Capítulo um.

1992 Palavras
Tiago. Meses depois... O Terraço da casa onde eu moro é o meu refúgio. Aqui consigo relaxar, pensar na vida e sonhar, observando a paisagem iluminada de toda a comunidade do morro do Chavoso. Nossa casa tem três andares e fica na parte mais alta da favela, à noite as luzes são vários pontinhos parecendo vagalumes abraçando toda a comunidade. Observar tudo sentado na mureta do terraço. O ponto mais estratégico dá favela. É um privilégio minha mente viaja para quando cheguei ao Rio de Janeiro. Minha mãe, dona Alzira é nordestina veio do interior de Alagoas comigo pelas mãos, com apenas dois anos. Meu pai se chama Neto, é só o que minha mãe sabe. Foi um romance onde os dois planejaram que Neto viria para o Rio de Janeiro primeiro, procurar melhor condição de vida e trabalho, depois minha mãe o encontraria. Os dois se casariam, construiriam família, mas os planos deram errado, pois após sua partida dona Alzira descobriu-se grávida e meu pai nunca mais voltou ou entrou em contato. Como toda mãe solteira, passou muito aperto financeiro, então ela tomou a decisão de vir para o Rio procurar o meu pai e apresentar o filho que ele nunca soube da sua existência. Eu tinha 2 anos quando viemos para o Rio à procura de Neto. Minha memória durante esses anos são poucas, segundo minha mãe, morávamos na comunidade da zona norte com uma amiga dela, durante um tempo e passamos necessidade. Lembro-me quando conheci Orlando, meu padrasto. Um dia viemos ao morro do Chavoso e sentamos em um bar na entrada da comunidade, minha mãe pediu um refrigerante, eu tinha uns cinco anos. Ele pediu para nos fazer companhia e sentou-se, afagou meus cabelos e perguntou se gostava de jogar fliperama, apenas balancei a cabeça, ele gritou para o homem atrás do balcão. "Libera a máquina para o menino jogar". Levantei e os deixei a sós. Tenho certeza que meu vício, por fliperama e a paixão pelo personagem Sagat começou naquele momento. Um tempo depois minha mãe e eu viemos morar na favela com o Orlando. Camila minha irmã, chegou eu tinha sete anos e se tornou a princesinha mimada por todos, principalmente pelo seu pai Orlando. Também não tenho o que me queixar, pois meu padrasto sempre me tratou como filho, ensinando a jogar bola, vídeo game, frequentava meus campeonatos de luta no galpão do Morro, onde fica a associação dos moradores, que proporciona a comunidade ações socias para as crianças da favela. *** São 4h da manhã, o dia ainda nem amanheceu, perdi o sono e continuo a observar a lua de calça de moletom sem camisa. Perdido em meus pensamentos não ouço a aproximação de meu amigo. ― O que se tá fazendo aí, pivete? Deixa-me explicar algo sobre a comunidade. O terraço ― a famosa laje ― é próximo do vizinho ao lado, por isso a do meu amigo é colada a minha. ― Fala ai, soldado! ― cumprimento. ― madrugando pra ir ao quartel? ― Sim. Só queria pegar aqui na corda umas meias. ― Ele pula o murinho baixo que separa as duas lajes e senta ao meu lado. ― E você, tá sem sono? ― Pensando na vida. ― faço uma pausa olhando ainda para o alto. ― A faculdade começa essa semana e estou... ― procuro a palavra na mente. ― Apreensivo. ― Apreensivo? Por quê? ― meu amigo me sonda procurando por sinais. Gabriel é muito intuitivo. ― Sei lá! Tudo novo. Dizem que lá tem muito playboyzinho, filhinho de papai, no estacionamento só tem carrão e os alunos são filhos de gente importante. ― Então você está no lugar certo. ― dispara um tapa na minha cabeça. ― O maior morro do Rio de Janeiro, quem comanda também é gente importante, seu padrasto. ― Olho assustado para ele. ―Tá de palhaçada? Sabe muito bem que