Capítulo 3 – Um Dia Para Lembrar

1279 Palavras
O jantar de noivado havia terminado na noite anterior, mas seus ecos ainda rondavam a cabeça de Nayla. A sala cheia de sorrisos forçados, os brindes, os olhares de expectativa, e, principalmente, o anel de noivado cintilando em sua mão — algo tão delicado e bonito, mas que pesava como uma corrente. Ela acordou com o celular vibrando. Uma mensagem de Sebastian: “Bom dia. Precisa fugir um pouco? Tenho um plano. Sem pressão.” Nayla encarou a tela por alguns segundos. O coração acelerou, não por entusiasmo romântico, mas pela sensação de que alguém a compreendia o suficiente para saber que ela estava à beira do colapso. Sorriu de leve, apesar de tudo, e respondeu: “Depende do plano.” Não demorou para a resposta vir: “Cinema. Pipoca. Você escolhe o filme. Te encontro na garagem às 11h30.” Ela olhou o relógio. Tinha pouco mais de uma hora. Respirou fundo e, pela primeira vez naquela semana, levantou-se com um pouco menos de peso sobre os ombros. Vestiu-se de forma simples, com um short jeans escuro e uma camiseta verde-clara que realçava seus olhos. Prendeu o cabelo em um coque solto e passou um gloss discreto. Nada muito planejado. Queria se sentir... ela mesma. Na garagem, encontrou Sebastian encostado no carro, de braços cruzados, usando uma camisa azul e jeans. Ele parecia relaxado, como se aquilo fosse apenas mais um passeio comum — e talvez fosse mesmo. Mas para Nayla, representava muito mais. — Oi — disse ela, se aproximando. — Oi. Gosta de comédias ou prefere chorar litros no escurinho do cinema? — brincou. — Depende da companhia — respondeu ela, entrando no carro. No caminho, conversaram sobre filmes, músicas, livros e... silêncio. Sim, o silêncio. Descobriram que ambos odiavam aquele tipo de silêncio f*****o durante jantares sociais, quando todos tentam manter as aparências, mas ninguém diz o que realmente sente. — Odeio aquele momento em que minha mãe olha para mim como se dissesse “sorria para as visitas” — disse Nayla, revirando os olhos. — Ah, esse eu conheço bem — Sebastian riu. — No meu caso, meu pai diz com os olhos: “finge que está feliz, você é o herdeiro da empresa”. — É como se nossas vidas fossem vitrines, né? — ela comentou, observando a cidade pela janela. — Exatamente. E nós somos os manequins. Chegaram ao cinema e Nayla sorriu ao ver o cartaz que mais a animava: — A Seleção! — exclamou. — Eu não acredito que fizeram um filme disso! — Você gosta? — perguntou ele, surpreso. — Gosto? É meu livro favorito. Já li a trilogia três vezes. — Seus olhos brilharam de verdade, pela primeira vez no dia. — Confesso que não conheço, mas topo assistir se for importante pra você. Ela o olhou com um meio sorriso. — Prepare-se para um príncipe, uma competição entre garotas, vestidos maravilhosos e... decisões difíceis. — Parece familiar — disse ele, arqueando uma sobrancelha. — Só espero que a protagonista não esteja sendo obrigada a casar. — É... mais ou menos isso. Mas o mais bonito da história é que ela escolhe por amor, e não por dever. — Que inveja dela — murmurou ele. — É por isso que eu gosto tanto dessa história. Ela me dá esperança. Eles compraram pipoca e entraram na sala. Nayla acompanhou cada cena com os olhos brilhando, murmurando de vez em quando: — Essa parte é diferente do livro... mas tudo bem. Sebastian observava mais a Nayla do que o filme. Vê-la sorrir, se emocionar, segurar o riso ou os suspiros... era como observar alguém finalmente sendo livre por algumas horas. Quando a história chegou ao fim, com América e Maxon se aproximando de forma genuína, Nayla se