Sei que o ômega deve estar com dor e se sentindo péssimo, mas aos meus olhos, o ômega com cabelos loirinhos lisos, com a bochecha fofa e corada e belos e fartos lábios, está lindo. O seu cheiro me atinge de uma forma que sei que coro de imediato, mas preciso piscar algumas vezes e focar.
— Pois não? – A voz está fraca, mas é suave e musical.
Balanço a cabeça para tentar voltar à razão e tento abrir um sorriso.
— Oi, Jimin. Eu sou a Liv. – Começo, e o vejo me olhando confuso, então me apresso a continuar. — Eu sei que não nos conhecemos, bom pelo menos não assim nessa forma, mas eu sou amiga da Lisa e do JongIn, e fiquei sabendo que estava em sua época de calor, sozinho. Então eu decidir passar aqui e ver se você precisa de alguma coisa. Eu trouxe chá para dor, e uma e**a de supressão. Também posso fazer algo para você comer se quiser e fazer um pouco de companhia.
— Olha, eu não preciso de babá, nem da pena de ninguém, tá legal? Eu só... – Uma careta dele e outra onda de feromônios bate contra o meu rosto, e preciso dar um passo para trás para me segurar. Céus, aquilo é tão errado de se sentir, mas não posso evitar. Enquanto estou lutando contra os meus instintos errados, não percebo que deixei um pouco do meu cheiro mais forte e Jimin abre um pouco mais a porta. — Você... é a ômega do penhasco, né?
— Sim.
— Desculpe! Essa febre não me deixa pensar direito. Eu lembro do seu cheiro e é tão bom...
Ele não deveria falar no meu cheiro assim, e nem sentir isso, já que ômegas em épocas de calor geralmente não suportam cheiros de outros ômegas, as vezes ficando até mesmo agressivos, mas Jimin não parece ligar, dando um passo para o lado e abrindo um pouco mais a porta, só o suficiente para que eu entre. E céus! O cheiro dele está por toda a casa, me sinto até um pouco tonta, mas não é algo r**m.
Me viro para ele bem na hora que ele revira os olhos e tomba para frente. O seguro a tempo de amortecer a queda dele ao chão. Não sou tão fraca quanto as outras ômegas, mas ele por ser um lúpus também, pesa.
Deixo as coisas que trouxe no sofá mais próximo e o puxo para cima. A casa não é tão grande, só tem dois quartos e um banheiro, e sigo para o lugar que parece um jardim de jasmim. Jimin não tem ninho, então me sinto um pouco mais tranquila em entrar para colocá-lo na cama com cuidado.
Tomo a frente e já coloco água para esquentar, e pego um balde com água gelada e um pano, para cuidar da febre de Jimin. Por todo o momento que fico ao lado dele, preciso respirar devagar e pela boca. Tento não pensar demais no que aquilo quer dizer, o fato de eu não achar o seu cheiro desagradável e ele me deixar entrar sem me atacar, e continuo cuidando do ômega com todo carinho e atenção, que é o que qualquer um merece nesse período tão difícil.
Jimin acorda um tempo depois, piscando e olhando ao redor. Me vê, e eu dou um sorriso tranquilizador, tirando a toalha úmida de sua testa, sentindo a sua pele um pouco menos febril.
— Hey! Que tal comer um pouco da sopa e tomar os chás? – Ele só concorda sem tirar os olhos de mim. O ajudo a sentar, coloco uma bandeja, que encontrei, sobre as suas pernas e o vejo tomar tudo em silêncio, vendo que ele desvia o olhar para mim várias vezes durante a refeição. Quando termina, vai no banheiro, e volta com uma outra roupa mais fresca e um pouco melhor, não que aquilo vá durar muito. Mesmo com o supressor, ele ainda vai soar bastante com a febre.
Já deitado de novo, Jimin segura a minha mão, puxando um pouco para esfregar as nossas glândulas de cheiro do pulso. O meu corpo inteiro treme e me sinto cada vez mais confusa quando sinto um pouco de lubrificação começar a se formar.
— O seu cheiro é tão bom, Liv. – O efeito dos chás está começando, e Jimin fecha os olhos, mesmo que ainda me segure com força. — Tão bom que parece errado.
— Eu sei. – Digo devagar e faço carinho em sua cabeça, aproveitando para tirar um pouco de seu cabelo da frente do seu rosto. Jimin é tão lindo que parece um anjo de luz da Deusa Luna. — Você é tão lindo e tão cheiroso, Minnie.
