Os dois foram entrando rindo, conversando sobre trabalho. Ele disse que estava trabalhando como entregador em uma padaria, porque tinha acabado de sair de outro emprego e estava recebendo seguro, então estava trabalhando por conta, se virando.
Ela ficou curiosa, intrigada, e perguntou se era gostoso. Começou a puxar assuntos, evitando falar da própria vida, porque era nítido que eles vinham de realidades completamente diferentes e a diferença de idade era um agravante.
Espontaneamente, a conversa foi fluindo. Ela entrou, começou a preparar a mesa, separou os pratos. Ele ficou sentado conversando e contou um pouco da vida dele. Disse que sempre foi de família humilde, que os pais se divorciaram e que ele passou a sustentar a casa. Comentou que o pai dele era meio vagabundão e não gostava de trabalhar, mas que a mãe era muito esforçada, que ele gostava muito dela, amava muito a mãe, respeitava e tinha com ela um carinho e uma parceria imensa.
Ele ficou falando sobre a vida dele e quase não perguntou sobre a dela, porque também percebeu que ela não queria falar. Achou que quanto menos soubesse, melhor, por causa da condição social dela.
Quando começaram a comer, ele viu a notinha em cima da mesa e percebeu que a refeição tinha ficado um pouco cara, para uma refeição comum. Viu que estava escrito o nome dela, com um coração. Estava escrito também: “Para a patroa mais linda, bom almoço”.
Ele percebeu que aquela comida devia ser de algum lugar específico ou que ela era dona, ou que o marido dela era dono, porque, pelo que leu na notinha, aquilo fazia sentido naquele momento.
Enquanto comiam, ela comentou que trabalhava em uma clínica e ele disse que tinha acertado ao imaginar que ela estava ligada à área da estética. Ele perguntou se ela podia falar qual era a profissão dela e já completou dizendo que, se ela não quisesse, tudo bem, que por ele não precisava criar situação, nem insistir, nem ser uma pessoa chata.
Cada vez mais saindo da linha, na direção da conversa, ela respondeu:
— Dermatologista.
E completou, olhando para ele:
— E você, pelo visto, cuida muito bem dessa pele… ou é só coisa da idade?
Ela sorriu e ficou nostálgica.
— Ai, sabe… eu me lembro… quando eu era novinha, tinha um viço, sabe? Uma coisa, um ar… Olha, aproveite cada instante, porque o tempo passa e a gente nem percebe. Hoje você tem vinte e poucos, com tudo em cima, mas amanhã…
Ele começou a rir e respondeu:
— Amanhã eu posso ter trinta e poucos e ainda com tudo em cima. Você é um belo exemplo disso.
Ela riu e disse:
— Ah, um exemplo disso é o quanto eu me sacrifico pra ficar assim. Isso aí você não vê, né? É sério. Aproveite. A juventude é uma coisa que não volta na vida. Não importa o quanto a gente seja bonito, o quanto a gente se cuide, o quanto a gente tente ter uma vibe mais leve, mais jovial.
Ela fez uma pausa curta e continuou:
— Porque a realidade é uma só, e a idade chega. Quando ela não acaba com o nosso físico, ela acaba com o nosso emocional.
Eles estavam terminando de comer quando ele sorriu intrigado, cerrou os olhos e perguntou:
— Como assim? Então você ficou comigo por causa de uma crise de meia-idade, é isso? Você não se sente mais jovem e aí precisa reforçar o seu bem-estar consigo mesma fazendo isso?
Ela começou a rir, tirando o prato da mesa.
— Não, não é isso, mas… Ah, pense como quiser. Não adianta justificar uma coisa que você não entende, porque você é homem. Inclusive, quando os homens ficam mais velhos, eles gostam de mulheres mais novas. E as mulheres mais novas gostam de homens mais velhos, o que pra mim não faz muito sentido.
Ele perguntou então, curioso:
— Você é casada, certo?
Ela assentiu.
— Há quanto tempo? — ele continuou.
— E qual a idade do seu marido?
Ela sorriu com malícia e respondeu:
— Vai pedir pra ver também CPF, RG?
Ele disse que era só curiosidade. Então ela respondeu que era casada, que estavam juntos há muito tempo, há mais de dez anos, e que o marido tinha quarenta anos. Ela tinha trinta e nove.
Fael ficou surpreso e disse que ela não aparentava ter a idade que tinha. E que, pra ele, de verdade, de coração, idade era só um número.
Nadira ficou sorrindo, pensativa, achando que ele estava flertando. Começou a lavar a louça e disse que precisava ir trabalhar.
Ele se levantou um pouco desconcertado, percebendo que estava levando mais um fora, mas ainda assim não desistiu. Ofereceu ajuda, e ela disse que não precisava.
Ele perguntou se ela queria ajuda para pagar o almoço e comentou que estava muito gostoso, que nunca tinha comido um estrogonofe daquele sem carne. Ela disse que, na casa dela, eles comiam coisas sempre mais saudáveis, diferenciadas, e comentou que o marido gostava de cozinhar mais do que ela.
Ela disse que ele não precisava pagar nada, que foi uma gentileza e que tinha adorado conhecê-lo.
Ela o acompanhou até a porta, e ele disse que também tinha adorado conhecê-la e que, se ela quisesse reencontrá-lo, era só ligar.
Ela disse que aquilo não ia acontecer.
Ficou parada na porta com um sorriso m*****o.
Ele a olhava fixamente nos olhos, acariciou o cabelo dela sutilmente, desde a raiz até as pontas, passou a mão pelo braço dela e disse, sem se aproximar demais, mostrando que tinha respeito, embora estivesse com vontade:
— Tudo bem, se é assim que você quer. Mas saiba que, da minha parte, eu quero que aconteça quando e onde você quiser. É só me chamar.
Ela ficou rindo, deu um beijinho na boca dele e se despediu.
Fael foi embora com a certeza de que ela iria procurá-lo de novo. E era o que ele queria, afinal.
E errado ele não estava, porque, por mais que ela dissesse não, os sinais estavam claros nos olhos dela.
E sim, iria acontecer.