encostou na poltrona com um suspiro sonhador. — Eu sabia que ela escolheria o Maxon — disse, como se fosse uma verdade absoluta. — Você tem cara de “team Maxon” — brincou Sebastian. — E você parece do tipo que se esconde atrás de sarcasmo quando está emocionado. Ele riu. — Talvez. — Vai ler os livros, né? — ela cutucou. — Depois de hoje? Com certeza. Na saída do cinema, enquanto ainda falavam sobre os personagens e as cenas, Sebastian fez um convite: — Tem mais uma parte do plano. — Você é sempre assim? Misterioso? — Só quando quero causar uma boa impressão. — Tá. O que é agora? — Parque de diversões. Ela sorriu. — Com algodão-doce e tudo? — E um urso de pelúcia. Prometo. O parque estava animado. Música alta, risadas ao fundo, o cheiro doce de pipoca e maçã-do-amor no ar. Nayla segurava o ursinho branco que Sebastian conquistou depois de muitas tentativas frustradas no jogo de argolas. Ela riu de verdade quando ele quase derrubou a barraca tentando acertar o alvo. — Confesso que me diverti vendo você errar — disse ela. — Você só está feliz porque ganhou o urso. — E porque ganhei uma tarde de liberdade. Subiram na roda-gigante, onde, por alguns minutos, tudo pareceu suspenso: o barulho, as obrigações, até o noivado. — Lembra do que a América disse no livro? — Nayla perguntou, olhando a cidade lá embaixo. — Não li ainda, lembra? — Ela disse que queria sentir que ainda tinha o direito de fazer escolhas. Mesmo que as opções fossem poucas. Sebastian a observou em silêncio. O vento mexia suavemente o cabelo dela. Por um instante, ele quis segurá-la, dizer que tudo ficaria bem. Mas sabia que não era hora. Nayla ainda precisava de espaço. — Você ainda tem escolha, Nayla — disse ele. — E eu... não sou seu destino. A não ser que você queira que eu seja. Ela o olhou, com um misto de confusão e admiração. — Não facilita, Sebastian. — Só estou sendo honesto. E o silêncio que se seguiu foi o mais verdadeiro dos dois até então. Ao voltarem para casa, já no fim da tarde, o céu começava a ganhar tons alaranjados. O silêncio dentro do carro era diferente daquele do início do dia. Agora, era mais denso — cheio de pensamentos não ditos, de sentimentos que cresciam entre palavras. — Obrigada por hoje — Nayla disse, ainda abraçada ao ursinho que Sebastian havia ganhado para ela. — Fazia tempo que eu não ria assim. — E eu fazia tempo que não via alguém tão apaixonada por uma história como você estava por A Seleção — respondeu ele com um sorriso sincero. Ela riu, meio tímida. — É que, por um tempo, aqueles livros foram tudo que eu tinha... para fugir da minha realidade. Sebastian apenas assentiu. Ele entendia. De alguma forma, também vivia em fuga. — Boa noite, Nayla — disse ele, ao pararem diante da porta da casa. — Boa noite, Sebastian. Subiu para o quarto devagar, ainda abraçada ao urso branco. Ao entrar, jogou-se na cama e ficou encarando o teto, sentindo o perfume doce do parque ainda grudado na pele. Queria odiar Sebastian. Queria resistir a tudo o que ele representava. Mas algo nele... fazia com que fosse difícil manter as defesas altas por muito tempo. “Não se apaixone por ele”, repetiu para si mesma. “Você ainda tem tempo. Ainda tem controle.” Mas quando olhou para o ursinho no canto da cama, viu mais do que um brinquedo. Viu uma lembrança de um dia onde, pela primeira vez em muito tempo, ela havia sido só Nayla — e não a filha perfeita, a noiva escolhida, a promessa de aliança entre famílias. E foi com esse pensamento que ela adormeceu, sem perceber o leve sorriso em seus próprios lábios.
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