“O segredo não foi o erro. O erro foi pensar que ela teria o direito de escolher.”
[...]
Nayla passou o restante do dia trancada em seu quarto. A carta do vestibular agora repousava sobre a escrivaninha como se fosse um pedaço de sua alma arrancado e jogado à mesa. Era a primeira vez em anos que ela ousava se posicionar — e a primeira vez que sentia, com clareza, o gosto amargo da rejeição familiar.
O jantar daquela noite foi silencioso.
Seu pai parecia alheio à tensão, ocupado demais discutindo com o advogado da família, que também era convidado. A mãe, em contrapartida, lançava olhares pontiagudos como se cada garfada de Nayla fosse uma afronta.
— Você não vai comer? — o pai perguntou, ao perceber o prato intocado.
— Não estou com fome — ela respondeu, mantendo a cabeça baixa.
— Ainda pensando na faculdade? — a mãe disse, sem disfarçar o desprezo na voz. — Já deixei claro o que está em jogo, Nayla.
A jovem não respondeu. Terminar aquela refeição parecia uma batalha que exigia mais força do que ela tinha.
Ela se levantou da mesa antes da sobremesa, sem pedir licença.
No quarto, chorou de novo. Não por fraqueza, mas por exaustão.
Ela sabia que aquele era só o começo. A partir dali, tudo mudaria. Ou ela cederia… ou aprenderia a lutar.
E ela estava cansada de ceder.
O que doía mais não era a ameaça de perder luxos, conforto, segurança. Era perceber que o amor da própria mãe parecia condicionado à obediência. Que seu valor estava atrelado ao quanto se curvava às expectativas alheias. Que não ser a filha perfeita fazia dela, de repente, um fardo.
Naquela noite, Nayla não dormiu. Ficou sentada à janela, observando a rua vazia e as luzes distantes dos postes. Em algum lugar naquela cidade, havia jovens se preparando para a mesma prova que ela. Jovens com medo, sim, mas também com liberdade.
E era isso que ela queria.
Liberdade.
Nem que custasse tudo.
Dois dias depois, ela e Sebastian se encontraram na biblioteca. Era cedo, o sol ainda engatinhava no céu, e o ar tinha cheiro de livros e café.
— Tem certeza? — ele perguntou, notando a expressão dela.
— Tenho. — Nayla abriu o fichário e começou a organizar os materiais. — Eu vou fazer a prova. Mesmo que precise sair escondida. Mesmo que ela descubra depois. E se me expulsar de casa… eu dou um jeito.
— Tem um lugar onde pode ficar, se isso acontecer — ele disse, simples. — Um dos apartamentos do meu pai no centro está vazio. Posso inventar qualquer coisa.
Ela o olhou com os olhos marejados.
— Você faria isso por mim?
— Não é só por você. É por nós. Você tem coragem suficiente por dois, Nayla. Eu só estou te dando um lugar seguro pra cair, se precisar.
O coração dela apertou. Ela queria abraçá-lo. Queria dizer tudo o que sentia, mas as palavras pareciam pequenas demais diante da gratidão que transbordava.
Eles passaram o dia estudando. Mas, mais do que isso, construindo em silêncio um plano. Um plano de liberdade. De sobrevivência.
—
Naquela noite, Nayla escondeu o caderno de estudos no fundo do armário. Separou discretamente uma muda de roupas confortáveis e colocou o celular antigo para carregar, junto com a identidade e o comprovante de inscrição da prova.
A mãe, desconfiada, perguntou por que ela andava tanto com Sebastian.
— Estamos apenas nos conhecendo melhor — ela respondeu, com um tom doce que escondia a tensão.
— Não quero surpresas — a mãe disse. — Você sabe muito bem o que está em jogo.
Nayla sorriu.
— Eu também sei muito bem o que está em risco se eu passar a vida inteira fingindo ser quem você quer.
Não houve resposta.
Só o silêncio.
—
Cinco dias depois, a prova do vestibular aconteceria.
E Nayla já sabia o que faria.
Ela sairia com Sebastian pela manhã dizendo que iriam à livraria nova. Iria vestida com roupas simples, mochila nas costas, como qualquer estudante comum. Sem salto. Sem joias. Sem o sobrenome estampado nas costas.
Faria a prova. Com todo o coração.
E se passasse… bom, se passasse, enfrentaria as consequências.
Mas dessa vez, não fugiria de si mesma.
—
Na última noite antes da prova, Nayla olhou para o vestido de noiva pendurado no closet. A renda, o brilho, o corte impecável. Era lindo. Perfeito. Mas ela não sentia nada.
Não sorria ao vê-lo.
Não sonhava com o altar.
Do outro lado do quarto, estava sua mochila preta, com um caderno de anotações rabiscado, um estojo com canetas coloridas e uma barra de chocolate que Sebastian deixara para ela com um bilhete: “Para quando precisar de força.”
Ela olhou para os dois lados do quarto, como se precisasse escolher.
E escolheu.
—
Na manhã da prova, Nayla saiu antes que a mãe acordasse. Vestia jeans, camiseta branca e tênis. O cabelo preso num coque simples. Carregava a mochila nos ombros e o coração na garganta.
Sebastian já a esperava do lado de fora, encostado no carro.
— Pronta? — ele perguntou, estendendo a mão.
Ela a segurou com firmeza.
— Nunca estive tão pronta.
Entraram no carro e seguiram rumo ao local da prova.
Nenhum dos dois disse muito.
O silêncio entre eles era cheio de significado.
Porque, naquele momento, Nayla não era apenas uma noiva.
Era uma garota correndo atrás da própria liberdade.
E estava disposta a lutar por ela, até o fim.