- Henry, a gente tem mesmo que ir a Highgate? — Murmurei no cantinho do sofá, eu estava abraçada com Kal. —
- Sim. São só dezoito minutos, Anna. — Ele colocou uma tigela de ração para Kal, que levantou do meu colo. —
- Quase vinte, eu estou tão cansada. — Falei enquanto me encolhia ainda mais no sofá. —
- Vamos, não vai demorar muito. — Ele pegou a chave do carro, fazendo eu e Kal o seguirmos. —
Do outro lado da rua era possível ver algumas garotas apontando para mim e Henry, tia Johanna me dizia que se encontrasse alguém assim, fingisse que nunca havia visto e continuasse o que estava fazendo. Abri a porta do carro e entrei, uma delas levantou o celular e provavelmente tirou uma foto. E naquele exato momento eu queria morrer só por saber que tiraram uma foto minha que provavelmente vai parar na internet em alguns instantes.
- O que foi? — Henry falou enquanto colocava o cinto e girava a chave do carro. —
- As garotas ali do outro lado tiraram uma foto, eu acho. — Apontei para as meninas que ainda estavam paradas olhando para o carro. —
- Elas sempre estão por aqui, inclusive já deram presentes para o Kal e tudo. — Ele olhou para as garotas e abaixou o vidro, acenando. —
- Você não acha inconveniente? — Ataquei o cinto. — Digo, elas estarem aqui todos os dias.
- São fãs, e provavelmente estão de férias da escola. Isso é totalmente normal. Eu não me importo até elas invadirem minha casa. — Ele riu. — E isso não vai acontecer.
- Você acha? — Dei de ombros. — Argh, odeio túneis. — Fechei os olhos enquanto passávamos em um túnel. — Eu tenho medo de escuro.
- Sério? — Ele riu. — Anna, você tem vinte anos.
- E daí? — Revirei os olhos. — Vai demorar muito?
- Um pouquinho. Não seja impaciente.
Pegamos uma estrada cercada por árvores grandes. Já eram quase duas da tarde e eu estava morrendo de fome. Tudo o que eu queria era chegar logo em Highgate.
- CUIDADO! — Gritei. Henry freou bruscamente. Se não estivéssemos de cinto, provavelmente teríamos tido um acidente f**o. — Você está bem?
Olhei pra Henry e notei que seu queixo estava sangrando.
- m***a! — Ele tocou o queixo e olhou para a mão, que agora estava ensanguentada. —
- Calma. — Desataquei o cinto e peguei uma flanela que estava no porta luvas do carro. — Coloca ela no seu queixo para estancar o sangue. Troca de lugar comigo, nós vamos para o hospital.
- Isso não é necessário. — Henry olhou para mim. —
- Você está sangrando, provavelmente vai pegar alguns pontos. Vem.
Desci do banco de passageiros e abri a porta do motorista, Henry bufou dizendo que ainda conseguia dirigir. Mas cada vez que ele tirava a flanela do queixo, uma cachoeira de sangue saía do mesmo. Eu estava desesperada, quanto mais tempo passávamos na estrada, mais o pano ficava encharcado de sangue. Kal não parava de cheirar Henry. Parei em frente ao primeiro hospital que vi. Descemos eu, Henry e Kal.
- O que aconteceu? — Uma enfermeira veio até nós. —
- Um acidente de carro, enfim... o queixo dele está sangrando muito. — Henry olhava para mim e a enfermeira. —
- Tudo bem, vamos.
Ela guiou Henry pelo enorme corredor, eu e Kal ficamos na sala de espera. Eu não tinha ninguém para ligar, tia Johanna estava em Miami, John é só o diretor do filme, não faço a mínima ideia de quem ligar para avisar o que aconteceu com Henry. Depois de alguns minutos, tive certeza que não precisava ligar para ninguém, eles viriam até mim. Do lado de dentro do hospital, pude ver de uma janela que haviam vários paparazzi lá fora. Um táxi parou e uma mulher loira de aparentemente cinquenta anos saiu do mesmo. Os fotógrafos viraram para a mesma, tirando fotos dela. Ela entrou no hospital e veio em minha direção.
- Anna, onde está o Henry? — Ela tirou o casaco. —
- Errr... como você sabe quem eu sou? — Arqueei uma sobrancelha. —
- Não seja boba, todos já sabem quem você é. Eu sou tia do Henry e agente dele. Soube pela TV que ele está aqui, o que aconteceu? Ele disse que iam pra Highgate.
