Capítulo 2 – Entre a Rejeição e o Encanto

1070 Palavras
Na manhã seguinte, Nayla acordou antes do sol. Pela primeira vez em semanas, não precisou ser sacudida pela mãe ou chamada com voz ríspida. Não era exatamente animação que a movia — era inquietação. Seu corpo não queria descansar. Era como se ela estivesse dormindo em terreno instável, sempre pronta para afundar. Vestiu-se sem pressa, com um short jeans e uma blusa branca de alças finas. Prendeu o cabelo em um r**o de cavalo frouxo e desceu para a sala de jantar, esperando encontrar apenas o silêncio da casa adormecida. Mas para sua surpresa, Sebastian já estava lá. Sentado à mesa, folheava um livro qualquer enquanto tomava café. — Bom dia — disse ele, erguendo os olhos ao perceber a presença dela. — Bom dia — respondeu Nayla, tentando parecer indiferente. Ele parecia natural demais naquela cozinha, e isso a incomodava. Como se já pertencesse àquele espaço que ela ainda lutava para chamar de lar. Como se tudo estivesse indo rápido demais — porque estava. Ela serviu-se de café e pão, sentando-se do lado oposto da mesa. O silêncio entre os dois não era desconfortável, mas carregava uma certa expectativa, como se algo estivesse para acontecer. — Dormiu bem? — ele perguntou, com um tom leve. — Nem sei o que significa isso ultimamente — respondeu, sem humor. Sebastian sorriu de canto, compreendendo. — Eu também não. Acho que nossos travesseiros andam cheios de pensamentos. Nayla não comentou. Apenas observou-o por alguns segundos. Havia algo intrigante naquele garoto: ele dizia as coisas certas sem parecer ensaiado, e mantinha uma calma que irritava e acalmava ao mesmo tempo. Era quase impossível decifrá-lo. — Meus pais saíram cedo — ele disse, após alguns segundos. — Vão resolver... os detalhes do nosso casamento. A colher que Nayla levava à boca parou no ar. — Já? — Já — confirmou. — Não estamos perdendo tempo, aparentemente. Ela revirou os olhos. — Eles podiam ao menos esperar a gente se conhecer de verdade, né? — Para eles, já somos quase marido e mulher. — Ridículo — disse, empurrando o prato para longe, sem fome. O clima pesou. Mas Sebastian permaneceu sereno, como se tivesse se acostumado a caminhar sobre terreno minado. — Quer sair? Dar uma volta? Talvez o parque... — sugeriu. Ela hesitou. Parte dela queria se isolar no quarto e não ver mais ninguém. Mas outra parte — a que resistia mais — começava a admitir que talvez fosse bom sair, respirar, fazer algo que não envolvesse sorrisos falsos e vestidos impecáveis. — Ok — disse por fim. — Só por uma hora. O parque estava mais bonito do que o normal. Árvores vibrantes, flores bem cuidadas, crianças correndo de um lado para o outro. Era difícil acreditar que aquele lugar, tempos atrás, era um terreno abandonado. Nayla conhecia bem essa história — porque ela havia feito parte dela. — Você ajudou a restaurar esse parque, não foi? — perguntou Sebastian, enquanto caminhavam pela trilha central. Ela o olhou de lado. — Como sabe disso? — Pesquisei sobre você. Queria saber com quem ia me casar, afinal. Ela arqueou uma sobrancelha. — E o que mais descobriu? — Que você liderou um projeto de reabilitação social, fundou uma livraria comunitária e ainda conseguiu doações para manter aulas de reforço escolar gratuitas. Além de vencer um concurso de redação nacional aos quinze anos. Ela corou levemente. Não estava acostumada a ser reconhecida por suas conquistas. Sua mãe raramente mencionava isso. E seu pai, quando lembrava, usava como argumento para dizer que ela seria uma ótima administradora de empresas — mesmo contra a v*****e dela. — Achei que ninguém além de mim se importava com essas coisas — murmurou. — Eu me importo — disse ele, com simplicidade. — São essas coisas que dizem quem você é de verdade. Não a aliança que te colocaram no dedo. Por um momento, Nayla sentiu a respiração falhar. — Sebastian... — Não precisa dizer nada — ele cortou, olhando para o horizonte. — Só quero que saiba que não estou aqui para te moldar nem te forçar. Quero, sinceramente, descobrir quem você é... e quem eu sou, perto de você. Ela desviou o olhar, incerta. Ainda não confiava nele completamente — e talvez não confiasse por um bom tempo. Mas ele estava plantando sementes. Sementes de algo que poderia, eventualmente, florescer. — Esse parque me lembra liberdade — disse ela, mudando de assunto. — Quando cuidávamos daqui, eu me sentia viva. Sentia que tinha algum controle sobre o mundo. — Ainda tem — respondeu ele. — Só precisa lembrar disso. Caminharam até uma área mais tranquila, onde estenderam uma canga na grama. Nayla trouxe uma cesta com frutas e suco, e ambos se sentaram para observar o lago. Ela mordeu uma maçã em silêncio, enquanto Sebastian tirava o tênis e esticava as pernas. — Sabe — começou ele, sem encará-la —, nunca me vi casado aos dezenove anos. Nem aos vinte e nove, pra falar a verdade. Mas acho que tem algo em nós que... talvez valha a pena descobrir. — Você fala como se já soubesse que vai gostar de mim. — Eu não sei. Mas quero ter a chance de tentar — disse com sinceridade. Ela respirou fundo. Era exatamente esse tipo de frase que confundia sua mente. Que mexia com o que ela não queria sentir. Porque se deixasse... talvez começasse a gostar dele. E isso tornaria tudo ainda mais difícil. — Não facilite pra mim — sussurrou. — Não estou tentando — respondeu ele, com um sorriso quase triste. — Só estou sendo eu mesmo. Ficaram em silêncio por um tempo. O tipo de silêncio que não machuca, mas que também não conforta. Na volta para casa, Nayla não falou muito. Sua mente estava cheia demais. Ao entrarem, encontraram a casa tomada por funcionários preparando o jantar de noivado. — Vocês sumiram — reclamou a mãe de Nayla, vindo ao encontro dos dois. — Têm ideia de quanto ainda há para fazer? Nayla engoliu a v*****e de gritar. Estava exausta de ser levada como uma boneca, arrastada de uma decisão à outra. — Vai dar tudo certo, mãe — respondeu, surpreendendo até a si mesma. A mulher a olhou desconfiada, mas logo foi dar ordens aos empregados. Sebastian lançou a Nayla um olhar discreto, como se perguntasse: “Está tudo bem?” Ela apenas assentiu. Mas por dentro, tudo ainda era um turbilhão.
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