Melissa
Olho para o meu calendário.
— Tenho uma reunião em dez minutos. Pode esperar?
— Suas reuniões foram canceladas e seu chefe sabe que você tem um compromisso importante para comparecer. Há um carro esperando por você lá fora.
Fecho os olhos, mãos tremendo. Este escritório de advocacia está profundamente envolvida até o talo com a família Rosselini, tão profundamente que é praticamente uma fachada da máfia, o que significa que se o Don quiser ver sua irmãzinha, não importa quantas reuniões eu tenha. Ele vai me ver.
— Sim, claro, vou descer agora.
Renzo desliga.
Ele tem que saber. Lúcio tem câmeras por toda a boate e alguém deve ter me visto entrando no banheiro com Vincenzo. Ou talvez o pessoal dele tenha ouvido os rumores e descoberto dessa forma. Não importa como, mas Renzo sabe que eu fiz algo naquele banheiro com um homem estranho, e agora eu tenho que ir falar com ele sobre isso.
Este é o momento mais humilhante de toda a minha vida.
Não sei o que vou dizer. Devo me desculpar? Defender minhas ações? Não consigo nem decidir se o que fiz vale a pena defender — Renzo deve estar puto comigo por eu me colocar em uma situação perigosa.
Agora eu tenho uma conversa horrível sobre minhas ações muito impulsivas, e isso tudo é graças a não ter transado. Eu culpo o t***o crescente dentro de mim, e prometo me masturbar pelo menos quatro vezes por semana a partir de agora, só para ter certeza de que isso nunca mais aconteça.
Pego minha bolsa e vou em direção aos elevadores, sentindo como se estivesse marchando para minha própria execução pública.
*****
Minha mente está muito uma confusão de sentimentos. Tudo o que eu conseguia pensar no caminho era no olhar que Renzo iria me dar, misturado com desgosto e decepção. Eu oscilo entre sentir profundamente pena das minhas ações e ficar p**a por ter que me defender. Meus irmãos eram um bando de prostitutos antes de se casarem — mas, de alguma forma, eu deveria continuar pura? É um machismo ridículo.
Chego ao escritório de Renzo e estou tentado a fugir, mas me forço a bater.
— Entre, Mel. — Renzo me chama do interior e me imagino entrando na selva como em Bem vindo á selva, meio que esperando encontrar Renzo esperando em algum templo em ruínas, um líder de culto meio louco. Não está muito longe, embora ele esteja em um terno chique e sentado atrás de uma mesa cara.
A Famiglia é como um culto e ele é definitivamente o chefe de tudo.
— E aí, irmãozão? — Tento colocar um sorriso confiante no rosto, mesmo que eu não sinta nada, e sento na cadeira em frente a ele. Meu irmão é um cara grande com cabelos escuros ficando grisalhos nas têmporas e uma expressão séria. Seus ombros estão ligeiramente curvados, provavelmente por todo o estresse que ele está sofrendo, um cara com mil exigências sobre seu tempo e muito peso sobre seus ombros.
— Você não tem aparecido muito ultimamente.
Ele se inclina para trás e me dá aquele olhar decepcionado, mas não surpreso, dele, e ainda funciona, mesmo depois de todos esses anos.
Eu amoleço um pouco, me sentindo culpada. Eu não esperava essa conversa. Porque ele está certo, eu tenho tentado me separar aos poucos nos últimos anos, indo para a casa cada vez menos, me envolvendo o mínimo possível na vida familiar. Eu tenho meu próprio apartamento e minha própria vida, e enquanto eu trabalho em um escritório de advocacia controlado pela Famiglia, eu tento ser o mais independente que eu posso.
Exceto que crescemos como uma família unida, e é estranho, não estar mais aqui. Sinto falta dos meus irmãos, das esposas deles e de todas as crianças.
Só que eu sei que se eu continuar visitando, nunca encontrarei a distância que preciso desesperadamente.
— Você percebeu, hein? — Dou a ele um sorriso envergonhado.
Não faz sentido negar.
