“Algumas gaiolas têm grades douradas, mas continuam sendo prisões.”
O céu parecia desenhado à mão, pincelado com tons suaves de azul e nuvens delicadas que passavam preguiçosamente. Nayla respirou fundo ao abrir a janela do quarto naquela manhã. Queria que o ar puro que entrava fosse capaz de libertá-la da opressão que crescia dentro de si. Mas não era tão simples. Liberdade não era só abrir uma janela.
Do lado de fora, Sebastian a esperava ao lado do carro. Encostado na lataria, de braços cruzados e olhos semicerrados, parecia tranquilo. Mas havia algo em seu olhar que Nayla reconhecia — o mesmo misto de ansiedade e esperança que ela tentava esconder.
— Pronta para um dia diferente? — ele perguntou com um sorriso.
— Pronta para tudo... menos para o que me espera depois — respondeu, tentando sorrir, mas sentindo o peso da realidade escorrendo pelas palavras.
Entraram no carro e seguiram rumo ao Parque Villela. No caminho, conversaram sobre coisas bobas: filmes, músicas, sabores de sorvete. Nayla riu com v*****e pela primeira vez em dias quando Sebastian imitou um comercial de pasta de dente com um sotaque britânico h******l.
Mas o riso durou pouco. Assim que chegaram ao parque, o silêncio os tomou. O lugar era lindo. Um jardim repleto de flores coloridas, bancos reformados, árvores vivas e o lago refletindo o céu como um espelho.
— Você... fez isso tudo mesmo? — Sebastian perguntou, sem esconder o espanto.
— Sim. Com ajuda de muitos, claro. Mas a iniciativa foi minha. Quando olhei para esse lugar abandonado, enxerguei possibilidades. Vida. Recomeço.
— Isso é incrível. Você não é só corajosa, Nayla. Você é... necessária.
Ela o olhou, surpresa.
— Necessária?
— Sim. O mundo precisa de gente como você. Que sonha e age. Que não aceita só assistir. — Ele sorriu. — Você não é só uma garota rica cercada de luxo. Você é uma revolução disfarçada de princesa.
Nayla corou. Não estava acostumada a ser vista assim. Em casa, era tratada como vitrine. No colégio, como referência. Mas com Sebastian... ela se sentia apenas ela.
— Que tal criarmos algo juntos? — ela perguntou, quase sem pensar.
— Algo... como?
— Um projeto. Para idosos e animais abandonados. Dois mundos esquecidos, sabe? Mas que podem se ajudar.
— Isso é... genial! — Ele se animou. — Imagino os idosos visitando abrigos, brincando com os bichinhos, reencontrando alegria no cuidado. E os animais, recebendo amor, afeto... pertencimento.
— Sim. Exatamente isso — ela disse, emocionada. — É mais que um projeto. É um propósito.
Sentaram-se à sombra de uma árvore, estenderam o lençol sobre a grama e montaram o piquenique. Suco de uva, frutas, sanduíches e biscoitos amanteigados. Comida simples, feita por Nayla na noite anterior, com ajuda da cozinheira da casa, sem que a mãe soubesse.
— Tem gosto de liberdade — ele disse, mordendo um morango.
Ela riu.
— É. Quase consigo fingir que sou livre.
— Você é, Nayla. Aqui, agora, com você, eu me sinto livre também.
O tempo passou devagar. Deitaram na grama, tiraram fotos, inventaram nomes para as nuvens, dividiram segredos. Nayla contou que queria cursar Artes. Que amava escrever, cantar e pintar. Sebastian revelou que sempre sonhou em ser desenhista, mas o pai quer vê-lo com diploma em Administração.
— Nossos pais parecem ter combinado isso — ela comentou. — Sonhos substituídos por expectativas. Corações sufocados por currículos.
— Mas eu não quero viver assim — ele disse, sério. — Se eu tiver que me casar com alguém, quero que seja com alguém que me inspire. Que sonhe comigo.
— Eu também — Nayla murmurou.
Ficaram em silêncio por um tempo, até que ela disse:
— Precisamos fazer esse projeto acontecer. Não só por eles... mas por nós. Vai ser nossa maneira de existir fora do que querem que sejamos.
— Vai ser nossa rebelião — ele completou, apertando de leve a mão dela.
Quando voltaram para casa, a realidade caiu como um balde de água fria. A mansão estava em movimento frenético. Caminhões descarregando flores, caixas de porcelana, tecidos e louças. Costureiras, decoradores, garçons... Era como se a festa já tivesse começado.
— Que loucura — Sebastian murmurou.
— Bem-vindo à minha prisão dourada — Nayla respondeu, olhando em volta.
Subiu as escadas lentamente. Sua mãe estava no topo, radiante.
— Está tudo perfeito. Vai ser inesquecível.
— É... inesquecível — repetiu Nayla, sem emoção.
No quarto, o vestido já a esperava. Branco, longo, com rendas finas, como se tivesse sido tirado de um conto de fadas. Mas para Nayla, parecia mais um figurino de teatro. Ela era a atriz principal de uma peça da qual não queria fazer parte.
As assistentes entraram. Maquiagem leve, penteado elegante. Nayla deixou que fizessem tudo, sem protestar. Sentia-se como uma boneca sendo preparada para exposição.
Antes de calçar os sapatos, pegou do porta-joias a pulseira inspirada em A Seleção. Uma lembrança dos seus próprios sonhos. De quem ela queria ser. Colocou-a no pulso, como armadura invisível.
Olhou-se no espelho. Estava linda. Mas não reconhecia a si mesma.
Uma batida na porta.
— Quem é?
— Sou eu, filha.
— Pode entrar, mãe.
A mulher entrou emocionada, com os olhos marejados.
— Você está... deslumbrante.
Nayla forçou um sorriso.
— Obrigada, mamãe. Estou pronta.
“Pronta pra o que eles querem. Não para o que eu sonho.”
— Eu te amo, Nayla.
— Eu também te amo — respondeu, enquanto sentia seu coração se partir um pouco mais.
Desceram as escadas juntas. A sala de jantar estava deslumbrante. Sebastian a esperava no centro, de terno azul-marinho, com um sorriso calmo, mas os olhos denunciavam o nervosismo.
Quando a viu, ficou paralisado por um segundo. Depois caminhou até ela e estendeu o braço.
— Pronta, princesa?
— Não. Mas vamos assim mesmo — ela disse, com um sorriso frágil.
Diante da mesa, ele bateu levemente na taça.
— Boa noite a todos. Hoje é um dos dias mais especiais da minha vida. Ao lado da Nayla, quero dar esse passo com o coração aberto. Nosso amor, mesmo jovem, é sincero. E por isso, Nayla Villela... — Ele tirou uma caixinha do bolso e se ajoelhou. — Você me daria a honra de ser minha esposa?
O mundo parou.
Nayla sentiu o coração acelerar. As lágrimas vieram sem aviso. Olhou em volta. Todos esperavam. Os olhos da mãe brilhavam. O pai acenava com a cabeça. Sebastian esperava... com esperança.
E então, sua boca se adiantou ao seu pensamento.
— Sim. Eu aceito.
Ele colocou o anel em seu dedo. Um aro de ouro delicado com um pequeno diamante em forma de coração.
Eles se beijaram.
Todos aplaudiram.
Mas dentro de Nayla, havia silêncio.
Um silêncio gritando por liberdade.