“Antes de obrigarem Nayla a se casar, tudo o que ela queria era passar numa prova. Uma que provasse que sua vida ainda lhe pertencia.”
Já haviam se passado duas semanas desde o noivado. Duas semanas desde que Nayla, pressionada por dezenas de olhares ansiosos e expectativas sufocantes, dissera um “sim” que ainda ecoava em sua mente como um eco que não encontrava repouso. Desde então, sua vida parecia ter sido dividida em duas realidades paralelas.
Na primeira, os dias se preenchiam com reuniões de planejamento, catálogos de vestidos, cardápios elaborados e decorações absurdamente luxuosas. Tudo isso sob o olhar atento — e impositivo — de sua mãe, que não aceitava meio termo entre perfeição e fracasso.
Na segunda, porém, Nayla encontrava refúgio. Todos os dias, de manhã, ao lado de Sebastian, ela escapava para a biblioteca da cidade. Ali, longe das câmeras, do perfume caro das flores artificiais e das paredes sufocantes da mansão, os dois se entregavam a uma rotina que pouco combinava com noivos de famílias influentes: estudar para o vestibular.
Foi ideia de Sebastian. Ele apareceu no quarto dela na manhã seguinte ao jantar de noivado, com um panfleto amassado e um brilho inesperado nos olhos.
— Ainda dá tempo — disse, segurando o folheto com informações sobre a inscrição para o vestibular. — Temos dois dias pra nos inscrever. Se a gente vai ser obrigado a casar, pelo menos vamos tentar viver antes disso.
Nayla não respondeu de imediato, mas o coração dela pareceu bater com um pouco mais de força naquele momento. Ela pegou o papel com cuidado, como se fosse feito de vidro. E quando levantou os olhos para ele, um pequeno sorriso surgiu.
— Vamos tentar.
Desde então, os dois estudavam juntos, todos os dias. Dividiam livros, trocavam anotações, faziam mapas mentais e se apoiavam em silêncio. A cumplicidade entre eles crescia, não como um romance arranjado, mas como dois adolescentes construindo um abrigo no meio da tempestade.
Nayla passava horas imersa em poesia, literatura, história da arte. Sebastian se empolgava com geometrias complexas, desenhos técnicos e arquitetura moderna. Durante as pausas, sonhavam em voz alta com a vida universitária: as aulas, os corredores cheios, os amigos novos, os cafés corridos antes das provas.
— Se a gente passar… — ele dizia, frequentemente, como quem acende uma vela em meio ao escuro.
E Nayla sempre respondia com os olhos brilhando:
— ...a gente vai viver.
Naquela tarde, sentados no parque Villela — o mesmo que ela havia restaurado meses antes —, os dois estavam deitados sobre uma toalha estendida na grama. O velho ipê florido projetava sombras dançantes sobre seus rostos, e o vento trazia o cheiro de terra molhada e liberdade.
— Você já pensou em como vai contar pra sua mãe? — Sebastian perguntou, enquanto folheava uma apostila.
— Não. — Nayla soltou um riso nervoso. — Acho que nunca vou estar pronta pra isso. Ela vai surtar. Gritar. Dizer que estou sendo ingrata. Vai dizer que meu futuro já está garantido… por que arriscar?
— E o que você vai responder?
— Que esse futuro não é meu. — Ela olhou para o céu. — Que o que me deram é uma vitrine, não uma vida.
Sebastian se calou. Depois de alguns segundos, entrelaçou os dedos nos dela. Era um gesto leve, sem cobrança, sem obrigação. Mas cheio de significado.
— Quando você passar… quero estar lá. No portão da faculdade. Te esperando.
Nayla não respondeu com palavras, mas o sorriso tímido que esboçou foi suficiente.
O retorno para casa, no entanto, quebrou o encanto daquele dia. Ao atravessar o hall principal da mansão, o cheiro intenso de lavanda e rosas brancas a atingiu como um soco. A sala estava tomada por arranjos florais, caixas de vestidos, catálogos de buffets e vozes femininas rindo alto demais.
No meio daquele caos elegante, sua mãe comandava tudo como uma maestrina exigente. Seus olhos brilharam ao ver a filha descer os últimos degraus.
— Querida! Preciso que você veja os modelos de vestido que chegaram. O estilista está esperando no seu quarto. E, por favor, me diga se prefere lírios ou orquídeas para o altar.
— Mãe, eu...
— Depois conversamos. Vai experimentar os vestidos, sim? Você precisa estar impecável. Esse casamento será o evento da década.
Nayla não discutiu. Apenas assentiu e subiu as escadas em silêncio. Mas seu peito ardia.
No quarto, fechou a porta devagar. Sentou-se à beira da cama, pegou o fichário com os papéis da inscrição no vestibular e o segurou como se fosse um relicário. A data da prova estava marcada em vermelho. Faltavam menos de dois meses.
Respirou fundo, tentando conter as lágrimas. Olhou para a aliança em seu dedo. Linda, delicada, feita sob medida. Mas tão pesada quanto uma corrente.
Ela não queria aquele casamento. Não ainda. Talvez um dia — talvez, até mesmo, com Sebastian. Mas agora, tudo o que desejava era passar naquela prova. Era entrar na faculdade. Ter uma mochila nas costas. Dormir em cima de apostilas. Fazer amigos. Construir algo com as próprias mãos.
Ela queria existir para além do sobrenome. Para além da filha perfeita. Para além da noiva exemplar.
Na manhã seguinte, Nayla desceu para o café da manhã sem maquiagem, vestindo um jeans folgado e uma camisa branca simples. Cabelos soltos, olhos um pouco inchados. Mas havia algo diferente nela. Um brilho nos olhos. Uma firmeza no andar.
Sebastian já estava à mesa, folheando um livro de arquitetura. Ao vê-la, sorriu com sinceridade.
— Bom dia, futura caloura de artes visuais.
— Bom dia, futuro arquiteto — ela respondeu, servindo-se de café.
— Nossos pais saíram cedo. Foram visitar a chácara que, aparentemente, será o lugar perfeito para o “casamento dos sonhos”.
— Engraçado — ela comentou, pegando um pedaço de bolo —, porque eu sempre pensei que meus sonhos tivessem a ver com pincéis, música e liberdade. Nunca com vestidos e alianças.
— Ainda dá tempo de mudar isso — ele respondeu, encarando-a com seriedade. — A gente ainda pode fazer valer a pena. Mesmo que tudo pareça contra nós.
Ela o observou por um momento, e então sorriu. Era um sorriso sereno, mas decidido.
— Vamos estudar?
— Vamos.
E naquele momento, entre cadernos abertos e páginas rabiscadas, Nayla sentia que, pela primeira vez, estava realmente se preparando para uma escolha sua. Uma que não foi imposta. Uma que não envolvia alianças douradas, mas sim... coragem.