O rosto dele parecia firme quanto a decisão.
Na tarde seguinte, ele mandou um carro me levar. E ali estava eu, vestida com a mesma dor, indo destruir o único amor verdadeiro que já conheci. Não por escolha… mas por sobrevivência, já estava sendo colocada no carro a caminho da casa do meu noivo Enzo.
Assim que cheguei, quando o vi, meu mundo parou. Ele sorriu, aliviado por me ver. Mas aquele sorriso se desfez assim que comecei a falar.
— Eu... eu não posso continuar com isso. Com a gente. O nosso noivado acabou
Os olhos dele buscaram os meus, confusos, feridos. Tentei não desmoronar, mas cada palavra me dilacerava por dentro.
— É melhor assim, Enzo.
Ele tentou me segurar. Eu ainda consigo lembrar do som da minha respiração naquele dia. Rápida. Irregular. A mão dele apertava a minha com tanta força que doía — não pela força em si, mas pela despedida que ela carregava.
— Não faz sentido, Luna... Por quê? Me diz o que está acontecendo — ele implorava, os olhos vermelhos, o terno desalinhado, como se tivesse corrido até mim.
Mas eu não podia dizer a verdade. Como explicar que minha liberdade havia sido leiloada junto com o corpo ainda quente da minha mãe?
Virei o rosto, lutando para manter as lágrimas escondidas.
— Eu só... não te amo mais — menti.
Vi o brilho apagar nos olhos dele. O mesmo brilho que um dia me fez sonhar. Vi ele dar um passo atrás, como se aquela frase tivesse quebrado algo dentro dele.
E ali, naquele momento, senti como se estivesse morta. Mas viva.
Voltei para aquela mansão como se carregasse o peso do mundo nas costas. Cada degrau da entrada me parecia um lembrete da prisão em que eu estava. A porta se fechou atrás de mim com um estalo seco, e lá estava ele — sentado com uma taça de vinho, como se nada tivesse acontecido.
A raiva, o desgosto, o luto… tudo explodiu de uma vez.
— Você conseguiu o que queria — disparei, com a voz trêmula — Fez com que eu destruísse a única coisa boa que ainda me restava.
Ele apenas me olhou, calmo. Como se minhas palavras fossem vento.
— Enzo acreditava em mim... ele merecia a verdade!
Me aproximei, sem medo.
— E sabe o que é mais doente nisso tudo? Eu nem sei o seu nome. Nem isso. Estou aqui, sendo obrigada a viver ao lado de um estranho… por causa de uma dívida que nem sei se é real.
O silêncio dele foi mais c***l que qualquer resposta. Apenas se levantou devagar, como quem já esperava esse confronto.
— Você saberá o suficiente... com o tempo.
Fiquei ali parada, encarando-o, com o coração aos cacos e a alma em brasa. Aquela casa era uma jaula dourada — e eu, a prisioneira sem escolha.
A noite caiu pesada sobre a mansão. Do lado de fora, tudo era silêncio, exceto pelo som leve dos grilos e o farfalhar das árvores. Por dentro, eu contava cada segundo — cada passo dos seguranças no corredor, cada suspiro abafado no escuro do meu quarto.
O coração batia acelerado, mas a mente estava firme. Eu precisava sair dali. Nem que fosse só para respirar liberdade por alguns minutos. Planejei cada movimento.
Esperei até que a movimentação diminuísse. Coloquei um casaco qualquer por cima da camisola e, descalça, caminhei até a varanda dos fundos. A janela estava destrancada, como eu havia deixado horas antes, discretamente.
Abaixo da varanda, uma pequena elevação de pedras levava até o jardim. Arrisquei. Desci devagar, sentindo as pedras frias sob os pés, o vento cortando o rosto, e um fio de esperança renascendo no peito.
Cheguei ao portão lateral. Estava trancado. Forcei devagar, até ouvir um leve “click” — destrancado. Por um instante, achei que conseguiria.
Mas antes que eu pudesse abrir completamente, uma luz forte se acendeu atrás de mim. Virei com o coração disparado. Um dos seguranças, com rádio na mão, me encarava.
— A senhorita não pode sair sozinha.
— Eu só queria ir embora...— sussurrei, a voz falhando.
Minutos depois, fui conduzida de volta como se fosse perigosa. No corredor, aquele homem já me esperava.