não gosto dessa brincadeira. ― Estou cansado de ouvir minha mãe, falando o quanto não devo ficar perto das atividades ilícitas do meu padrasto e nunca deixar as pessoas me associarem as atividades dele. Cresci ouvindo isso. ― Fala sério, Tiago! Orlando é maneiro. Traficante mais respeitado que já teve aqui nessa favela e na legião vermelha. Nunca deixou faltar nada para vocês, lhe deu estudo, casa e segurança. ― Eu sei de tudo isso. Não tenho nada para falar dele como chefe da favela, muito menos de casa, mas se pudesse escolher, não queria que minha família fosse envolvida com o tráfico. Mesmo ele nos mantendo o máximo afastado dos seus assuntos. ― Cara! Ninguém da tua família é envolvida com o tráfico, Orlando sempre preservou vocês. ― Só não é mesma coisa que ter uma família normal. Minha mãe vive com medo dele sair e não voltar. Minha irmã vive chorando, por querer ir à praia com as amigas, ao shopping e não pode. Pensa que é fácil? Eu sou o único que ainda tenho um pouco de liberdade, mas e elas? Para muitos pode parecer ingratidão, mas é a minha vida e não vou seguir os passos do Orlando. Quero estudar e não depender do dinheiro dele. Saber que crianças, jovens e até os mais velhos trabalham para ele e tudo gira em torno do crime, não é nada agradável de conviver. ― Irmão, para de se martirizar. Sua mãe escolheu essa vida. Agora você vai conquistar seus sonhos. ― Meu sonho era levar todos eles daqui e podermos ir e vir normalmente. ― Tente relaxar. ― Diz, mas o otimismo dele é bem diferente do meu. Aprendi a ser pessimista e isso às vezes pesa demais em meus ombros. ― Queria ficar aqui de papo furado, mas a pátria me chama. ― Ele pula da mureta e bate continência e nos abraçamos. *** Acabo ficando ali até o dia amanhecer. Os primeiros raios de sol vêm surgindo e o céu começa a tomar um tom alaranjado deixando o escuro sumir. Saio do banho já vestido em meu quarto encontro Camila deitada na minha cama. ― O que está fazendo aí pirralha? ― espreguiça com seu pijama rosa de bolinhas brancas. ― Mamãe pediu para eu vir te chamar. ― Então vem! ― Faço sinal para pular em minhas costas. Na escada imito o som das pegadas de cavalo com Camila gritando toda animada. Ela tem dez anos e é linda, morena como eu, com cabelo longo, preto e cachinhos na ponta. ― Parem com essa gritaria crianças! ― coloco-a na cadeira e beijo a testa da minha mãe. ― Desculpe essa pequena é uma escandalosa. ― Tudo bem, vamos tomar café em paz. ― Está tudo bem? ― Sinto minha mãe nervosa. ― Camila quando terminar o café sobe pra tomar banho e se arrume para escola. ― Tomamos café em silêncio, minha irmã logo se retira. ― Pode me contar, ela subiu. ― Minha irmã ainda é pequena, evito falar assuntos mais sérios em sua presença. Vejo as olheiras fundas com semblante de choro em minha mãe. ― Não foi nada. ― É sempre uma dificuldade tirar repostas dela. ― Ele não dormiu em casa, né? ― balança a cabeça negando. ― Mãe, quando me formar e conseguir arrumar um emprego, nós podemos alugar uma casinha no asfalto, no começo será difícil, mas vamos conseguir. ― Seguro suas mãos geladas sobre a mesa. ―Tiago... , ― faz uma pausa. ― Você não entende? Orlando nunca vai permitir que a gente saia do morro, querendo admitir ou não somos um alvo fácil para atingi- ló. É uma questão de segurança. ― Podemos mudar de estado. País quem sabe? ― Qualquer coisa que acabe com essa agonia. ― Há Ti! Só Deus sabe como estou nervosa com você indo pra faculdade, se pudesse meu filho, lhe colocaria em baixo da minha asa e nunca mais deixava sair. ― Sorri triste. ― Imagino o quanto a senhora sofre com isso, mas é minha vida, meu