Joalin
Desliguei meu celular e suspirei, a conversa com minha mãe tinha sido tranquila, contei que estava pensando em morar em Londres por um tempo e gostando da hospedagem na casa dos May, apesar da nítida surpresa em sua voz, ela ficou feliz e animada com a minha novidade, me apoiando com vem fazendo em toda minha vida.
Enquanto eu estava sentada na cama de Bailey no telefone, ele estava na sacada do quarto, escutando música, já tínhamos almoçado a algum tempo, com seus pais. Quando a chamada acabou e eu me despedi, tendo certeza de que minha família estava "se virando" sem minha presença, fui atrás do filipino e sentei ao seu lado, observando o sol não muito forte.
-Está tudo bem na Finlândia?- ele me perguntou.
-Sim, quer dizer, as coisas são um pouco estranhas para meus irmãos. Também consigo perceber que minha mãe tem um pouco de medo de acabar esbarrando com meu pai biológico por aí, isso é se eu posso chamar ele de pai- respirei fundo escutando os primeiros acordes de Too Good at Goodbyes- Tenho pensado demais nesse assunto ultimamente, na verdade até essa música me lembra dele.
-Você quer que eu troque?- ele perguntou receoso, ajeitando sua postura.
-Não, está tudo bem. É só que a letra se encaixa em tantos momentos e eu ainda não consigo aceitar essa história, mesmo que conviva com ela durante toda a minha vida.
-Algumas coisas acontecem sem explicação, são dolorosas demais para isso. Provavelmente se você convivesse com ele teria um péssimo pai, apesar de ter que conviver com isso, é bom que tenha Pepe, que verdadeiramente te ama e a trata como merece.
-Eu sei- encolhi meus ombros- Eu não falo muito sobre isso, na verdade desde que eu ganhei um pai de verdade tenho lutado ainda mais para deixar laços biológicos para trás. É tão difícil entender o porquê de um homem deixar para trás a mulher que dizia amar porque ela está grávida, ainda duvidar da paternidade e eu m*l consigo imaginar como minha mãe deve ter se sentido humilhada.
-Ela foi muito forte, te criou sozinha e com amor.
-Sim, ela nunca deixou que nada me faltasse, sempre viveu para e por mim- limpei uma lágrima que insistiu em cair- Quando conhecemos meu pai e eu consegui ajudá-los a ficar juntos, quando eu o chamei de pai pela primeira vez, eu não consigo nem explicar o que senti. Lembro que quando minha mãe me contou que estava grávida de Jianna o meu maior medo é que ele fizesse igual meu pai biológico, talvez eu nunca me livre desse trauma.
-Você nunca chegou a conhecer seu pai biológico?- ele me encarou.
-Não, ele desapareceu pouco tempo depois que minha mãe disse que estava grávida. Eles namoravam desde a adolescencia e ele não tinha o direito de ter duvidado da paternidade, não tinha família e os boatos diziam que "fugiu"- fiz aspas com a mão- para a Suécia. Quando nos mudamos para a Espanha, ficamos sabendo que ele tinha voltado para a Finlândia e eu podia saber que minha mãe agradecia por estarmos longe. Acho que ele estava morando em Helsinque e quando foi para Turku já estávamos estabilizadas no México, até meus treze anos a única coisa que eu sabia dele era o nome, tive a curiosidade de pesquisar e achei seu f*******:, é casado e tem um casal de gêmeos que hoje deve ter uns 10 anos- dei de ombros tentando engolir o bolo que se formava na minha garganta.
-Me pergunto o que leva um homem a ser tão filho da p**a dessa forma, onde está o carácter? Ele vai agir para sempre como se não tivesse uma filha? Quão desumano um cara precisa ser para largar a namorada grávida e simplesmente apagar de sua vida que é pai, exatamente da mesma forma como se apaga o histórico do computador quando não quer que saibam o que pesquisou.
-Hoje eu acho que se ele me procurasse eu nem iria querer contato. Quer dizer, um pedido de desculpas não seria de todo r**m, mas já tenho tudo o que preciso, tenho uma mãe que sempre fez o possível para que eu me sentisse completa, um pai que escolheu me amar como filha, mesmo não tenho obrigação de o fazer. Tenho irmãos que verdadeiramente me amam, que vi nascer e crescer e tenho uma carreira bem sucedida, que aposto ser melhor do que a dele, pelo que as redes sociais mostraram. Eu prefiro acreditar que a vida cobra, que o mundo gira e se ele errou comigo e nunca procurou se redimir, ele irá, única e exclusivamente sofrer com seus erros e eu juro que não o desejo m*l mas estaria mentindo se dissesse que não teria vontade de socar sua cara se o visse na rua.
-Absolutamente o laço paterno só nasce com convívio e criação, ele quem saiu perdendo em toda essa história. É apenas seu doador de esperma e um canalha que nunca foi capaz de assumir seus próprios atos.
-Se ele esbarrar comigo na rua, provavelmente só me reconheceria porque sou a cópia idêntica da minha mãe, de quando ela era adolescente. Acho que se ele me procurasse hoje seria por interesse, por ver que o que tenho potencial de conquistar, não sei se eu seria capaz de acreditar e perdoar.
-Sim, se ele surgir de repente, ainda há chance de ser por interesse.
-Eu me sinto culpada, as vezes. Ele é um m*l caráter mas eu destruí o relacionamento da minha mãe e fui completamente rejeitada pelo meu próprio pai- suspirei e deixei que algumas lágrimas caíssem.
-Nunca mais fala isso. Por favor, nunca mais, nunca mais fala isso- ele repetiu várias vezes e eu me permiti levantar a cabeça, vendo que seus olhos também estavam cheios de lágrima- Em primeiro lugar, você em momento nenhum é culpada por uma gravidez, segundo que deve se sentir bem por ter livrado sua mãe de um relacionamento nitidamente tóxico, além de que eu tenho certeza que você é o maior presente que ela poderia receber, que ela te ama acima de tudo e não ficaria feliz em saber que você se culpa. Eu tenho certeza que ela trocaria qualquer relacionamento pelos filhos e que você foi a única coisa boa que ela ganhou de seu pai biológico. Se ele te rejeitou, se ele foi um b****a filho da p**a, ele é 100% o culpado de tudo isso, se ele não queria ou estava satisfeito com o relacionamento, que terminasse de forma decente e assumisse a paternidade, se ele achava que não era o pai, que fizesse a p***a de um exame de DNA, ele nunca, nunca deveria ter feito isso com você, em nenhuma hipótese e se ele fez sem pensar duas vezes, se ele nunca se arrependeu ou te procurou, é porque ele é podre e o melhor que você pode fazer é tê-lo bem longe de você, ele só te acrescentaria dor e coisas ruins, você é boa demais para ele e ele nunca mereceu ser chamado de pai. Ele pode ser um pai para os filhos que tem agora mas ele não é seu pai, nunca foi, perdeu o direito de ser chamado dessa forma no dia que foi embora e deixou sua mãe sozinha. Nunca nem pense em se culpar por tudo isso, você e sua mãe são as maiores vítimas dessa história e o que ele fez é simplesmente injustificável- ele me puxou pela minha mão e me abraçou com toda a força e, naquele momento, eu só conseguia chorar.