Jimin em um rompante de energia, pega a minha mão que estava acarinhando seu rosto e beija o meu pulso. Aquilo é demais para mim, e ele mira os olhos cor de mel brilhantes em mim de uma forma tão sensual que me sinto arrepiar.
— Melhor eu ir. – Digo, mesmo que eu não tenha me movido um músculo para realizar aquela ação. Os meus olhos não conseguem desviar dos de Jimin, que pisca cada vez mais lentamente. — O chá vai te ajudar pelos próximos dois dias e se precisar de mais eu deixei na chaleira, é só você esquentar, tudo bem?
Me levanto quando o seu aperto diminui consideravelmente, e sinto algo me puxando de volta para perto dele, mas me mantenho firme, olhando para o ômega, respirando agora com tranquilidade. Me despeço e me viro, mas antes de passar pela porta do quarto, ainda o ouço murmurando em seu sono.
— Morangos e baunilha. Tão bom...
Não consigo me concentrar em nada nos dias que se seguem.
O meu lobo estava agitado e me arranhava de dentro para fora, algo que com as festividades se aproximando, eu não poderia me transformar, podendo ser pega por alguns alfas de ronda, ou até mesmo alguns lobos rondando a floresta em busca de algo. E mesmo que eu o deixasse sair, tinha medo para onde ele me guiaria. Tinha a ligeira e estranha impressão de que o meu lobo estava querendo voltar para perto do ômega que eu não conseguia tirar da cabeça e era algo que eu não deveria nem cogitar em fazer.
Para esquecer todas aquelas sensações confusas que estavam acontecendo comigo, me foquei em ajudar em tudo o que podia do ritual. Fiquei tão distraída, saindo de manhã cedo para trabalhar na escola e só voltando tarde da noite depois de ajudar todos os lugares que podia, que m*l percebi os dias se passando, rápidos demais.
O dia do ritual chegou e como não teria aula, eu aproveitei para dormir até mais tarde. Acordei já no almoço, e para minha surpresa, papai e mamãe estava em casa, juntos conversando, rindo e brincando, enquanto terminavam de colocar a mesa.
— Boa tarde, minha menina de ouro. – Papai não precisa olhar para mim para me sentir chegando perto. O abraço por trás, deixando que o seu cheirinho de chuva acalme todo o meu ser e sentindo o seu calor tão característico. — Tem trabalhado bastante querida, quase não temos te visto.
— Às vezes, acho até que ela esquece que tem casa, sabe? – Mamãe, mesmo reclamando, deixa um beijo em minha testa ao passar por nós. — Vamos almoçar, meus amores.
Papai é o braço direito do alfa líder, o que o deixa um tanto quanto ocupado na maioria dos dias, com isso, os nossos horários acabam por não se cruzarem, em geral, nós só nos vemos no café da manhã, isso quando eu paro para comer, já que a minha preguiça de levantar cedo por vezes me faz atrasar um pouco para ir para escola. Mamãe é dona de casa e cuida de tudo, só saindo para ir ao mercadinho ou para conversar/fofocar com a mãe de Jenny.
Já tinha esquecido por que eu fujo tanto desses momentos familiares, mas claro, que em alguma hora eles iriam me lembrar o motivo de eu passar mais tempo fora do que dentro de casa. Antes de mamãe cortar a bela torta de morango que ela fez, alguém bate à nossa porta e por mais que eu expresse confusão, os meus pais só se olham e sorriem sem jeito. Não preciso de mais nada para saber que não vou gostar de nada que acontecer a partir no momento que a porta se abrir.
E estava certa...
— Jin! Que bom que veio. – Mamãe cumprimenta o alfa muito alto e com um sorriso grande demais. — Está tão bonito, alfa.
— Obrigado, Lilá. – Jin curva a cabeça rapidamente, sorrindo sem graça, logo estendendo a mão para meu pai, que se levantou para cumprimentar a visita. — Senhor.
— Alfa.
— Obrigado pelo convite para a sobremesa. – Mamãe o diz para entrar e ficar a vontade, e eu ainda estou no meu lugar, sem acreditar que eles realmente fizeram aquilo pelas minhas costas. — Senhor Joseph sempre elogia as suas sobremesas, m*l podia esperar para provar.
— Imagina, Jin. – Mamãe cora e se vira, mesmo que eu saiba que aquilo é mais um charme, ela sabe que tem mãos de fada na cozinha, sempre conta que conquistou papai pela barriga. Ela olha para mim, que estou séria, e o seu sorriso diminui, mas ainda aponta para mim. — Querida, não vai cumprimentar o alfa?
