*Sophia Hale POV*
Fui atirada ao chão novamente. Odeio cair. Odeio quando o mestre me põe a treinar com homens mais altos e pesados do que eu. Como é suposto derrubar um muro daqueles? Caí dez vezes antes de conseguir apanhá-lo desprevenido e fazê-lo cair uma única vez.
Mas, quando finalmente consigo, sinto isso como uma vitória, porque, para eles, é uma derrota. Mesmo que me tenham feito cair dez vezes, se os faço cair uma única vez, é todo um ego masculino ferido. Idiotas.
E porque é que nunca fico com uma mulher? Parece que este desporto da moda está a atrair cada vez mais patricinhas, e o mestre não quer que eu as afaste. Então, tenho de levar com estes homens que suam como torneiras abertas. Pelo menos são respeitosos o suficiente quando treinamos corpo a corpo.
Devia ter ficado pelo kickboxing. Porque raio me convenci a experimentar muay thai? Deixei-me persuadir de que era um desporto mais completo e que me ajudaria a defender-me “como mulher”. Como se tivesse hipótese com um homem mais pesado que eu e que também treina. Não tenho medo de os enfrentar, mas sou realista.
Talvez devesse aprender a disparar. Sorri sozinha. Não consegui evitar que a minha mente voltasse ao grandalhão. Quase que o meu parceiro de treino me derrubava outra vez, mas consegui recuar a tempo. Tenho bons reflexos, tão bons que aproveitei a a******a que me deu ao baixar a guarda e acertei-lhe um direto no rosto.
Provavelmente a minha força deve ter parecido apenas uma lapada, mas mesmo assim levei com o olhar irritado dele. Ego masculino ferido outra vez. Sorri-lhe quase inocentemente. Não resultou. Talvez porque não era a primeira vez que rodávamos juntos num treino. Encolhi os ombros e voltei a concentrar-me.
Ele investiu contra mim; bloqueei, desviei o melhor que pude dos golpes que os braços dele lançavam e apliquei low kicks que entravam todos, de tão tenso e concentrado que ele estava em acertar-me um murro na cara. Fui salva pelo fim do treino e vi-o a queixar-se discretamente da perna antes de eu ir para o balneário tomar banho.
Saí do ginásio cansada, mas menos aborrecida. Tinha sido divertido. Não tanto como se tivesse apanhado uma patricinha, mas não foi mau.
Cheguei à casa e Lily ainda não tinha chegado. Fui deixar as minhas coisas no quarto e vi, em cima da cómoda, o telemóvel descartável. Já se tinha passado uma semana desde que o liguei pela primeira vez e já servira o seu propósito. Então, porque é que ainda não o deitei fora?
Antes que a curiosidade me fizesse pegá-lo e ligá-lo outra vez, fui para a sala. Olhei para as horas e achei estranho a Lily ainda não estar em casa. Ia pegar no meu telemóvel para lhe ligar quando ouvi barulho na porta.
"Olá", disse-me com um sorriso enorme, de orelha a orelha, assim que entrou.
"Estamos muito felizes hoje", respondi-lhe.
"Oh, tenho tanto para te contar." Pousou as coisas e correu para se sentar comigo no sofá. "Mas antes deixa-me encomendar comida, não me apetece cozinhar."
Levantei uma sobrancelha. Lily adorava cozinhar. Dizia que a relaxava. Mas não disse nada e vi-a encomendar a comida.
"Então, o que aconteceu?", perguntei-lhe depois que terminou o pedido do nosso jantar.
"Frank foi despedido", atirou. Eu não consegui deixar de sorrir. Eu disse que o telemóvel descartável já tinha servido o seu propósito.
"Foi uma confusão. Fotos dele com outras mulheres em situações comprometedoras espalharam-se por vários canais da escola, até chegaram à mulher dele. Ela fez uma cena enorme na escola hoje. E depois ainda surgiram mulheres a acusá-lo de assédio... e..."
Ela parou de falar de repente e olhou para mim. Eu sorria, nitidamente satisfeita.
"Fogo", resmungou. "Foste tu! Tiveste alguma coisa a ver com isto, não tiveste?"
"Talvez", sorri. Não tinha sido fácil conseguir acesso aos canais internos da escola. Tive de subornar um aluno. E a mulher dele, apesar de hoje ter feito um escândalo, já sabia da traição. Eu própria lhe enviara as imagens. Pelos vistos, só se sentiu verdadeiramente afetada quando tudo se tornou público.
"Sophia, não devias..." Ela olhou para mim, tensa, preocupada. "Também mandaste bater nele?"
"Bater nele?"
