RAFAEL (Talibã)
Acordei sob algo macio e olhei pra cima; Maju estava dormindo também, com a respiração pesada, e eu preferi não acordá-la.
Olhei meu relógio: eram quase sete horas da noite. Estava morrendo de fome e provavelmente a madame aqui acordaria com fome também.
Pedi pra entregarem duas pizzas aqui pra gente comer e, enquanto isso, fui arrumando a mini zona que eu deixei mais cedo na cozinha — que se dona Jane visse, brigaria comigo.
Voltei pro quarto e me sentei ao lado dela, que ainda dormia tranquilamente.
Eu não sei o que tá acontecendo, eu já não tenho mais controle sobre os meus pensamentos quando se trata dela. O dia de hoje serviu pra que eu visse que não adianta negar: ela não merece o que eu estava fazendo, ela não me merece.
Passei a mão em seu rosto perfeitamente alinhado, com a pele branca lisinha. Algumas sardas quase invisíveis em seu nariz empinado, os olhos intensos que agora estavam fechados e relaxados.
Maria Júlia é perfeita. Por dentro e por fora.
Seu corpo coberto só com uma camisa minha me deixava sem fôlego; era como se um imã nos unisse e eu não conseguiria me manter distante mais. Seria impossível descartá-la como eu planejei fazer — agora eu estava mais envolvido que deveria.
Foda-se o pai dela, f**a-se o que eu sou.
Eu quero essa mulher pra mim.
Ela se mexeu com meus toques e acordou me olhando. p**a que pariu, como pode?
— Oi, linda. — Ela riu e se espreguiçou.
— Oi, Rafa. Que horas são? Eu dormi muito?
— São sete horas, eu acordei agora pouco também. Tá com fome?
— To morrendo! — Eu ri e puxei ela pra sentar no meu colo.
— Pedi pizza pra gente, daqui a pouco vai chegar. Vamos lá pra sala? — Lhe dei um selinho.
— Agora não, fica mais aqui comigo. Vamos deitar. — Era quase impossível negar o pedido manhoso dela, mas se eu ficasse mais um tempo deitado com ela, eu não iria me conter e ia comer ela aqui mesmo.
— Já deitamos demais, vamos aproveitar na sala. Vem! — Passei meu braço por baixo de seus joelhos e carreguei ela até o sofá da sala.
Coloquei ela sentada e me sentei ao seu lado; ela passou as pernas por cima da minha coxa.
— Folgada.
— Se puder fazer uma massagem aí, eu agradeço.
— Eu não... — Ela me olhou tipo gato de botas e eu revirei os olhos, começando a apertar levemente os pés dela com minha mão.
— Isso é bom! — Ela arqueou a cabeça pra trás e fechou os olhos. — Obrigada por hoje, Rafa. Eu não sei a última vez que estive tão à vontade em um ambiente e me sinto assim com você.
— Você não precisa agradecer, linda. Eu quero que você se sinta à vontade comigo. — Trouxe ela pra perto e beijei a lateral da sua cabeça.
Meu celular tocou na cozinha e eu gostaria de ignorar, mas tocava insistentemente.
— Eu já volto.
Levantei e fui ver quem me ligava em pleno domingo à noite. Era Cauê.
Ligação on
— Ressuscitei, gatinho. Achou que ia se livrar de mim? — Ele falou quando atendi e eu ri.
— E aí, cara! Como tá? Novo em folha?
— Como se nada tivesse acontecido. To pronto pra mais uma.
— Tá maluco? Vou te mandar pra missão nenhuma mais. Vai vazar daí quando? — Perguntei.
— Daqui dois dias. Ainda to em observação. — Ele disse entediado. — Pelo menos a enfermeira que cuida de mim é gostosa.
— Peguei as balas que tavam dentro de ti. Vou mandar amanhã pra Jota verificar. — Falei baixo pra que Maju não ouvisse.
— Faz isso irmão. Felipe disse que tinha infiltrado na missão. O que tu acha?
— Eu tenho certeza que tinha, p***a. E eu vou descobrir quem é, não vai ficar impune não — você sabe o que acontece com X9.
— Eu sei e te garanto que faço questão de fazer um inferno na vida de quem entregou a gente. — Ele falou puto, assim como eu estava.
— Te preocupa não, o que é dele tá muito bem guardado. — Ele concordou, nos despedimos e eu desliguei, voltando pro sofá onde Maria ainda estava mexendo no celular.
Ligação off
Quando me viu, deu um meio sorriso e voltou a mexer no celular, digitando alguma coisa.
— O que acontece com X9? — Ela me olhou curiosa, perguntou do nada e eu gelei.
A filha da mãe ouviu a conversa. Maria Júlia é esperta, ela vai ligar uma coisa a outra e vai chegar a uma conclusão.
Fui salvo pela pizza que chegou e eu tive que ir buscar na recepção do prédio.
Voltei pra casa, comemos em silêncio porque a fome era maior. Conversamos mais um pouco até que estava tarde e ela precisava voltar pra casa. Peguei as chaves do carro, levei ela pra casa e logo voltei pra minha. Como tinha dormido a tarde, eu não dormiria agora — estava com nenhum sono. Mas me deitei e fiquei mexendo no celular; mandei mensagem pra Maju assim que cheguei em casa, como ela pediu, mas não obtive resposta.