sonho e preciso lutar por ele. Eu não escolhi essa vida. ― Você tem toda razão. Orlando escolheu essa vida e fui uma fraca. Fiz tudo errado, mesmo tentando acertar. ― Uma lágrima solitária corre por sua bochecha. ― Não se culpe mãe. Sei do companheirismo que há entre vocês. Juro. Entendo. ― Você me perdoa filho? ― passa a mão em meu rosto com carinho. ― Não tenho o que perdoar. Nunca nos faltou nada material e sempre tive ótimas oportunidades. A senhora me deu carinho e uma família. ― Meu padrasto me trata como filho ainda que as cobranças não tardem a chegar. Como disse anteriormente, sou um pessimista assumido. Claro que têm dias em que as coisas se complicam e acaba sobrando para todos. Procuro relevar os defeitos focando nas qualidades. A briga interior dentro da minha mente nessas horas acaba sendo vencidas pelo coração. As mulheres da minha vida sempre serão prioridades, mesmo não concordando com o modo de vida. ― Achei que na adolescência ia se revoltar com a vida que levamos, mas você sempre foi parceiro, atencioso, obediente e estudioso. Graças a Deus nunca chegou perto de se envolver com nada errado. É um filho de ouro. ― Levanto-me e abraço a minha mãe. ― Quero que a senhora sempre se orgulhe de mim. ― Tô pronta! ― Camila entra gritando na cozinha. ― Deixa que eu leve ela, mãe. ― Nos despedimos e saímos rumo à entrada da favela onde tem a escola. *** Na subida decido passar no QG, lugar onde os gerentes do tráfico e o todo poderoso se reúnem. Paro na primeira boca de fumo. ―The Menor sabe se o Orlando tá no QG? ― pergunto ao vapor da boca. ― Vou passar um rádio patrãozinho. ―Já falei pra parar com essa p***a. Não sou patrão de ninguém. ― Dou um soco na mesa improvisada de caixote de feira. O rádio apita ele pergunta sobre o chefe, à pessoa do outro lado da linha responde que sim, nem espero e subo em direção ao QG. ― Aconteceu alguma coisa com elas, Tiago, pra você vir aqui? ― Meu padrasto pergunta achando estranho, pois evito o local. ― Sim! Quero saber o que está acontecendo? Minha mãe anda preocupada e triste. ― Coça a cabeça. ― Nós discutimos. Coisa boba de casal. Ela não entende as minhas obrigações... ― De chefe do tráfico? ― completo sua frase. ― Sim. Eu queria que tudo fosse diferente, mas infelizmente essa é a nossa realidade. E vocês precisam compreender e para de encher o meu saco. ― Ele se segura com a gente, mas não passa de um grosso e ignorante. Quando o conhecemos e minha mãe aceitou morar com ele, não sabia que era o chefe do tráfico. Demorou poucos dias e quando descobriu, já era a mulher do homem, não podia mais deixar o morro. ― Sua realidade. ― mais uma vez o interrompo. Ele me olha dentro dos olhos, furioso com minha afronta. ― Só, minha? ― n**a com a cabeça ― Não seu moleque m*l-agradecido. Nossa! A casa onde mora, a comida que come e até as roupas que veste. Vem daqui ô. ― aponta para vários pacotes de cocaína em um canto. ― Por isso pense antes de vir me afrontar, com sua ideologia de bom moço. Estou de saco-cheio das reclamações de vocês. Agora vaza, dinheiro não nasce em árvore e meu tempo é curto. Diz pra sua mãe me esperar com o almoço na mesa ás 13h. Meu coração dispara com a constatação das palavras dita por ele, não é mais que verdades. Minhas lágrimas caem ao perceber como estou impotente. Saio dali correndo, mesmo longe o ouço gritando com seus homens. Que esse dia e muitos outros ainda difíceis chegariam, eu já sabia. Só pensei que pudesse ser mais tarde. *** (Gente fala sério Tiago é uma delicia! Pessoas lindas, nós precisamos dos votos e comentários de vocês).
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