Capítulo dois.

1851 Palavras
Tiago. Acordo suado e sentindo pernas embrenhadas as minhas. Estou nu, tento olhar para a mulher ao meu lado. Lembranças da discussão com meu padrasto despertam-me, e a constatação que é minha realidade, faz sentir-me um nada. Sou sustentado pelo dinheiro do tráfico. Tiro as pernas da garota sobre mim, sem acorda-la. Quando saí do QG correndo cego de raiva, acabamos nos esbarrando e como sempre, se ofereceu para me ajudar. Nós estudamos, na mesma turma desde que cheguei ao morro, e junto com Gabriel a incentivamos em terminar o ensino médio. Sempre que pode força a barra para que a gente namore, mas sou muito novo para querer compromisso com alguém. Principalmente esse alguém sendo Mikaela, que sua vidinha se baseia em bailes, cabelo, corpo e unha. Nada de estudo e nem trabalho. Não se pode negar o quanto é gostosa, sua pele morena está sempre bronzeada, mostrando a marquinha de biquíni sexy, seus cabelos longos encaracolados, unhas grandes e decoradas. Os olhares carregados de malicias e o remelexo no quadril quando dança, levam muitos homens a loucura, eu e Gabriel já nos perdemos várias vezes em seus encantos. No entanto, para mim não passa de sexo. E ser enteado do chefe do morro, faz de mim, alvo de interesseiras, exatamente onde Mikaela se encaixa. Interesse nada mais. ― Vai aonde meu moreno? ― sento na beira da sua cama e pego minha bermuda no chão. ― Qual foi? Não vai responder? ― Sua insistência é o ponto negativo em nossos esporádicos encontros. Ela mora em uma quitinete com sua mãe, que sai cedinho para trabalhar e só volta no final da tarde. Por isso passa o dia todo sem fazer nada util. ― Preciso ir depois a gente se fala. ― Deixo o quarto sem explicação, com ela atrás de mim, ainda nua. ― É assim é? Me come e nem um "tchau gata". ― Grita como uma louca. Antes de abrir a porta da sala para sair de sua casa, faço uma meia-parada. ―Tchau gata. ― Repito suas palavras e bato a porta atrás de mim, ainda ouço seus gritos incompreensíveis. *** A casa de Mikaela fica na metade do caminho entre minha e a entrada da favela. Olho para o relógio e são quase 19h. Quando entro em casa. Minha mãe está chorando e vem correndo me abraçar. Camila com os olhos vermelhos, também de choro, parece assustada e meu padrasto em pé com uma pistola na cintura e um fuzil no ombro. Parece irritado com toda a situação. ― Onde você estava Tiago? ― A mãe segura meu rosto, forçando-me a deixar de encarar meu padrasto e olhar para ela. Estou com raiva, mais de mim do que dele. Sempre soube a forma como levava sua vida e sustento para nós, porém o peso de suas palavras hoje mais cedo, fica martelado na minha cabeça, como se eu fosse parte de tudo o que repudio. O pior pra mim é o conflito em que meu coração e cérebro se tornaram. Como se minha índole do homem que busca seus sonhos para vencer na vida, estivesse só em minha cabeça criando uma fantasia, pois para todos, eu não passo de um ingrato que usufrui das regalias do dinheiro n***o. ― Por aí mãe. ― Ela estala um tapa no meu braço. ― Aí! - reclamo passando a mão onde arde. ― Nunca mais faça isso. Quer me matar do coração? Saiu pra levar sua irmã de manhã e não voltou. ― Torno a olhar para o Orlando e ele balança a cabeça em negação. Este sinal, eu já sei decifrar, não falou nada sobre minha visita ao QG mais cedo. ― Sobem as duas, quero falar com o Tiago. ― Minha mãe nos olha assustada. ― Meu bem, eu que sou desesperada, Tiago provavelmente estava jogando vídeo game na casa de algum amigo, ou lá na quadra jogando bola... Talvez lutando, né filho? ― Busca com olhos amedrontados minha confirmação. ― Nós só vamos ter um papo de homem pra homem. ― Mas... Orlando! ― Alzira. Por favor. ― Ele fala um pouco mais firme. Seu medo faz a comiseração da culpa, só piorar o descontrole em que me encontro. Por minha causa eles vão se desentender. Mesmo tentando manter o chefe do morro fora de nossa casa, tem horas que os dois se cruzam e Orlando exige, manda, ordena e temos que acatar. ― Por que isso agora? ― Ela insiste. ― Alzira não me faça perder a paciência. Estou no meu limite aqui. ― Filha vai para o seu quarto. ― Minha mãe faz sinal com as mãos e Camila sobe a escada correndo. ― Não estou entendo, porque tu quer falar com o Tiago a sós. ― questiona. Meu padrasto anda de um lado para outro na sala passando as mãos no cabelo. Vai explodir a qualquer momento. ― Para! ― grita assustando-nos. ― Chega de mimar esse menino. Chega! Ele é homem feito com 18 anos, cheio de pentelho no saco. ― Ele é meu filho. Não venha me ensinar como devo tratá-lo. ― Ela grita mais alto o encarando. ― Alzira não me faça jogar merda no ventilador. ― Sabia que não tardaria para nos tratar com seus homens. ― Merda no ventilador! ― Sou eu agora a questioná-lo. ― Tiago vai pro seu quarto. ― Minha mãe grita, continuo parado. ― É uma ordem. Agora! ― grita mais alto. Prefiro subir, não quero ser o causador da briga entre eles. Orlando pode ser o que for, mas respeita a esposa, é bom pai e padrasto. Ainda que tenham dias que a tempestade caia sobre