Beatriz Acordei antes do sol e cumpri meu ritual de sobrevivência: dez minutos na Janela. Escrevi o que cabe em mim quando o vidro falta: o pregão do picolé na curva, o cachorro que late para a motocicleta, o varal do seu Aderbal com três camisas azuis e um vestido indeciso, o manjericão teimoso na lata amassada. No fim, a linha que me ancora: “Eu fico, mesmo sem vidro.” O cronômetro apitou, fechei o caderno, abri a rua. Na ONG, o quadro branco já me esperava. Cadu segurava a caneta como quem segura um cabo de luz. — Vamos esticar a rede sem arrebentar — disse, calmo. — Check-ins diários: 9h, 15h, 21h. Se você não responder em cinco minutos, disparamos “água” para vizinhas, capela e mercearia. Desenhou setas: capela → mercearia → clínica → casa. Marcou com X os pontos quentes. — Adian

