Capítulo 3- Fuga

706 Palavras
O rosto dele parecia firme quanto a decisão. Na tarde seguinte, ele mandou um carro me levar. E ali estava eu, vestida com a mesma dor, indo destruir o único amor verdadeiro que já conheci. Não por escolha… mas por sobrevivência, já estava sendo colocada no carro a caminho da casa do meu noivo Enzo. Assim que cheguei, quando o vi, meu mundo parou. Ele sorriu, aliviado por me ver. Mas aquele sorriso se desfez assim que comecei a falar. — Eu... eu não posso continuar com isso. Com a gente. O nosso noivado acabou Os olhos dele buscaram os meus, confusos, feridos. Tentei não desmoronar, mas cada palavra me dilacerava por dentro. — É melhor assim, Enzo. Ele tentou me segurar. Eu ainda consigo lembrar do som da minha respiração naquele dia. Rápida. Irregular. A mão dele apertava a minha com tanta força que doía — não pela força em si, mas pela despedida que ela carregava. — Não faz sentido, Luna... Por quê? Me diz o que está acontecendo — ele implorava, os olhos vermelhos, o terno desalinhado, como se tivesse corrido até mim. Mas eu não podia dizer a verdade. Como explicar que minha liberdade havia sido leiloada junto com o corpo ainda quente da minha mãe? Virei o rosto, lutando para manter as lágrimas escondidas. — Eu só... não te amo mais — menti. Vi o brilho apagar nos olhos dele. O mesmo brilho que um dia me fez sonhar. Vi ele dar um passo atrás, como se aquela frase tivesse quebrado algo dentro dele. E ali, naquele momento, senti como se estivesse morta. Mas viva. Voltei para aquela mansão como se carregasse o peso do mundo nas costas. Cada degrau da entrada me parecia um lembrete da prisão em que eu estava. A porta se fechou atrás de mim com um estalo seco, e lá estava ele — sentado com uma taça de vinho, como se nada tivesse acontecido. A raiva, o desgosto, o luto… tudo explodiu de uma vez. — Você conseguiu o que queria — disparei, com a voz trêmula — Fez com que eu destruísse a única coisa boa que ainda me restava. Ele apenas me olhou, calmo. Como se minhas palavras fossem vento. — Enzo acreditava em mim... ele merecia a verdade! Me aproximei, sem medo. — E sabe o que é mais doente nisso tudo? Eu nem sei o seu nome. Nem isso. Estou aqui, sendo obrigada a viver ao lado de um estranho… por causa de uma dívida que nem sei se é real. O silêncio dele foi mais c***l que qualquer resposta. Apenas se levantou devagar, como quem já esperava esse confronto. — Você saberá o suficiente... com o tempo. Fiquei ali parada, encarando-o, com o coração aos cacos e a alma em brasa. Aquela casa era uma jaula dourada — e eu, a prisioneira sem escolha. A noite caiu pesada sobre a mansão. Do lado de fora, tudo era silêncio, exceto pelo som leve dos grilos e o farfalhar das árvores. Por dentro, eu contava cada segundo — cada passo dos seguranças no corredor, cada suspiro abafado no escuro do meu quarto. O coração batia acelerado, mas a mente estava firme. Eu precisava sair dali. Nem que fosse só para respirar liberdade por alguns minutos. Planejei cada movimento. Esperei até que a movimentação diminuísse. Coloquei um casaco qualquer por cima da camisola e, descalça, caminhei até a varanda dos fundos. A janela estava destrancada, como eu havia deixado horas antes, discretamente. Abaixo da varanda, uma pequena elevação de pedras levava até o jardim. Arrisquei. Desci devagar, sentindo as pedras frias sob os pés, o vento cortando o rosto, e um fio de esperança renascendo no peito. Cheguei ao portão lateral. Estava trancado. Forcei devagar, até ouvir um leve “click” — destrancado. Por um instante, achei que conseguiria. Mas antes que eu pudesse abrir completamente, uma luz forte se acendeu atrás de mim. Virei com o coração disparado. Um dos seguranças, com rádio na mão, me encarava. — A senhorita não pode sair sozinha. — Eu só queria ir embora...— sussurrei, a voz falhando. Minutos depois, fui conduzida de volta como se fosse perigosa. No corredor, aquele homem já me esperava.
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