Na manhã seguinte, Nayla acordou antes do sol. Pela primeira vez em semanas, não precisou ser sacudida pela mãe ou chamada com voz ríspida. Não era exatamente animação que a movia — era inquietação. Seu corpo não queria descansar. Era como se ela estivesse dormindo em terreno instável, sempre pronta para afundar.
Vestiu-se sem pressa, com um short jeans e uma blusa branca de alças finas. Prendeu o cabelo em um r**o de cavalo frouxo e desceu para a sala de jantar, esperando encontrar apenas o silêncio da casa adormecida. Mas para sua surpresa, Sebastian já estava lá. Sentado à mesa, folheava um livro qualquer enquanto tomava café.
— Bom dia — disse ele, erguendo os olhos ao perceber a presença dela.
— Bom dia — respondeu Nayla, tentando parecer indiferente.
Ele parecia natural demais naquela cozinha, e isso a incomodava. Como se já pertencesse àquele espaço que ela ainda lutava para chamar de lar. Como se tudo estivesse indo rápido demais — porque estava.
Ela serviu-se de café e pão, sentando-se do lado oposto da mesa. O silêncio entre os dois não era desconfortável, mas carregava uma certa expectativa, como se algo estivesse para acontecer.
— Dormiu bem? — ele perguntou, com um tom leve.
— Nem sei o que significa isso ultimamente — respondeu, sem humor.
Sebastian sorriu de canto, compreendendo.
— Eu também não. Acho que nossos travesseiros andam cheios de pensamentos.
Nayla não comentou. Apenas observou-o por alguns segundos. Havia algo intrigante naquele garoto: ele dizia as coisas certas sem parecer ensaiado, e mantinha uma calma que irritava e acalmava ao mesmo tempo. Era quase impossível decifrá-lo.
— Meus pais saíram cedo — ele disse, após alguns segundos. — Vão resolver... os detalhes do nosso casamento.
A colher que Nayla levava à boca parou no ar.
— Já?
— Já — confirmou. — Não estamos perdendo tempo, aparentemente.
Ela revirou os olhos.
— Eles podiam ao menos esperar a gente se conhecer de verdade, né?
— Para eles, já somos quase marido e mulher.
— Ridículo — disse, empurrando o prato para longe, sem fome.
O clima pesou. Mas Sebastian permaneceu sereno, como se tivesse se acostumado a caminhar sobre terreno minado.
— Quer sair? Dar uma volta? Talvez o parque... — sugeriu.
Ela hesitou.
Parte dela queria se isolar no quarto e não ver mais ninguém. Mas outra parte — a que resistia mais — começava a admitir que talvez fosse bom sair, respirar, fazer algo que não envolvesse sorrisos falsos e vestidos impecáveis.
— Ok — disse por fim. — Só por uma hora.
O parque estava mais bonito do que o normal. Árvores vibrantes, flores bem cuidadas, crianças correndo de um lado para o outro. Era difícil acreditar que aquele lugar, tempos atrás, era um terreno abandonado. Nayla conhecia bem essa história — porque ela havia feito parte dela.
— Você ajudou a restaurar esse parque, não foi? — perguntou Sebastian, enquanto caminhavam pela trilha central.
Ela o olhou de lado.
— Como sabe disso?
— Pesquisei sobre você. Queria saber com quem ia me casar, afinal.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E o que mais descobriu?
— Que você liderou um projeto de reabilitação social, fundou uma livraria comunitária e ainda conseguiu doações para manter aulas de reforço escolar gratuitas. Além de vencer um concurso de redação nacional aos quinze anos.
Ela corou levemente. Não estava acostumada a ser reconhecida por suas conquistas. Sua mãe raramente mencionava isso. E seu pai, quando lembrava, usava como argumento para dizer que ela seria uma ótima administradora de empresas — mesmo contra a v*****e dela.
— Achei que ninguém além de mim se importava com essas coisas — murmurou.
— Eu me importo — disse ele, com simplicidade. — São essas coisas que dizem quem você é de verdade. Não a aliança que te colocaram no dedo.
Por um momento, Nayla sentiu a respiração falhar.
— Sebastian...
— Não precisa dizer nada — ele cortou, olhando para o horizonte. — Só quero que saiba que não estou aqui para te moldar nem te forçar. Quero, sinceramente, descobrir quem você é... e quem eu sou, perto de você.
Ela desviou o olhar, incerta. Ainda não confiava nele completamente — e talvez não confiasse por um bom tempo. Mas ele estava plantando sementes. Sementes de algo que poderia, eventualmente, florescer.
— Esse parque me lembra liberdade — disse ela, mudando de assunto. — Quando cuidávamos daqui, eu me sentia viva. Sentia que tinha algum controle sobre o mundo.
— Ainda tem — respondeu ele. — Só precisa lembrar disso.
Caminharam até uma área mais tranquila, onde estenderam uma canga na grama. Nayla trouxe uma cesta com frutas e suco, e ambos se sentaram para observar o lago. Ela mordeu uma maçã em silêncio, enquanto Sebastian tirava o tênis e esticava as pernas.
— Sabe — começou ele, sem encará-la —, nunca me vi casado aos dezenove anos. Nem aos vinte e nove, pra falar a verdade. Mas acho que tem algo em nós que... talvez valha a pena descobrir.
— Você fala como se já soubesse que vai gostar de mim.
— Eu não sei. Mas quero ter a chance de tentar — disse com sinceridade.
Ela respirou fundo. Era exatamente esse tipo de frase que confundia sua mente. Que mexia com o que ela não queria sentir. Porque se deixasse... talvez começasse a gostar dele. E isso tornaria tudo ainda mais difícil.
— Não facilite pra mim — sussurrou.
— Não estou tentando — respondeu ele, com um sorriso quase triste. — Só estou sendo eu mesmo.
Ficaram em silêncio por um tempo. O tipo de silêncio que não machuca, mas que também não conforta.
Na volta para casa, Nayla não falou muito. Sua mente estava cheia demais.
Ao entrarem, encontraram a casa tomada por funcionários preparando o jantar de noivado.
— Vocês sumiram — reclamou a mãe de Nayla, vindo ao encontro dos dois. — Têm ideia de quanto ainda há para fazer?
Nayla engoliu a v*****e de gritar. Estava exausta de ser levada como uma boneca, arrastada de uma decisão à outra.
— Vai dar tudo certo, mãe — respondeu, surpreendendo até a si mesma.
A mulher a olhou desconfiada, mas logo foi dar ordens aos empregados.
Sebastian lançou a Nayla um olhar discreto, como se perguntasse: “Está tudo bem?”
Ela apenas assentiu.
Mas por dentro, tudo ainda era um turbilhão.