a Comunidade e acabe respigando sobre nós, ele tenta se controlar. Todas as histórias que escutamos na favela sobre mulheres, amantes nunca foram verdadeiras, sempre fofoca. Ele sendo dono do Morro sempre tem mulheres querendo ser a primeira dama. A pressão de manter tudo organizado seja no crime ou na administração, é um fardo em suas costas, procuramos entende-lo. Todavia ninguém é perfeito e extrapolar de vez em quando, faz parte. *** Abro a porta do banheiro, após tomar banho. Orlando está no meu quarto olhando pela janela. ― Senta ai. ― Aponta para cama. Assim que sento ele puxa a cadeira da escrivaninha senta, apoiando o fuzil em pé próximo a parede. Coloca sua pistola em cima da mesa. ― Olha! Eu já entendi que dependo do seu dinheiro, mas quero deixar claro que será por pouco tempo. Amanhã mesmo vou tentar arrumar... ― ele me interrompe. ― Tiago você vai estudar e realizar seu sonho. Ter o que eu não tive. Entende? ― Seu tom de voz mais brando me surpreende. ― Eu não vou desistir do meu sonho. Vou arrumar algo para conciliar os dois. ― Pra quê isso agora, garoto? ― Porque eu não quero esse dinheiro sujo. ― Ele levanta bruscamente, vira para janela onde esteve segundos atrás, solta o ar dos pulmões. ― Acha que escolhi essa vida? ― ainda de costa, ele continua ― quando jovem, foi preciso ser ambicioso, trabalhava de carteiro, mas o salário era mínimo e eu queria mais. ― Faz uma pausa e vira de frente. Nunca soube muito de sua vida, muito menos que foi carteiro um dia. ― Um colega de trabalho falou que se eu entregasse umas drogas como se fosse carta. Poderia ganhar um bom dinheiro e que muitos ali faziam. Era ótimo e pagavam por remeça. Até é compreensivo que na juventude ele quisesse mais, o problema é o preço pago. Entendo a falta de oportunidade em sua vida, mas se todos pensassem assim, ninguém lutaria por seus sonhos. E a liberdade é algo precioso demais para correr riscos. Vi mesmo com minha pouca idade, muitos moleques que jogavam bolas comigo, sendo levados para Casa do Menor. E quando mais velhos sendo detentos nos cadeiões, deixando os sonhos e a família para trás. O medo que vejo nos olhos de minha mãe, só em pensar que Orlando ou até mesmo eu, acabemos presos é aterrorizador. ― Sabe o quanto é difícil ganhar salário mínimo? Querendo levar comida e remédio numa casa onde o pai foi morto por bala perdida, sendo o filho mais velho, e um dos seus três irmãos, inválido numa cama sem a mínima condição, e a mãe diabética com outras complicações? ― a realidade de muitas famílias é dura e crua. Pouca ajuda e muita obrigação, sem nada de instrução. Ele continua e nem penso em para-lo. ― Eu fiz duas vezes e fui pego, porque a quadrilha estava sendo investigada nem aproveitei muito, logo rodei. Fiquei 8 meses preso naquele inferno. Peguei 12 anos de xadrez. Naquela época fui obrigado a fazer uma escolha. Ou eu cumpria minha pena ou fugia e virava traficante. ― Escolhas onde os fins justificam os meios, pelo menos, no que ele acredita. ― Onde estava sua família quando fez essa escolha? ― pergunto tentando entender meu padrasto. Tudo na vida tem os dois lados, certo ou errado. Preto ou branco. Quem é o homem que se transformou em dono do morro? O que escolheu o poder, mesmo ciente do que perderia. ― Todos mortos, mas não quero falar deles agora. ― respeito acenando com a cabeça. ― Como cheguei até aqui é uma conversa pra outra hora, meu único desejo é usar essa merda de dinheiro e dá pra você e sua irmã o melhor estudo, para que nunca precisem se envolver com nada disso. Já não basta a merda de vida cheia de privações, que exijo de vocês. Entende agora as minhas preocupações? Posso contar com o seu senso de proteção, não colocando, nem você e sua irmã em perigo? ― Pode. ― Meu trabalho aqui terminou. E mesmo deixando sua mãe preocupada, eu sabia que estava na cama com aquela garota. Por isso juízo rapaz. ― pega seus instrumentos de trabalho e deixa-me no quarto absorto, com a cabeça com muita coisa para absorver. A sua conversa foi mais um desabafo e um pouco chocado com seu relato, cheguei à conclusão que sou muito i****a e alienado. Jamais questionei como Orlando se tornou chefe do Morro. Onde eu estava até hoje de manhã, que nunca parei para pensar nessas coisas? Será realmente que entrou nessa vida por falta de escolha ou vingança? Poucas foram às vezes que tive o desprazer de estar cara a cara, com o traficante Orlando Brasília. O todo poderoso como as manchetes de jornal costuma o descrever. O poderoso chefão da legião vermelha. Em minhas lembranças de uma infância com muitos regalos é do homem que esteve ao meu lado em todas as oportunidades em que um pai era solicitado. O olhar frio do homem dos negócios obscuros está nele ―, mas para nossa família, é nulo na maioria das vezes. Como digo existem dois homens no mesmo corpo, na mesma alma. Uma incógnita que a partir de hoje, me instigou a querer conhecer as duas faces dele. *** (Gente! Nós queremos os corações e comentários de vocês. Beijos e até a próxima).
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