A minha vontade de responder, não, é tão grande, mas ainda assim não o faço. Me forço a levantar e abrir um sorriso sem dentes, fazendo uma pequena reverência para o lindo homem que estava no meio da cozinha, parecendo deslocado e desconfortável.
— Como vai, Seokjin? – Sei que estou sendo muito formal, e é exatamente isso que quero passar, mesmo vendo os meus pais se entreolhando.
— Vou muito bem, obrigado. Soube que ajudou a organizar a clareira para o ritual. – Concordo, apontando para a cadeira, a minha frente, e quando todos já se sentaram e mamãe começou a cortar e servir a torta, ele agradece a ela e continua. — Deve estar muito bonito, já que teve mão sua. Sempre elogiam muito você, ômega.
Sinto o meu estômago revirar ao ouvir o chamado. Odeio que alfas me chamem pela classificação. Acho isso tão pessoal e íntimo que me incomoda como alguns usam essa nomenclatura com tanta leviandade. Quando eu era menor e ainda sonhava com um casamento perfeito, eu dizia para todos que só quem poderia me chamar de ômega seria meu alfa. Isso não mudou conforme eu cresci, só com a diferença que não gosto que ninguém, a não ser meus pais, me chamem assim e as vezes os meus melhores amigos, mas só.
Não respondo, só assentindo com a cabeça e começando a comer. O silêncio que se estende é estranho, mas mamãe trata de cortar, perguntando sobre a casa que Jin aparentemente estava ajudando a fazer. Ele parece realmente gostar daquele assunto, tanto que começa a falar e explicar várias coisas a respeito. Não me importo com a conversa paralela, que, na verdade sou só eu no meu canto, dispensando toda e qualquer tentativa de ser incluída na conversa.
Só o que me chama realmente atenção e me faz levantar a cabeça é o fato na menção a ida ao ritual. Eu já estava pronta e só precisava escovar o meu cabelo, algo que eu ia pedir para minha mãe. Ia encontrar com Jenny e com Hobi no portal de flores da saída norte, e iriamos para clareira juntos. Os meus pais tinham outros planos, o que eu já devia ter desconfiado com aquele convidado aparecendo do nada.
— É muito gentil que tenho vindo acompanhar a Liv, Jin. – Mamãe diz enquanto tira os pratos. O seu sorriso é tão grande e a sua voz tão sugestiva que preciso me conter em revirar os olhos.
— Ah, não foi nada! Eu também iria esse horário para aproveitar o pôr do sol e o lanche, então...
— Mas engraçado ter desviado tanto de sua rota original, né? – Pergunto, bebendo água e ouvindo mamãe chamar a minha atenção discretamente da cozinha, e quando ele cora e abaixa a cabeça, eu só me viro para mamãe sorrindo falsamente. — Mãe, pode me ajudar com o cabelo?
Mesmo tentando dar desculpas para não ir, Jin tomou a frente se oferecendo para lavar a louça, e eu sai puxando a mão de minha mãe para meu quarto, sem dar tempo de ela reclamar.
Fechando a porta com um pouco mais de força, eu me viro para ela.
— Sério? Vão mesmo me jogar para cima dele desse jeito? Arrumando encontros sem a minha consulta é o cúmulo, mamãe!
— Liv! Não fale assim comigo.
— E a senhora não faça isso pelas minhas costas.
Nossos temperamentos são bem parecidos, por mais que eu seja conhecida como calma pela maioria, eu odeio que mintam ou escondam coisas de mim e isso vindo de meus próprios pais, é demais. Mamãe revira os olhos e me puxa, me colocando sentada na minha cadeira de frente para pequena penteadeira que tenho no quarto. Começando a pentear os meus cabelos cacheados em silêncio.
Fico olhando para ela fazendo um penteado trançado com algumas presilhas que ganhei de papai no meu aniversário, e quando termina que ela finalmente solta um suspiro.
— Eu só estou tentando cuidar de você, querida. – Sua voz suave e o carinho que começa em meus ombros, me faz amolecer. — Você tem rejeitado todos os alfas que se aproximam, e a sua primeira participação no festival se aproxima junto com seu cio e com o começo do inverno. Eu não quero que sofra por não ter um alfa para você, para te cuidar e aquecer. – Engulo em seco junto com a coragem de falar que não queria participar do festival, mamãe só quer o meu bem e eu entendo isso, mas... — Jin é um bom alfa. Ele é gentil, forte, habilidoso, tem um cheiro agradável e vamos ser sinceras, que ele é bonito demais. – Sorrio com mamãe e quando me levanto, aceito o abraço com cheirinho de casa, pão fresco e vetiver. — Só… tente. Não só por mim e por seu pai, mas por você.