigir até o Marais. Cansava-se só de pensar nessa maratona. Tudo o que ela mais queria era ficar em casa à noite, sossegada, com a mão no controle remoto da tevê e as pernas espichadas no sofá. Preparou para si um longo banho de banheira com sais perfumados. Na verdade, a banheira era praticamente do tamanho de uma bacia plástica, já que boa parte de suas pernas ficavam para fora do aparelho sanitário. Enxugou-se e foi à cozinha com as dimensões de um minúsculo banheiro, preparar algo leve e rápido. Abriu o congelador e selecionou uma das dez caixas de comida congelada. Ligou o micro-ondas e voltou ao quarto para vestir-se. Havia um tipo de roupa que raramente deixava uma mulher na mão: o tubinho preto anos 60. Jogou-o por sobre a cama e escolheu a meia-calça 7/8, de lã; botinha preta com salto de 10 centímetros (se monsieur Brienne encolhesse, ela pararia de andar sobre andaimes...), uma bolsa de couro, pequena, e um par de brincos de pérola. Diante do espelho, retirou o robe, sugou e soltou o ar seguidas vezes, analisando o efeito da gravidade nos s***s e da comida congelada no abdômen. É, teria de malhar para reduzir uns pneuzinhos. Girou lentamente sobre os calcanhares e avaliou o bumbum gordinho. Era uma batalha perdida! A tecnologia evoluía tanto que um dia bem que poderia criar um photoshop fora do papel, uma máquina na qual se entrava com o bumbum avariado e saía-se perfeita, refletiu Amanda ajeitando a calcinha. Deslizou a meia-calça pela perna esquerda e antes que completasse o mesmo gesto com a outra, a companhia soou veemente e o micro-ondas apitou. Num átimo e com a prática de um piloto de testes, puxou a meia-calça rapidamente para cima, na outra perna, saindo do quarto, aos pulinhos e trombadas. Abriu a porta e sentiu o ar frio do corredor eriçar os pelinhos de sua nuca.  Apertou-se no robe de seda que nada adiantou, pois o tecido delicado também estava por demais gasto. Tentou sorrir e até se encantar. Tentou mesmo. No entanto, só conseguiu pensar nos motivos que o traziam à sua porta mais uma vez. —Hummm, esqueceu o nosso jantar? Ou o final de semana inteiro? Jacques Rodin estava escorado no batente da porta com um cachecol ao redor do pescoço, o cabelo loiro bagunçado pelo vento, os olhos interrogativos e os lábios num sorriso provocador. Amanda havia esquecido aquela beleza toda, o timbre rouco da voz, o sotaque ligeiramente arrastado, o cheiro de limão e floresta orvalhada ao amanhecer que era exalado de sua pele. Seu corpo ainda o desejava; a alma, não mais. — Salut, ma petit brésilienne! – brincou; em seguida, passando por ela e instalando-se confortavelmente no sofá, disse: — Liguei para você. Achei que havia acontecido algo, já que não retornou minha ligação. — Ligou? Quando? – ainda segurava a porta. — Hã, deixe-me ver... Ah, perto das quatro. Onde você estava, bébé? –sorriu, batendo no sofá chamando-a para perto de si. Ela conseguiu soltar a porta e fechá-la, porém manteve-se de pé. A qualquer momento teria de sair, jamais se atrasara a um compromisso com o chefe. Pediu licença e foi buscar o celular na pasta. Voltou lentamente encontrando-o com as pernas cruzadas displicentemente. —Acho que perdi meu celular. – balbuciou. Provavelmente, deixara-o sobre a mesa do Les Ombres, ou, na pior das hipóteses, perdera-o na rua, na lavanderia, no corredor da empresa, no elevador, no quinto andar, debaixo do banco do seu carro, do carro do chefe, pois foram no mesmo automóvel almoçar com Jarkko. Tantos lugares. Anotação mental: comprar imediatamente um celular. Enquanto ela pensava no celular perdido, Jacques levantou-se e pulou em seu pescoço, literalmente, mordendo-a de forma sensual. Tentou impedi-lo empurrando o tórax dele com as mãos. Desviou o rosto dos seus lábios, virou a cabeça ostensivamente e cerrou a boca com força. Jacques afastou-se alguns centímetros avaliando a sua expressão. — Tenho um compromisso, Jacques. Você precisa sair. — NÓS temos um compromisso. – enfatizou, as sobrancelhas alçadas num tom de escárnio. – Tenho de lembrá-la do nosso jantar? Ou já quer a sobremesa? — Por favor, saia da minha casa. – pediu em voz baixa, controlada. — O que foi, Amanda? O que a fez mudar em menos de vinte e quatro horas? Ele parecia realmente perplexo, como se não estivesse acostumado a ser despachado. E era óbvio que não estava. Um homem bonito como Jacques estava acostumado a deixar as mulheres, a abandoná-las, a ferir sentimentos e autoestimas. Amanda conhecia o tipo, serviam para uma noite, duas, no máximo. Para companheiros de vida, jamais. Empurrou-o mais uma vez, impondo força o suficiente para afastá-lo. — Já disse, tenho um compromisso... profissional. — Ah, entendi, o