— Todo mundo percebeu, e ninguém diz nada porque é a sua vida, mas você ainda é um m****o desta família.
Mais culpa, mas dessa vez sinos de alarme tocam em meu crânio junto com grandes luzes vermelhas brilhantes berrando por todo o lugar.
— Eu sei que sou um m****o desta família, obrigado pelo lembrete.
Renzo endireita as costas e me lança um olhar duro. Não é meu irmão falando naquele momento. — é o Don Rosselini.
— Nossa família não é normal, você sabe disso. Todos nós fizemos sacrifícios — Eu levanto minhas mãos, interrompendo-o.
Meu coração está na garganta agora.
— Desculpe, espere. Você está falando sobre sacrifícios.
Eu realmente não gosto de sacrifícios. Porque eu os tenho feito a minha vida inteira, mesmo que sejam invisíveis. Minha existência foi prescrita desde o dia em que nasci, com ruas estreitas e muros altos me mantendo no lugar.
O rosto dele escurece.
— Eu não tenho te pedido nada. Eu te dei todo o espaço do mundo para fazer o que você quiser, mas agora é hora de retribuir à família.
Eu me inclino na cadeira, atordoada demais para falar. Estamos muito fora do caminho agora e não tenho ideia de onde isso vai dar. Pagar a família de volta?
Como se tratar-me como irmã fosse uma dívida que eu tivesse que pagar?
Renzo sempre foi fácil de lidar, ele sempre deixou tudo mais fácil pra mim, até mais do eu merecesse, e ele está certo de que todos os outros se sacrificaram pela Famiglia. Alguns mais do que outros: Lúcio praticamente se matou para vencer a guerra que eles acabaram de terminar contra os russos e os irlandeses, e o melhor amigo de Renzo, Dante, literalmente se matou.
— Eu sei que isso vai ser difícil e entendo que tentamos manter você fora da política familiar, mas isso é extremamente importante para todos, e preciso que você se levante e faça a coisa certa. Não vou pedir para você não me odiar, mas vou pedir para você fazer o que tem que ser feito.
Eu me levanto. Não consigo mais sentar. Meu corpo está vibrando com energia aterrorizada e nervosa, e sinto que vou vomitar aqui mesmo no tapete caríssimo do Renzo.
— O que você está dizendo? — consigo perguntar, minhas mãos tremendo, meus lábios sentindo-se dormentes.
Não se trata da Boate. Trata-se de algo muito, muito pior.
Ele abre uma gaveta, pega uma pasta e abre na primeira página.
É a foto de um homem.
Ele tem cabelos e olhos escuros, e eu me lembro da sensação da barba por fazer dele contra minha bochecha. Ele é extremamente bonito e usa um terno caro e justo. Eu consigo ver o fantasma de uma cicatriz de queimadura em sua mão esquerda. Na foto, ele está do lado de fora de um prédio, falando ao telefone.
Minhas palmas ficam suadas e eu forço meu maxilar a fechar porque senão eu poderia gritar.
O cara é alto. Eu sei que ele é alto, porque eu fiquei ao lado dele. Ele cheira a canela e a uísque e tem gosto de menta misturada com uísque. Eu sei, porque eu o cheirei, e eu o beijei.
— Este é Vincenzo Bianco. Ele é um m****o importante do maior sindicato do crime no Centro-Oeste. E você vai se casar com ele.
Eu me afasto da mesa. Quero gritar, porque isso é pior do que ter uma conversa sobre o que eu fiz naquele banheiro. Mil emoções me atacam de uma vez: medo, raiva, ódio, e eu não sei o que fazer com todas elas.
Viro as costas para meu irmão. Ele ainda está falando, mas não consigo ouvi-lo por causa do barulho estrondoso do sangue correndo pelos meus ouvidos. Caminho com as pernas dormentes e rígidas até a porta e a abro, e meu irmão está me chamando para voltar. Ele está parado atrás da mesa e provavelmente quer me matar agora mesmo, mas saio de lá e continuo andando, porque não tem como eu me casar com aquele homem, de jeito nenhum.