"Sim. Antes de a notícia do que ele andava a fazer surgir, ele apareceu na escola cheio de marcas, como se alguém lhe tivesse batido... tipo... muito."
"Fico feliz por terem batido nele."
"Sophia!"
"Que é? Admite, também ficaste feliz! Mas não fui eu!"
"Juras?!"
Revirei os olhos, mas não lhe respondi. Pagar para lhe bater era uma ideia. Já me tinha passado pela cabeça. Mas isso não queria dizer que ele fosse parar. Humilhá-lo publicamente, arruinar-lhe a imagem e tirar-lhe tudo era muito mais satisfatório do que vê-lo com hematomas que podiam curar-se em semanas.
A mulher já sabia que era traída, mas depois de vir a público tudo o que ele andava a fazer — as várias mulheres, o assédio, o despedimento — duvido que ainda fique com ele. Vai perder o emprego e provavelmente nunca mais trabalhará na área. Espero que as vítimas o levem à justiça. Eu, por mim, já cumpri a minha parte.
"Estava lá um polícia. Fez umas perguntas estranhas."
"Estranhas como?"
"Andam à procura de uma mulher com quem ele se encontrou num hotel na semana passada." Não consegui impedir todos os meus sentidos de ficarem em alerta.
"Porquê?", questionei, tentando soar natural.
"Acham que pode ser uma vítima, mas não a conseguiram identificar."
"O que é que isso tem de estranho?"
"Ah! Eu estava a tentar contar como também tinha sido vítima do Frank, mas ele parecia só interessado em saber se era eu naquele hotel. Depois recebeu um telefonema e juro que ouvi ‘Não é ela, ela tem olhos castanhos.’ Depois despediu-se de mim sem me deixar contar o resto e entrou num carro preto, em vez do da polícia parado a alguns metros à frente."
"Tens a certeza que era um polícia?", questionei. Lily tinha olhos azuis e claramente não era ela no hotel. Mas eu tenho olhos castanhos e estive num hotel na semana passada, numa suite alugada com o nome de Frank. Seria o grandalhão atrás de mim?
"Não estava fardado, mas vi-o a falar com os polícias. Identificou-se como um." Não deixei de pressionar os lábios, pensativa. Podia realmente ser um polícia à civil.
"Ele disse o nome do hotel?" perguntei num tom casual, mas levei logo com um levantar de sobrancelha dela.
"Sim. Hotel Trent." Oh, então estavam mesmo à minha procura.
Agora, seria mesmo a polícia... ou o grandalhão? Seria ele da polícia? Pelo aspeto dos homens que o procuravam, nunca diria. Só se fosse algum infiltrado recentemente descoberto. E o outro homem, o tal Lucas, chamou-lhe “chefe”.
Senti novamente vontade de ligar o telemóvel, ver se tinha mais alguma mensagem dele depois do meu “ok”. Já o tinha ligado mais vezes desde aquele dia — para enviar as fotos à mulher de Frank e ontem, para as divulgar publicamente.
Não tive resposta dele. Pensei que ele fosse irritar-se o suficiente para me insultar por mensagem ou tentar ligar-me. Mas nada. Admito, parte de mim ficou desiludida.
Mas já passou uma semana. Achei que tivesse desistido. Pensei que era sinal de que ele se tinha acalmado e percebido que acabou preso na cama, o que nem sequer foi culpa minha, e ainda o salvei daqueles homens. Certo?
Não importa. Não me vai encontrar. O facto de terem chegado até ao Frank não os liga a mim. Mesmo que o interroguem, que lhe batessem, ele não sabe nada sobre mim.
Será que lhe bateram por causa disso? Não. Claro que não. Seria estupidez pensar isso... certo?
Mas preciso mesmo de um novo passatempo. Aprender a disparar parece-me cada vez mais uma boa ideia. Desde que vi aquela arma no peito do grandalhão, a ideia não me sai da cabeça.
E sexo... Bolas, fico quente só de pensar nele. É estranho, até já tive sonhos quentes... bem, mais para o molhado. Já não o faço há algum tempo. Sim, isso também seria uma boa distração.
"Sophia Hale!" O tom sério de Lily trouxe-me de volta à realidade. "Diz-me que não tens nada a ver com a mulher que eles estão à procura."
Soltei uma gargalhada.
"Não sou loira, Lily", atirei, fugindo de lhe responder diretamente. "E claramente não seria uma vítima."
Ela ainda me olhou meio desconfiada, mas aceitou a minha resposta. Ou quase. Ia dizer mais alguma coisa, mas a campainha tocou. O nosso jantar tinha chegado.
Pelo menos pensei que fosse o nosso jantar.