Capítulo 3

1564 Palavras
A agitação e alegria na aldeia é de fato contagiante. Eu geralmente adoro essa época, adoro as comidas, que parecem ficar mais cheirosas no nosso centro de mercado, os enfeites que já começa a ser postos, com as folhas caídas do outono, e amo todas as cores. Eu adoraria estar planejando uma apresentação com os ômegas das artes, se todos não esperassem que eu fosse participar do festival, já que todo ano me chamam para dançar ou cantar, mas dessa vez só me desejaram boa sorte. Na escola, todos estão muito animados também. Os filhotes quase não param quietos, tudo bem que aquilo mais tem a ver com a lua. Aprendemos que logo antes de nos apresentarmos, a lua já altera os nossos comportamentos, e os nossos lobos começam a despertar, o que deixa os filhotes mais agitados. Eu, Jenny e Hobi tentamos até adivinhar quem dos filhotes vai ser o que, já que geralmente, os ômegas são mais comportados, os betas mais faladores e os alfas só faltam tacar fogo na sala. São fofas as diferenças. Assim que as aulas terminaram, uma ômega grávida veio perguntar se eu não poderia ajudar o seu marido com os pedidos da loja de ervas, o que eu aceitei de pronto, para aproveitar e deixar a minha mente distraída. Eu até gosto de atender pessoas, mesmo que ultimamente eu tenha sido reconhecida com mais frequência aonde quer que eu vá e isso acabe me associando ao apelido dado carinhosamente pelo ômega líder: a ômega perfeita. O peso desse apelido tem sido h******l, só que piora quando encontro com lupinos mais velhos. Mesmo que tenhamos avançado um pouco, os seus pensamentos são fechados e certeiros. Estou terminando de atender um casal, entregando vitaminas para o ômega, que está tentando engravidar, e escuto um pouco da conversa de alguns anciãos ômegas. — ... soube que está a entrar em cio. Aquele ômega teimoso! – Uma delas fala e as outras concordam. — Se tivesse aceitado os alfas nos últimos festivais com certeza não estaria a sofrer. — Mas tem mais é que sofrer mesmo! – Outro concorda e diminui um pouco a voz, como se aquilo adiantasse, com lobos jovens com super audição. — Não querendo ser mau, mas vamos ser sinceros. Aquele ali estava fadado a terminar sozinho. — Fala isso por causa do histórico familiar? – Alguns assentem, mas ela só dá de ombros, e continua. — A mãe morreu porque o alfa pai encontrou a sua metade em outra alcateia, e deixou os dois aqui. — Mesmo assim, julgo que foi falta de caráter. – O mais velho dali parece querer finalizar o assunto. — Talvez tenha passado de pai para filho, mesmo sendo ômega. Céus, manchando a nossa classificação por não querer alfas! Que o cio seja mesmo doloroso e solitário. Termino de atender o casal, mas meu sorriso é pequeno e a minha postura tensa. Como podem falar e desejar aquilo para alguém desse jeito, só por não querer um alfa? E que culpa a ômega teve, se o alfa foi um verdadeiro b****a e abandonou a família, fadando o ômega marcado a morte, pela traição e distância? JongIn parece perceber o meu olhar, que não deve estar dos melhores para o grupo de ômegas, e vem para meu lado quando se aproximam de mim, com sorriso cheios de dentes e uma simpatia que agora me parece falsa. Será que falariam isso de mim também se eu dissesse que não quero alfa para mim? Me desejariam a morte congelada em um inverno rigoroso? — Se não é a nossa ômega perfeita? – A ômega mais velha me cumprimenta e eu preciso me forçar a sair daquele transe raivoso que estou sentindo borbulhar dentro de mim, para abrir um sorriso no mínimo aceitável. — Liv, querida, o que faz aqui nessa parte da aldeia? — Ela está gentilmente no lugar de Lisa, que acordou com dor nas costas. – O alfa também ouviu e é claro que deve sentir o meu desconforto de longe, e decide se colocar ao meu lado. — Liv está me salvando hoje, meu outro ajudante, como sabem, entrou no cio essa manhã. — Ah, sim. Deve estar a sofrer sozinho, a criatura. – A falsidade e falta de empatia me faz fechar as minhas mãos em punho. O sorriso não está mais no meu rosto e nem faço questão de abrir. — Mas que bom que temos uma ômega de ouro entre nós, não é mesmo querida? A resposta que me vem à cabeça, preciso engolir. Ainda fui muito bem-educada e mesmo querendo falar muitas coisas para aqueles velhos, preciso guardar