MARIA JÚLIA.
— Nós podemos conversar sobre isso depois do café. — Ele me falou e eu assenti. Dona Jane voltou para perto de nós com algumas coisas para comer, mas eu sinceramente não sentia fome.
Mas mesmo sem fome nenhuma, eu comi alguns pães de queijo com café preto, que estavam uma delícia. Rafael comeu em silêncio, assim como eu.
Dona Jane ficou na cozinha e Rafael e eu fomos para o quarto para conversar, como o combinado. Ele parecia nervoso e tenso, e por isso eu também fiquei nervosa com o que ele queria contar.
— Então... — O incentivei quando sentamos na cama.
— Eu quero que você me ouça, ouça com atenção. Porque não vai ser fácil fazer o que eu vou fazer agora. Eu vou abrir o jogo com você, algo que eu não fiz com quase ninguém. — Assenti e fiz sinal para que ele continuasse. — p***a, eu não sei nem como falar isso sem te assustar. Mas eu não sou quem você pensa que eu sou, eu escondi isso porque minhas intenções com você eram outras, mas acabou que nada deu certo. — Ele respirou fundo. — Eu não tenho empresa nenhuma, não trabalho com isso, na verdade eu... sou comandante do tráfico de drogas do Rio de Janeiro. Cauê e Felipe, que estavam aqui ontem, são meu braço direito, meus irmãos. Cauê foi quem drogou você na noite da festa da faculdade, a atitude dele não foi das melhores, mas hoje ele se arrepende e não tem orgulho do que fez.
Meus olhos se arregalaram e minha cabeça não queria processar o que eu acabara de ouvir.
"Comandante do tráfico de drogas do Rio de Janeiro"? Caramba.
— Quais eram suas intenções? — Perguntei e na minha voz eu só conseguia demonstrar a raiva que eu sentia. Decepção, rancor, chateação. — E por que deu errado?
— Maju... — Ele negou com a cabeça como se dissesse que eu não gostaria da resposta.
— Me responde. — Falei mais irritada ainda.
— Minha intenção era atingir teu pai através de você, ele também não é flor que se cheire, não tá nem perto de ser alguém que merece respeito. Deu errado porque na verdade eu descobri que você não é como ele em nada, p***a você é f**a demais, tava te curtindo e acabou acontecendo o que aconteceu, mas eu não me arrependo de nada.
Nada do que ele dissesse anularia a raiva que eu estava sentindo agora, era como se nos últimos dias eu tivesse vivido uma mentira. Sou grata por ele ter me tirado de casa, mas eu não podia ficar aqui, não poderia me colocar em risco desse jeito. Quem garante que ele realmente não quis dar continuidade no plano maluco dele?
— Eu quero ir embora. — Falei baixo, olhando nos olhos dele.
— Você não precisa, Maju. Para onde vai? — Ele disse e tentou pegar minha mão, mas eu recuei.
Pensei e não poderia ir para casa de Laura porque meu pai vai saber que eu fui para lá, e muito menos posso voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Eu estava em um dilema difícil de resolver.
Diana poderia me acolher por enquanto, pelo menos até a poeira baixar.
— Eu vou ficar um tempo na casa de Diana. Lá o meu pai não vai me procurar.
— Ele veio aqui hoje, ele tá louco atrás de você, Maju. É arriscado que ele te ache e faça pior do que fez dessa última vez. Ele sabe que você tá aqui, mas é impossível te tirar desse prédio sem que eu saiba, enquanto você estiver lá fora, você vai estar correndo risco. Eu não vou te prender aqui, mas preciso te alertar que se sair, não vai estar mais sob a minha proteção e eu não vou poder fazer nada para impedir seu pai de te pegar de novo.
Assenti, compreendendo, mas eu ainda queria ir embora.
— Eu entendo o seu lado, mas eu não posso ficar aqui, Rafael. Não posso depender de você. Eu m*l conheço você, e depois de tudo o que você me disse, aí que eu não conheço mesmo, não é prudente que eu fique aqui.
— Você tem razão, eu vou te deixar ir, mas com uma condição. Você vai ficar em uma casa na Rocinha, onde eu consiga te acompanhar.
— Rafael...
— Essa é a minha condição.
Suspirei, me dando por vencida antes de responder. — Tudo bem, eu aceito.
— Eu vou pedir para arrumarem tudo para você ir para lá hoje à tarde. Foi m*l por ter escondido de ti, tenta entender meu lado.
— Eu entendo, entendo sim. — Falei simples e me levantei, pegando minha mochila e guardando minhas coisas.
— Não se distancia de mim não, Maju. Eu tava curtindo o que a gente tava desenrolando. — Eu o olhei e ele estava perto de mim, podia ver sinceridade nele, em tudo o que ele falava.
— Eu só preciso pensar, Rafael. Só isso...
— Eu vou deixar um celular contigo com meu número salvo, me manda mensagem. Eu vou te levar lá, espera só eu ligar para alguém ajeitar para você.
Assenti, e ele saiu do quarto me deixando sozinha com meus pensamentos. Dona Jane entrou no quarto alguns minutos depois e eu já tinha terminado de arrumar minhas coisas.
— Já vai, minha filha? — Ela perguntou, dobrando alguns lençóis.
— Daqui a pouco, estou esperando o Rafael. — Ri para ela e a ajudei com algumas outras coisas, mesmo ela resmungando que não precisava.
— Ele é um menino de ouro, conheço ele há muito tempo e sempre teve esse jeito de menino, mesmo tendo muitas responsabilidades.
Me perguntei se ela sabia da verdadeira identidade dele, mas acredito que não saiba de nada.
— Ele é sim. — Dei um meio sorriso e continuei dobrando as roupas que ela deixou em cima da cama.
— Não precisa dobrar não, filha. Pode deixar comigo.
— Não, Dona Jane, eu vou ajudar. — Ela bateu na minha mão e eu ri, mas não parei de dobrar.