Bailey
Eu, talvez, precisei sentir a língua de Joalin em contato com a minha para entender a dimensão do que estava acontecendo. E d***a, o beijo era gostoso e estimulante, nós tínhamos um encaixe ainda desconhecido e inexplorado por mim e é claro que a parceria, o amor e tudo o que vínhamos construindo nos últimos três anos estava presente ali.
Ainda assim, muitas coisas estavam em risco e acho que nós dois tínhamos ciencia disso. E é claro que não falo só sobre a parte do contrato clara e nítida que diz que relacionamentos devem ser evitados, mas também nossa amizade.
Joalin era extremamente especial para mim e, como uma de minhas melhores amigas, eu sabia que estaria presenta na minha vida, ao meu lado para sempre. Ao mesmo tempo, tinha medo de que, levando as coisas para outro nível, poderíamos colocar em jogo o que já temos, corríamos um risco muito maior de perdemos um ao outro, e sinceramente, não gostava nem de pensar, cogitar a possibilidade de algum dia não tê-la em minha vida.
Era confuso porque em um beijo, consegui sentir mais emoções do que em qualquer outro que já tinha dado na minha vida. Parte disso, foi pelo sentimento maior, mais puro, genuíno e intenso que sinto pela finlandesa e, por mais que não conseguisse o interpretar ou rotular, sabia nunca ter sentido algo com tanta intensidade por alguma outra garota.
O perigo, o medo, ter de fazer escondido, tudo isso era atiçante. Esse era meu medo, isso era o que me fazia questionar um milhão de coisas. Dentre elas, porquê sempre a enxerguei apenas como amiga e em um instante, tudo mudou, porquê me senti atraído por ela pela primeira vez, por qual motivo tive atitude de beijá-la. Eu voltava também para uma antiga e decorrente dúvida, o motivo de sempre enxergá-la diferente de Sabina.
E, apesar do beijo não ter demorado muito, todos esses questionamentos rodaram minha cabeça durante o mesmo, como se o tempo tivesse parado e, antes de voltar a correr, eu tivesse ganhado uma grande bola de neve que irá me perseguir, lotada de meus próprios sentimentos e confusões.
-d***a, Maya estava certa- foi a primeira coisa que me veio a cabeça quando separamos nossos lábios. Nossas testas continuavam coladas e sentia que Joalin respirava fundo, mantive meus olhos fechados e encostei nossos narizes, depositando um selinho em seus lábios.
O que estávamos fazendo? Onde estávamos com a cabeça?
-Bailey- sua voz saiu como um suspiro.
-Eu sei- respondi antes de abrir os olhos e me afastar um pouco de seu rosto, menos de um palmo.
Não, eu não sabia. Não entendia por mim, quanto mais por ela.
-Eu não sei se isso deveria ter acontecido- ela me encarou de volta, seus olhos azuis eram tão mais bonitos e profundos de perto.
-O que você pretende fazer sobre isso?- perguntei receoso. O medo que ela me dissesse que procuraria um hotel até as fronteiras abrirem ou algo do tipo era gigante.
-Acho que- ela fez uma pausa e respirou, seu tom de voz era baixo e brando- Eu não sei- respirou mais uma vez, me deixando um pouco apavorado- Talvez agir normalmente seja a melhor escolha, vamos... Vamos ver como podemos lidar com isso, ok?
-Eu não quero te perder- disse por impulso, minha voz parecia tão apelativa que cheguei a sentir autopiedade. Coloquei minha mão sobre a sua e, inesperadamente, ela entrelaçou nossos dedos.
-Você não vai me perder- sua firmeza me tranquilizou um pouco- Só precisamos entender o porquê desse beijo ter acontecido, precisamos entender se isso vai se repetir algum dia e qual é a melhor forma de lidar, se vai ser fingindo que não aconteceu ou apenas não rotulando e vivendo os momentos com um pouco de impulsividade, tentando levar as coisas de maneira natural. Por enquanto, apenas vamos com calma, ok?
-Não sente medo do contrato?- d***a, eu apenas piorava a situação.
-Que contrato?- Sua expressão facial mudou poucos segundos depois- Ah, o contrato- respirou fundo e afastou sua mão da minha, me fazendo congelar. Por sorte, tal ato foi para prender seus fios loiros em um coque- Acho que podemos fingir que ele não existe por enquanto e tentar entender de forma madura o que acabou de acontecer.
-Vamos tentar agir normalmente então, sem fingir que nada aconteceu mas sem deixar que isso mude as coisas entre nós- afirmei mais para mim mesmo do que para ela.
-Isso, se em algum momento se repetir, pensamos se devemos nos preocupar com o contrato, se não podemos deixar acontecer de novo ou se damos conta de agir com tudo isso.
De certo, eu estava feliz por não receber um ultimato, seja ele "Isso não pode se repetir", "Seremos só amigos", "Nossa amizade acabou", "Somos amigos coloridos" ou até "Podemos tentar ficar juntos e ver se dá certo".
Eu estava confuso, sabia que assim como ela, precisava de tempo para entender o que estava se passando com meus sentimentos, para perceber qual dessas alternativas era nosso melhor caminho e, é claro, ver se compartilhávamos da mesma opinião.
Ambos sabíamos que era a forma certa de agir. Era diferente de riscar o beijo de nossa história, o oposto de nos aventurarmos em algo sem ter certeza do que estamos sentindo e mais aliviante que dar um ponto final em tudo, seja amizade ou chance de algum relacionamento.
-É o certo a se fazer- mais uma vez eu parecia afirmar para mim.
-Vamos tentar não deixar as coisas ficarem estranhas entre nós- ela parecia fazer o mesmo que eu e tentar absorver suas próprias palavras.
-Ainda vai querer dividir apartamento cominho?- tentei quebrar o clima tenso, não da maneira certa já que essa pergunta me dava certo nervoso e ansiedade.
-É claro, seremos bons colegas de apartamento.
-Ufa- deixei escapar.
-Acho que seu dedo machucado te da direito a um delivery de comida para o jantar, o que acha?-ela sugeriu com um sorriso no rosto.
-Acho justo, preciso de comida e filme.
-Como você está todo quebrado, vou te deixar escolher dessa fez- ela riu bagunçando meus cabelos.