chefinho controlador, o dono da sua vida? Como se submete a isso? – indagou com cinismo. — Ei, moço, a gente se conhece há três dias... — E eu já sei muito sobre você, o suficiente para afirmar que não passa de uma inocente i****a que idolatra um assassino. Como pode servir a um homem que perseguiu a esposa e a fez sair da estrada, capotando um milhão de vezes até ter a coluna estraçalhada? E sabe por quê? Olhe para mim, não tente tapar os ouvidos! Sei tudo sobre aquele verme. Eu estava com ela minutos antes do desgraçado arruinar a vida dela. Ele não ligava a mínima para Rochelle, a mínima! Obcecado pelo trabalho, o filho da p**a. Já viu um workaholic ter ereção? Rochelle era o meu amor, a minha vida – riu-se, irônico. – Escute, Amanda, você é descartável, um móvel do escritório que será descartado quando não mais o convier. Me diga, quantas horas por dia você realmente vive e durante quantas você está servindo-o? Salve-se enquanto ainda pode. Amanda viu uma intensa dor nos olhos de Jacques, como se dez, vinte anos de sua vida fossem-lhe postos nos ombros. Não sabia como reagir, o que dizer, o que sentir. Logo que entrara na SBO havia especulado acerca do acidente da esposa do presidente e lera nos jornais que fora automobilístico e causado por ela mesma, pois trafegava em alta velocidade, à noite, numa estrada perigosa devido às curvas e iluminação escassa. Se Jules a perseguira até tirá-la da pista, isso, de fato, jamais fora comentado na empresa por ninguém... Mas a empresa era dele. Quem arriscaria o emprego ou até mesmo um processo por calúnia e difamação? — Você tem inveja de Jules Brienne. – disse num fiapo de voz. Ele riu com vontade e abriu o cinto do seu robe. As mãos deslizaram por entre as pernas de Amanda até encontrar a carne macia e quente de seu sexo. — Oui, morro de inveja de um assassino. Ele só não foi preso, porque é rico. Mas eu ainda o porei detrás das grades, com certeza. –murmurou junto à sua orelha: — Além do mais, Rochelle ainda voltará a si e me ajudará na condenação do canalha. Empurrando-a contra a parede, arrancou a roupa dela e enfiou a mão por entre seus cabelos. Amanda gritou. Jacques puxou ainda mais os fios, fazendo-a curvar-se diante dele e gemer de dor. — Essa sua lealdade é nojenta! — E você é um doente, precisa de camisa-de-força! Desde quando me vigia? Aquela noite... sábado...estava me esperando, seu psicopata? Com a mão livre, Jacques a esbofeteou e jogou contra o chão, ajoelhando-se ao seu lado. — O que acha? Que sua aparência bizarra me atraiu? Não faz ideia dos sacrifícios que fiz, ao longo desses cinco anos, para levantar informação e material contra Jules. Sabe sua amiga Dorian? Pois é, somos amantes. A recepcionista da SBO? Hummm, deliciosa, um pouco histérica, mas transamos sempre que preciso saber quem foi demitido ou admitido, um trabalho de networking, entende, non? Só não traço as mulheres da diretoria, porque não caem com facilidade na minha conversa de Don Juan e, como avisei antes, sou preguiçoso. Amanda Rossi, ma chérie, esperei o momento certo para me aproximar... Mas você me surpreendeu, pensei que fosse me ajudar, afinal cinco anos lambendo os sapatos do patrão poderiam ter-lhe afetado a dignidade. – gargalhou e emendou: — E qual é a minha surpresa?! Você não tem dignidade! – desferindo outra bofetada no rosto. Sentia a face ferver de dor enquanto o cérebro girava à procura do entendimento sobre o que estava acontecendo e de como poderia livrar-se do perigo, e o perigo era o desconhecido transtornado pelo ressentimento que o tornava um monstro. — Como pôde suportar que Rochelle preferisse Jules a você? Ela era ca-sa-da com ele e você...um amantezinho de quinta! – gritou com desprezo. — Vagabunda! Amanda esperava por mais uma bofetada, mas surpreendeu-se com a força do golpe. Um punho cerrado acertou o seu maxilar. Não foi preciso que simulasse o grito rouco de dor e tampouco a batida da cabeça contra o piso acarpetado. Deixou-se ficar, inerte, de olhos fechados, esperando que ele se afastasse o suficiente para poder fugir e trancar-se no quarto. Respirava devagar como alguém inconsciente e via a escuridão dentro de si, desprotegida. Pressentiu que ele se erguia, ouviu seus passos distanciando-se. Teria de esperar alguns segundos. Nada de precipitação. A dor havia desaparecido. Seus instintos estavam em alerta como um animal diante de outro animal, lutando não pela sobrevivência e sim pelo controle da situação. Escutou a porta abrir e fechar-se discretamente. Ele não queria chamar a atenção da vizinhança. Foi então que tudo mudou.                                            
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