cap 22 eu vou volta

1067 Palavras
RAFAEL (Talibã) — Rafa... — Me recusava a abrir os olhos, meu sono estava bom. — Rafael. — Ei, acorda... — A voz doce de Maju me chamava e eu só resmunguei e puxei ela mais para perto, ignorando completamente que ela estava me chamando. Ela riu e me cutucou com o cotovelo. — O que foi, linda? Vamos dormir... Ainda é cedo. — O telefone tá tocando, deve ter alguém querendo subir. — Estranhei, já que tão cedo em uma segunda-feira era difícil alguém me procurar. Dona Jane tinha a chave e acesso ao meu apartamento, então não seria ela. Mesmo a contragosto, eu levantei e atendi o telefone, curioso para saber quem era. — Senhor, bom dia! Tem um homem querendo subir, se chama Renato Soares. Eu soltei uma risada anasalada. — Não libera, eu vou descer. Tava demorando para ele aparecer. Renato fez o esforço de vir até aqui e poupou meu trabalho de ir até ele. Escovei meus dentes e troquei de roupa rápido e beijei Maju, que me olhava sem entender. — Vou precisar descer para resolver um negócio, mas já volto. — Ela assentiu e fechou os olhos para dormir mais. Peguei uma pistola caso ele tentasse alguma gracinha e saí de casa, desci pelo elevador até a entrada. Ele estava lá de costas para mim, impaciente porque eu demorei propositalmente. — A que devo a honra da sua visita, delegado? — Soei irônico. — Seu filho da p**a! — Gritou e tentou partir para cima de mim, mas foi controlado pelo segurança. — Devolve minha filha, seu vagabundo. — Vagabundo não, cara, eu trabalho. E vou te devolver tua filha pra quê? Para ela virar saco de pancadas de novo? Ela tá bem melhor comigo, acredite. — Não interessa para você a forma como eu educo minha filha. — Educação? Educação vem de exemplo. Que exemplo você e sua mulher estão dando para ela? Me diz! — Cala a sua boca. Traga Maria Júlia aqui ou eu volto amanhã mesmo com um mandato para tirar ela à força de lá. Você não sabe o que eu sou capaz. — Sim, eu sei do que você é capaz. — Eu me aproximei, ficando cara a cara e colocando o dedo indicador no peito dele. — Você é capaz de agredir mulher, tua própria filha a troco de sabe Deus o quê, é um covarde. Maria Júlia não vai sair daqui, pode derrubar o prédio, chamar quem quiser, trazer p***a de mandato, ela não vai sair daqui enquanto eu estiver aqui. Ele me olhou com ódio no olhar, só não mais ódio que eu. Mas precisei me controlar porque se eu socasse a cara dele iria perder o controle de tudo, um cara que faz o que eu faço precisa agir como se pisasse em ovos, precisa somar a consequência de tudo. Ele socou meu peito e saiu de perto, parecia estar se controlando também para não me socar. — Eu vou voltar! E você não vai ter escolha a não ser entregar a minha filha. — E assim ele me deu as costas e saiu de perto. — Some daqui, Soares. — Falei mais alto quando ele já estava longe. Observei ele indo embora e subi novamente, encontrando Dona Jane indo para a cozinha; com certeza passou por mim e eu nem vi. — Bom dia, filho. Estava com saudade. — Ela beijou minha bochecha e eu fiz careta. — Bom dia, Dona Jane. Tá melhor? — Ela assentiu, parecia meio triste. — O que tá rolando? A senhora tá pra baixo, normalmente fala pelos cotovelos. — Nada relevante, não se preocupe. — A senhora pensa que eu engoli essa história de cair da escada? Não mesmo! Eu vou descobrir o que tá acontecendo, na verdade eu já faço uma ideia, mas vou esperar a senhora me falar. — Deixa isso pra lá, Rafa. Realmente não é relevante! — Bom dia! — Maju apareceu na sala onde estávamos e Dona Jane a olhou analisando. O cabelo molhado mostrava que tinha acabado de tomar banho e vestia roupas mais confortáveis: um short jeans e uma camiseta branca. Linda. — Bom dia, o que aconteceu com você, menina? — Maju abaixou a cabeça e Dona Jane me olhou com um olhar sugestivo e neguei com a cabeça. — Desculpe a minha intromissão, eu sou a Jane, trabalho com o Rafa há tempos. — Não tem problema, Dona Jane. Eu sou a Maria Júlia, é um prazer conhecer a senhora. — Que menina educada, escolheu bem dessa vez, Rafael. — Vi Maria Júlia ficar quase roxa e eu ri. Dona Jane costumava ser espontânea demais, sincera a um nível extremo. — Bom, eu estava preparando o café, trouxe pão quentinho e vou passar seu café preto. Você gosta de comer o quê, pequena? — Maju se sentou do meu lado na mesa e ainda estava tímida. — Eu não tô com fome, obrigada. — Maju deu um sorrisinho e a mais velha olhou de cara feia com os olhos cerrados. — Mas vou tomar um café preto. — Dona Jane soltou uma risada e foi para a cozinha. — Você tá tensa, relaxa. Você tá em casa. E Dona Jane é de casa também, não tem bronca. Ela assentiu e parecia ainda cansada, na verdade o que estava cansado era seu psicológico e acabava refletindo no físico. Nessa uma semana que fiquei sem ver ela, percebi que ela havia emagrecido bastante por ficar sem comer, mas eu iria garantir que ela voltaria a ser saudável. — Por que tá me olhando assim? — Ela perguntou me tirando da minha linha de raciocínio. — Assim como? — Assim, fixo. Como se eu fosse a última coisa que você vai ver. — Eu ri. — Tava só pensando. — Agora ela quem me olhava fixamente. — Aquele cara que tava aqui ontem... — Ela começou e eu respirei fundo porque agora teria que contar a verdade e ver na sorte se ela vai ou não querer continuar perto de mim. Não dava para mentir. Cauê estava na minha casa, não podia dizer que o cara que drogou ela invadiu meu prédio, comeu pizza na minha sala e eu virei amigo dele. E eu, de certa forma, queria abrir o jogo para ela, colocar as cartas na mesa, esclarecer tudo. E eu faria isso, sem nenhum receio.
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