aquilo para mim e queimar junto com todos os xingamentos que quero proferir. Ao invés disso, passo pelo balcão e mais uma vez forço o sorriso. — Mas, em que podemos ajudá-las? Espero que estejam bem de saúde, ainda estão jovens demais para terem problemas. A risada de todos preenche a loja e mais uma chuva de elogios é derramado sobre mim, que tenho que segurar ao máximo a expressão gentil. Às vezes, só as vezes, gostaria de mandar todos para... — Que bom que pudemos ajudar! Voltem sempre! – JongIn se despede dos anciões na porta e quando eles finalmente vão embora, ele se vira para mim, sem o sorriso falso e com uma expressão sombria, que se eu não o conhecesse, ficaria até com medo, pelos feromônios com cheirinho de carvalho estarem azedos. — Velhos malditos. Falarem assim do Jimin é tão c***l e desejarem o m*l para alguém doce como ele é de dar nojo! — Como podem ser assim? – Solto o ar com força e percebo algo. — Conhece o ômega de quem eles estavam falando? — Sim, somos vizinhos e ele trabalha aqui. – JongIn aproveita que a loja esvaziou, para se sentar e eu me apoio no balcão para ouvi-lo. — Pobre ômega. Sofreu tanto e ainda tão jovem. — Fala sobre a separação dos pais? — Não só disso! A minha mãe se solidarizou com ele e com a mãe, quando foram abandonados. Se aquele alfa maldito estivesse pelo menos esperado a marca cicatrizar antes de marcar o tal ômega prometido, a mãe de Jimin ainda estaria viva. – O soco que o alfa deu no balcão me fez pular no lugar, e consigo perceber como aquela situação é incômoda para ele. — Aquilo nem poderia ser chamado de alfa. É um maldito que abandonou o filho com uma mãe doente, sem nem olhar para trás. Jimin teve que crescer sem mãe desde os doze. – JongIn balança a cabeça, e respira fundo, deixando seu cheiro um pouco mais suave. — Ele sofreu muito por crescer sozinho. Nos dois festivais que o alfa líder o disse para participar, ele recusou todos os alfas. Mas sinceramente, Liv? Depois de passar por tudo aquilo, você aceitaria algum? Neguei devagar, e omiti que estava tentada a não aceitar nenhum sem ao menos ter sofrido tudo aquilo. O resto do dia, foi mais tranquilo, mesmo que eu não tenha conseguido tirar aquilo na minha cabeça. Sei que eu estou pensando em passar o meu primeiro cio, sozinha, mas estou totalmente ciente da dor e do desconforto que irei sentir e na minha cabeça, eu já meio que aceitei isso. Mas, o meu lado ômega que é mais empático do que eu gostaria, não deseja aquilo para ninguém e saber da situação daquele ômega, que já passou por tanto e por ser conhecido naquela parte da aldeia por ser um ômega problema, não consigo esquecer e deixar para lá. Antes que JongIn possa fechar a loja, eu peço pelo supressor e o chá para dores de cio ômega. O sorriso e o olhar de admiração e compreensão me deixa incomodada, por saber o que ele provavelmente está pensando de mim e quando ele nem ao menos me cobra por tudo, sei que entendeu os meus próximos passos. Acompanho JongIn até a sua área, onde fica a sua casa, já que raramente eu venho na parte oeste da vila, e ele me indica a casa pequena e fofa, pintada de azul-claro, com um pequeno jardim na lateral. — Jimin mora ali. Minha ômega provavelmente já levou comida a ele, mas como ela está bem enjoada com outros cheiros e eu fico irritado sentido cheiros de outros ômegas no cio perto do nosso ninho, então ela já deve ter saído faz tempo. – O alfa fala e fazendo um carinho meio bruto em minha cabeça e me despenteando toda, ele sorri. — Cuide dele por nós, sim? Sim, sim, ômega perfeita vai entrar em ação. Ajeito o cabelo, e diminuo um pouco mais o meu cheiro, para não irritar o lobo do outro ômega. A casinha é realmente muito fofa e bem cuidada. O jardim tem alguns legumes e mais atrás vejo um arbusto, que acredito ser de alguma fruta, mas não me atento tanto aos detalhes, só bato algumas vezes na porta e espero. As portas e casas em geral são enceradas com ** de corta lobo, para não deixar os cheiros escaparem, e só por isso, fico muito surpresa quando o ômega que abre a porta, exale o cheiro que não saiu da minha mente desde que senti pela primeira vez. Jimin era o lobo branco que encontrei semanas atrás. E ele cheirava maravilhosamente a jasmim.
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