HURT

1036 Palavras
Joalin  Eu fui atrás do meu celular e, quase simultaneamente, a porta do quarto se abriu. Maya deu dos passos para dentro e eu suspirei, agradecendo por ela não ter o feito poucos minutos atrás e me encontrado em uma cena um tanto quanto constrangedora, com seu irmão.  -Mamãe e papai decidiram não fazer comida, falaram para vocês pegarem alguma coisa para lanchar quando sentirem fome.  -Vamos pedir algum lanche- Bailey respondeu por mim, enquanto eu finalmente tinha localizado o aparelho.  -Tá- ela deu de ombros- Por que você está vermelho?- virei para trás, encarando o filipino.  -Dor, inclusive obrigado por perguntar se minha mão está melhor.  -Quer que a gente peça alguma coisa para você, Maya?- perguntei, ignorando a pequena troca de farpas dos irmãos.  -Não, obrigada. Tô pensando em fazer um bolo de chocolate mais tarde, se eu fizer te trago um pedaço- sorriu para mim.  -Tudo bem, obrigada- repeti o ato e voltei a sentar ao lado de Bailey, vendo a garota dar a meia volta e sair do cômodo- E então, o que quer comer? -Fish and chips?- esperou meu aval e eu balancei a cabeça em concordância.  -Conhece algum restaurante que entregue por aqui?  -Tenho o número de um em algum lugar- disse se movimentando com cuidado e usando a mão que não estava machucada para abrir a gaveta da mesa de cabeceira.  Esperei cerca de 5 minutos até que ele encontrasse um panfleto com o pequeno cardápio de delivery. Fizemos nossos pedidos e aproveitei o tempo de entrega para tomar um banho, hidratar meus cabelos e tirar um tempo exclusivamente para mim, como não havia fazendo a alguns bons meses.  Quando saí do banheiro embaçado pelo vapor, vestindo mais um dos meus conjuntos de moletom quentes e confortáveis, Bailey estava entrando no quarto com os lanches e confesso que estava faminta. Além disso, ele carregava uma sacola com alguns doces que tínhamos pedido para comer mais tarde.  Abri minha lata de Pepsi e desembrulhei a minha embalagem do jornal, tradição britânica existente desde que o prato começou a ser comercializado, que ainda era mantida em restaurantes mais tradicionais.   -Eu amo a Inglaterra- disse dando a primeira mordida no peixe- Sua mão ainda está doendo?- perguntei me lembrando do tombo e por um segundo precisei segurar a risada. Entre primeiros socorros, beijo, conversa, pedido do restaurante e banho demorado, acreditava ter se passado tempo mais que o suficiente para que o medicamento começasse a fazer efeito e minimizasse a dor.  -Sim, parou de latejar e agora só dói quando eu mexo.  -Deve ficar dolorida por alguns dias- constatei e ele concordou. Percebi que, no tempo em que eu estava no banho, ele tinha escolhido um filme que agora estava pausado na televisão e por isso recostei na cama apertando o botão para que pudéssemos começar a assistir.  Estávamos conseguindo manter as coisas com naturalidade depois do acontecimento do beijo, o que com certeza me deixava muito tranquila. Eu entendia que não bastava nós dois afirmarmos que nunca voltaria acontecer porque, se tivesse que se repetir, na hora tudo o que nós dois não pensaríamos seria nessa promessa.  Por outro lado, eu nunca colocaria minha amizade com Bailey, que é tão especial para mim, em risco por algo que não tinha certeza, eu não sabia se era momentâneo, se o sentimento existia, eu não colocaria um relacionamento na frente de nossa amizade sem ter certeza do que nós dois sentíamos, sem entender se daria certo e valia a pena arriscar.  Tínhamos todo o tempo do mundo e acho que nós dois entendemos que a melhor alternativa era agir normalmente por um tempo, sem pressão ou rótulos, apenas tentando entender porque aconteceu e sem pressa, decidir a melhor forma de seguir.  De fato, apesar de estar funcionando como o planejado, ambos sabíamos que aquela noite não era hora de conversas profundas. Tínhamos noção de que esse espaço precisava existir naquele momento e que no dia seguinte tudo voltaria ao normal, estávamos nos preservando da mesma forma que faríamos se tivéssemos brigado, por exemplo, respeitando o espaço um do outro porque não queríamos nos machucar.  Esse era o ponto mais bonito de minha amizade com Bailey, nós nunca iríamos fazer nada para nos machucar. Essa era nossa base, nosso princípio e a regra mais importante que construímos juntos, se ajudar e nunca, nunca se ferir.   Talvez por todos esses motivos, entre o jantar e os doces que tínhamos comprado, acabamos emendando alguns filmes e no fim da noite já tínhamos assistido mais de 4.  Bailey acabou pegando no sono com a cabeça no meu colo e os braços em volta da minha cintura. Ajeitei o travesseiro atrás de mim e arrumei minha postura, recostando na cabeceira da cama e desligando um dos abajures, faltava pouco tempo para o filme acabar e eu pretendia assisti-lo até o final antes de ter uma boa noite de sono.  Acariciava os fios negros do asiático, sem tirar o olho da tela, quando ouvi batidas na porta. Pausei o vídeo e vi que Vanessa tinha colocado a cabeça para dentro do quarto, com receio de que estivéssemos dormindo.  -Oi querida, vim ver se está tudo bem e se a mão dele melhorou. Achei que estavam dormindo- ela deu alguns passos silenciosos para dentro.  -Ele dormiu tem umas meia hora, tinha dito que o remédio fez efeito e que só estava doendo quando mexia- disse baixo, olhando para a cabeça do garoto no meu colo, para ter certeza que minha voz não o acordaria.  -Que bom- ela deu um sorriso sincero- Digamos que Bailey não é a pessoa mais forte para dor que eu conheço- ri baixo e ela me acompanhou.  -Eu passei alguma pomada para dor muscular que encontrei no banheiro nas costas dele, surgiram algumas manchas por conta da pancada.  -Muito obrigada pelo cuidado, a amizade de vocês é muito especial e é tão nítido como faz bem ao meu filho- ela sorriu e caminhou até a porta. Senti minhas bochechas esquentarem e apenas abaixei a cabeça, continuando a acariciar seus cabelos- Boa noite Joalin- ela disse antes de sair do quarto.  -Boa noite, Vanessa- sorri vendo a porta se fechar e voltando a encarar seu filho adormecido. 
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