Naquele momento eu me senti muito excluída da vida de Henry. Eu não sabia nem sequer quem era a agente dele. E muito menos que era a TIA dele.
- Sim, mas houve um imprevisto. Henry pisou no freio muito perto. O airbag não funcionou, ele bateu com o queixo na direção do carro e cortou. — Ela me analisou com cautela. —
- E você está bem? — Ela tocou meu ombro. —
- Sim, mas o Henry está lá a muito tempo, eu queria vê-lo, mas não posso por causa do Kal. Você pode ir lá? — Olhei pra Kal que estava sentado em uma das cadeiras do hospital. —
- Não querida, você pode ir. Eu fico com o Kal por enquanto, não se preocupe. — Ela assentiu positivamente com a cabeça. —
Fui até a recepção e perguntei em que quarto Henry estava. Fui em direção ao mesmo e o encontrei com um curativo no queixo.
- Ei... como você está? — Sentei ao seu lado na cama. —
- Bem. — Ele sorriu pegando minha mão. —
- Eu não sabia para quem ligar, na verdade nem precisei, sua tia apareceu aqui. E tem um monte de paparazzi lá fora. — Olhei para o mesmo, que deu um ar de riso. —
- A enfermeira. Provavelmente foi ela, depois que deu os pontos ela pediu uma foto, acredita? — Ele riu. —
- Que inconveniente. — Sorri. — Quantos pontos?
- Vinte. — Arregalei os olhos. —
- Como assim vinte pontos? Não é muita coisa? — Olhei para o curativo de Henry, era de tamanho médio e não pegava a parte de cima do queixo. — . Pelo menos você não vai precisar ficar sem gravar. Ainda dá para esconder.
- Tomara. Você está bem? Se machucou de alguma forma? — Ele me analisou, parou na minha blusa, que estava com uma manchinha de sangue. — Parece que eu deixei uma marca em você.
Olhei para a camisa.
- É — Sorri. — Você deixou. Quer ver a sua tia? Ela está lá fora com o Kal, me deixou entrar primeiro.
- Claro. Ela vai me dar um sermão daqueles, mas eu aguento.
- Claro que aguenta. — Dei um beijo na testa do mesmo e saí do quarto. Caminhei até a sala de espera e vi Kal junto com a tia de Henry. — Ele quer ver você. — Falei. —
Ela seguiu em direção ao quarto e fiquei com Kal. Depois de alguns minutos ela saiu. Estava séria.
- O que aconteceu? — Perguntei enquanto segurava a coleira de Kal. —
- Ele vai ficar em observação. Acho isso completamente desnecessário, ele está bem, foram só alguns pontos.
- Quem disse isso? — Questionei. —
- A enfermeira que está com ele. Disse que ele pode ter febre durante a noite. — Ela revirou os olhos. —
- Eu sei porque ela quer que ele fique aqui. — Fui com Kal até o quarto de Henry, abri e lá estava a enfermeira. —
- Anna? — Henry olhou para mim. —
- Porquê o Henry não pode ir para casa hoje? Foram só alguns pontos, não foram? — Coloquei as mãos na cintura. —
- Ele precisa repousar um pouco. — A enfermeira me encarou. Depois olhou pra Kal. — Esse cachorro não pode entrar aqui. — Revirei os olhos. —
- Henry precisa ficar de repouso ou você quer que ele fique aqui?
- Porque deixaria um paciente saudável ocupando a vaga de alguém que precisa? Henry está em observação hoje. Amanhã pela manhã ele ganha alta. — Ela me olhava cinicamente. —
- Então vou ficar como acompanhe dele hoje. — Dei de ombros. —
- Não é necessário, ele é maior de idade e não precisa de acompanhante nenhum. — Ela sorriu sem mostrar os dentes. Em outra ocasião eu teria dado um berro. —
- Então ele pode ir para casa. — Arqueei uma sobrancelha. Eu estava quase conseguindo fazer a enfermeira perder a postura e surtar comigo. —
- Não, ele não pode. A senhora não pode insistir nisso. São ordens médicas. Preciso pedir para que se retire. — Olhei pra Henry que não movia um músculo enquanto olhava minha discussão com a enfermeira. —
Saí da sala bufando. Fui ao encontro da tia de Henry e expliquei a situação.
