As palmas ainda ecoavam como trovões abafados na mente de Nayla. Os olhos arregalados do público, os sorrisos falsamente calorosos, as taças tilintando num brinde que mais parecia uma sentença. Cada gesto, cada palavra, cada olhar, reforçava o mesmo roteiro: “A princesa aceitou”. Mas o que ninguém via era a menina por trás da maquiagem perfeita, do vestido impecável, da resposta que escapou de sua boca antes mesmo de passar pelo coração.
O beijo de Sebastian foi doce. Gentil. Até cheio de sentimento. Mas para Nayla, foi como selar um pacto do qual ela não lembrava de ter concordado. O ar lhe faltava mesmo sem correr. Os sorrisos lhe doíam mesmo sendo sinceros.
Ele entrelaçou os dedos aos dela. A aliança no dedo brilhava em contraste com a mão trêmula. Ela sorriu. De novo. Mais uma vez. Porque era isso que esperavam dela.
— Você está bem? — Sebastian sussurrou, aproximando o rosto do seu.
— Estou — mentiu, quase sem voz. — Só... surpresa.
Ele assentiu com uma leve expressão de dúvida, mas não insistiu. Talvez soubesse. Ou talvez estivesse fingindo que não via.
A noite seguiu como uma peça de teatro bem ensaiada. Teve risos, músicas suaves, elogios demais, fotos demais, e palavras que Nayla não queria ouvir. Era sempre sobre o quão perfeita ela estava, sobre como aquele casamento uniria fortunas, famílias, corporações. Sempre os mesmos discursos: "um casamento ideal", "um casal promissor", "um futuro brilhante".
Ninguém falava de amor. Ninguém perguntava se ela estava feliz.
— Vocês dois juntos são a personificação da elegância — comentou uma senhora de vestido azul-marinho e gargalhada exagerada.
— Uma união como essa reforça a credibilidade de ambas as famílias — disse o tio Hector, com seu copo de vinho caro.
Nayla sorria e agradecia. Mas por dentro, queria gritar. Fugir. Rasgar aquele vestido, arrancar os brincos pesados, tirar os sapatos apertados e correr sem olhar para trás.
A música ambiente parecia zombar dela com suas notas suaves demais para o caos que acontecia dentro de sua cabeça.
Quando finalmente conseguiu escapar para o jardim, o ar fresco bateu em seu rosto como um alívio dolorido. Caminhou até o banco de mármore próximo à fonte. Logo, Sebastian a seguiu, silencioso, respeitando o momento dela. Sentou-se ao lado, sem dizer nada por um tempo. Apenas observou.
— Você quer conversar? — ele perguntou por fim.
Ela não respondeu de imediato. Apenas olhou para a lua. Linda. Livre. Intocável.
— Você quer mesmo saber a resposta? — ela devolveu a pergunta com sinceridade.
— Quero — ele disse, sem hesitar.
Ela suspirou.
— Eu não sei por que disse “sim”. Acho que... me vi cercada. Os olhares, as expectativas, a pressão. Tudo foi tão rápido, e eu... falei. Simples assim.
— Foi impulso? — perguntou, a voz serena, mas um pouco machucada.
Ela assentiu devagar.
— Não queria te magoar, Sebastian. Você tem sido incrível. Tem sido gentil comigo, respeitoso, divertido... mas... é tudo tão novo, tão f*****o.
Ele abaixou o olhar. Havia compreensão ali, mas também dor.
— Eu entendo — disse. — De verdade. Mas... eu disse “sim” porque eu quis. Porque eu quero tentar. Eu sei que esse casamento não foi escolha nossa. Mas talvez o amor... talvez ele possa ser.
Nayla ficou em silêncio. As palavras dele soavam sinceras. Quentes. E isso a confundia ainda mais. Ela gostava dele, disso não duvidava. Mas ainda assim, algo dentro dela gritava que era cedo demais. Que não era justo ser colocada no altar da conveniência quando tudo o que queria era liberdade.
— Eu quero tentar — ela disse, finalmente. — Mas no meu tempo. Com meus termos. Um passo por vez.
Sebastian sorriu. Aquele sorriso doce que fazia seus olhos mel ficarem ainda mais verdes.
— Um passo por vez. Prometo.
Ficaram ali por alguns minutos. Nenhum dos dois queria voltar para dentro. Lá dentro, estavam as máscaras. Aqui fora... eram só dois jovens tentando entender o que o destino havia feito com eles.
Pouco depois, voltaram para o salão. Nayla dançou com o pai. Com o sogro. Com dois dos tios de Sebastian. Tirou mais fotos. Mais poses. Mais sorrisos forçados.
Quando, enfim, subiu para seu quarto, retirou o vestido com alívio. Largou os brincos numa bandeja e foi direto para o espelho. Observou-se ali. Rosto limpo, olhos cansados, cabelo solto... e a aliança. Brilhando no dedo anelar esquerdo. Pequena. Delicada. E pesada.
Ela se deitou, mas não conseguiu dormir. O corpo pedia descanso, mas a mente insistia em repassar cada segundo do que acabara de acontecer.
“Eu disse sim.”
Essa frase martelava sua cabeça como um lembrete c***l.
“Eu disse sim, mas por quê?”
Quando, finalmente, o sono venceu, seus sonhos foram estranhos. Em um deles, corria por um campo aberto, com Sebastian ao seu lado, os dois rindo e livres. Em outro, estava presa dentro de uma redoma de vidro, enquanto sua mãe observava do lado de fora com um sorriso satisfeito.
Na manhã seguinte, o sol invadia seu quarto sem pedir licença. Nayla se levantou devagar. Seu corpo ainda doía em partes que nem sabia que podiam doer. Fez sua higiene, prendeu o cabelo em um coque desleixado, vestiu um vestido simples de linho branco e desceu para o café.
Para sua surpresa, encontrou Sebastian sozinho à mesa, folheando um livro.
— Bom dia, princesa.
Ela sorriu. Um sorriso leve. Quase involuntário.
— Bom dia. Cadê todo mundo?
— Nossos pais saíram cedo. Foram fechar contrato com o bufê, o fotógrafo e a decoradora. Parece que os convites do casamento saem ainda hoje.
— Hoje? — Nayla arregalou os olhos. — Eles não perdem tempo.
—Nunca perdem. — Ele deu um gole no suco. — E você? Vai querer fugir ou respirar fundo?
Ela se sentou à frente dele, pegando um pedaço de bolo de banana.
— Nenhum dos dois. Hoje... eu quero viver por mim. Quero ir ao parque. Rever os voluntários. Pensar no nosso projeto. Preciso lembrar quem eu sou.
Sebastian fechou o livro com cuidado.
— Então vamos. Hoje será um dia só nosso. Não como noivos. Mas como Nayla e Sebastian. Duas pessoas tentando fazer o certo.
Ela o olhou, surpresa mais uma vez com a sensibilidade dele. Sorriu.
— Obrigada.
— Por quê?
— Por não tentar me forçar a ser o que esperam de mim.
Ele estendeu a mão. Ela aceitou.
— Um passo por vez, lembra?
— Um passo por vez.
Saíram de mãos dadas.
E mesmo que a aliança ainda pesasse, Nayla sentia que — com paciência, coragem e verdade — poderia, sim, transformar aquele “sim” f*****o em algo que fosse dela também.