- Não é necessário, mas se o médico diz. Vamos, vou levar você para casa e buscar algumas roupas para o Henry. — Ela me guiou até a entrada do hospital. — Se prepara para os flashes.
Os paparazzi tinham duplicado, os flashes na minha cara eram tantos que eu tive que abaixar a cabeça para poder caminhar sem ficar cega. Entramos no carro de Henry e pegamos a avenida. Meu celular tocou.
- O que você está fazendo no hospital com o Henry? — Tia Johanna estava tentando falar suavemente no telefone. — Vou pra Londres e vamos ter uma conversa.
- Tia, eu não vejo necessidade de você surtar assim, Henry é meu amigo.
Já haviam se passado alguns dias do acidente, Henry estava bem e em casa. Tia Johanna havia chegado de viagem com mil pedras nas mãos.
- Anna, você não entende que misturar trabalho com vida pessoal é errado? — Ela bateu com força na mesa. —
- Você não precisa surtar por causa disso, a gente ia pra Highgate e aconteceu.
Eu não reconhecia tia Johanna. Não existiam motivos para que ela ficasse desse jeito. Ela não precisava se exaltar dessa maneira. Eram só fotos. E alguns pontos no queixo de OUTRA PESSOA. Tentei mudar de assunto e ela pareceu incomodada.
- O que foi fazer em Miami?
- Eu... eu fui resolver algumas coisas. — Ela falou meio desconcertada. —
- Enfim, tia... eu estou morrendo de saudade dos meus pais, estava pensando que com o dinheiro que recebi do cachê... nós poderíamos morar aqui em Londres mesmo. Estava conversando com o Henry e ele me contou que existem casas baratas aqui, e que o dinheiro que recebi, posso manter minha família aqui. — Sorri para a tia Johanna, a expressão dela mudou rapidamente. —
- Quanto você acha que recebeu? Milhões? Ele recebeu isso, o dinheiro que temos aqui m*l dá para bancar as despesas até o fim das filmagens. Não se iluda com isso. — Ela cruzou os braços e encostou na mesa. — Além do mais, duvido seus pais quererem sair daquele moquifo.
- Eu achei que meu contrato tivesse sido igual o dele. Ele me contou que recebeu 500 mil por filme. Totalizando um milhão e meio.
Ela desencostou da mesa e veio para mais perto de mim.
- Acontece, Anna, que você não é uma atriz renomada em Hollywood. Ninguém iria apostar esse dinheiro em você. — Ela me deu as costas e se dirigiu a porta. — Te vejo mais tarde.
Qual era o problema com tia Johanna? Talvez ela só tivesse estressada do voo. Decidi ignorar tudo isso por um momento. Peguei meu notebook e liguei para os meus pais via Skype.
- Oi mãe! Pai! Que saudade. — Falei enquanto acenava para os mesmos. —
- Oi filha, achamos que você vinha com sua tia para cá. Estamos com tanta saudade. — Minha mãe, com sua voz doce e sorriso branco, sorria enquanto falava comigo. —
- Não mãe, eu tinha de ficar caso precisassem de mim. Como estão as coisas por aí?
Eles se entreolharam.
- De vez em quando vem algumas pessoas aqui saberem sobre você. — Meu pai riu. — Às vezes eles compram alguma fruta, o que é bom, outras vezes pedem para tirar algumas fotos com a gente.
- Você sabe que eu não gosto muito de fotos. — Mamãe fez uma careta. —
- Eu sei... vocês estão conseguindo manter tudo em ordem? Precisam que eu deposite alguma quantia?
Eu estava preocupada com meus pais, quando saí de casa para vir pra Londres eles estavam tirando dinheiro de onde não tinham para pagar as despesas da casa e da mercearia.
- Não, Anna. Use o seu dinheiro com algo que te deixe feliz, não se preocupe com a gente. — Meu pai sorriu fraco. —
- Me deixa feliz saber que posso ajudá-los de alguma forma. — Sorri. — Vou pedir para a tia Johanna depositar, okay?
- Não Anna...
- Sem conversa, mãe. Vou fazer isso e pronto!
Fechei o notebook na cara dos meus pais. Mas foi por um bom motivo, se eu continuasse, mamãe iria arrumar um motivo para que eu desistisse. E ela tinha um ótimo poder de persuasão, ela ia de fato conseguir. Meu celular estava vibrando do meu lado, era minha melhor amiga. Como eu pude esquecer da coitada por tanto tempo?
- Desculpa... — Atendi a chamada de vídeo me desculpando, conheço bem a Mia. Ela com certeza iria berrar. E foi o que ela fez. —
- VOCÊ ESQUECEU COMPLETAMENTE DA SUA MELHOR AMIGA QUE ESTÁ COM VOCÊ DESDE O ENSINO MÉDIO! — Ela se jogou na cama que estava com um lençol rosa felpudo. —
Ao contrário de mim, Mia sempre teve um estilo de vida muito bom. Estudou nas melhores escolas (Exceto no segundo ano do ensino médio que o pai resolveu dar-lhe uma lição, a deixando por um ano numa escola pública. E foi assim que nos conhecemos.) Muitas viagens, festas de aniversário e agora, uma ótima faculdade de medicina no sul do país.
- Eu estive tão ocupada, Mia... me perdoa. Não está sendo nada fácil. — Ela sorriu para mim. —
- Eu entendo o quanto deve ser r**m fazer um papel romântico e quente com o Henry Cavill. — Mia deu uma piscadela, me fazendo soltar uma gargalhada. —
- Nem te conto, eu gravei algumas cenas bem quentes com ele. Eu me senti em um cinquenta tons de cinza versão anjos caídos. — Ela gargalhou alto. —
- Eu estou morrendo de saudades de você. Não tem nada para me contar?
Sempre que Mia jogava essa “não tem nada pra me contar? ” Eu tinha sim algo para contar, algo que ela sabia, mas preferia ouvir da minha boca.
- Tenho?
- Tem sim. — Ela apoiou o celular na mesa e começou a lixar as unhas das mãos. — Inclusive, estou esperando.
- É sobre as fotos com o Henry, né? — Arqueei uma sobrancelha. —
- Claro que é, vocês são fotografados juntos o tempo todo. — Mia continuava lixando as unhas. —
- E?
- E aí que a carne é fraca, a alma é s****a e o d***o ainda atenta. — Ela parou de lixar e me encarou com seus enormes olhos verdes. Dei uma gargalhada. —
- Sabe.... Eu não sei como tudo aconteceu tão rápido.
- NÃO ENROLA! — Ela berrou. —
- Eu o ouvi rindo — Sorri ao lembrar dele. — Eu vi as covinhas primeiro e depois ouvi o sotaque.
Mia continuava me encarando.
- Dizem que o lar é onde o coração está, mas não é onde o meu vive. Eu estou apaixonada por um cara de Londres. Nem acredito nisso.
- Meu Deus, e você está caidinha. Até frases clichê você está falando. — Ela cruzou os braços e sorriu. — Espero que você tenha sorte dessa vez. E QUE SE LEMBRE QUE O SEU LAR É AQUI EM MIAMI.
- A gente só está ficando por um tempo, enquanto é agradável. Eu não quero pressiona-lo. Por enquanto a única pessoa que sabe é você.
- Você não contou a sua tia?
- Não.
- Fez bem. Não gosto dela.
Mia odeia tia Johanna com todas as forças, porque de acordo com ela, tia Johanna queria explorar o meu sonho. Mas na verdade eu acho que ela tem ciúmes, já que quase sempre que marcávamos de sair juntas, tia Johanna inventava um ensaio ou um teste.
- De uns dias para cá ela está muito fria comigo, sabe? — Olhei para o meu relógio de pulso. —
- Claro que está, você já deu o que ela queria. — Mia revirou os olhos. — Você sabe que pode contar comigo para tudo, não sabe?
- Sei. Preciso ir agora. Tenho uma coisa para fazer.
- Encontrar com o Henry? — Ela sorriu maliciosamente. —
- Meu mundo não gira em torno dele. — Revirei os olhos. — Mais tarde vamos ver o trailer do filme. Vai ser lançado amanhã, inclusive.
- E eu vou fazer questão de assistir.
- Agradeço. Tenho que ir agora. Te amo, a gente se fala. — Desliguei a chamada e corri para o banho. —
“Se eu chegar em trinta minutos, não vão notar que estou atrasada. ” Falei para mim mesma enquanto entrava embaixo do chuveiro.