James.
Um calor quente e reconfortante me envolve por alguns segundos, antes de sumir por completo e dá lugar ao ar frio e húmido.
Abro os olhos e vejo de relance uma floresta, mas não consigo distinguir quase nada já que a minha visão está um pouco embaçada.
Como minha agilidade felina, tento ficar os pés no chão e aterrissar de pé, mas... Não há chão, ou pelo menos, não um em que eu consiga me equilibrar.
Como sou um i****a, pulei de cabeça, sem ao menos ter a ideia de questionar o que eu iria encontrar do outro lado.
Aquele negócio me levou para outra floresta, mas ao contrário da que eu estava, o terreno não é reto. Agora, estou suspenso no ar, me movendo super rápido na direção de uma encosta, já que o terreno é baldio e parece ser... Uma montanha.
Fecho os olhos com força e me preparo para o impacto, que não vai ser nada agradável. Se esse lugar não fosse tão íngreme, eu poderia cair de quanto ou me estatelar no chão, mas temo que não será isso que vai acontecer...
A parte superior do meu corpo é a primeira que toca o chão, o impacto é tão grande que se não tivesse coberto a cabeça com as mãos minha cara seria estraçalhada pelas pedrinhas e espinhos de alguns arbustos.
O resto do meu corpo vem logo em seguida, fazendo minhas costas doerem pra caramba. Com o impulso, começo à descer montanha à baixo rolando feito uma bola. Encolho o corpo e abraço meus joelhos, enquanto rezo para não bater em alguma árvore no caminho.
Os galhos dos arbustos rasgam minha camisa e meus braços, que começam à arder imediatamente. Um gemido de dor escapa da minha garganta, enquanto a descida fica mais e mais rápida.
Não ouso abrir os olhos, já que os galhos ou espinhos podem machuca-los, dificultando ainda mais tudo. Então a única solução é esperar, e torcer para eu sair vivo desça.
ONDE EU ESTAVA COM A p***a DA CABEÇA?! Achei o que? Que ia dá uma passadinha em um lugar totalmente desconhecido?! Acho que isso ia dá m***a!!
O que parece ser uma eternidade depois, para de rolar, ficando ali estirado no chão como um morto. Abro os olhos e encaro as copas das árvores, que são estranhas e tortas, enquanto sinto cada m****o do meu corpo doer, inclusive minha cauda, que parece ter acertado um arbusto espinhoso.
Gemendo, levanto-me devagar, amaldiçoado à mim mesmo, já que sou o único culpado por essa loucura. Olho para baixo e examino meu corpo, que está praticamente todo arranhado e sujo de terra. Aposto que vou ficar cheio de manchas rochas.
Minhas mãos estão todas rasgadas, fazendo gotas gordas de sangue saírem das feridas e caírem na terra. Solto um Choramingo baixinho, sentindo a dor aumentar.
Olho para cima, tentando ver achar um lugar onde o sol atravessa as folhas das árvores, mas essa floresta é tão densa que torna impossível a luz do sol penetra-la.
Merda. A luz poderia me ajudar com esses arranhões, antes de eu subir essa encosta e voltar para a casa do meu Vô. Não vejo a hora de sair desse lugar, que aliás... Que lugar é esse??
Olho para os lados, não achando nada que eu já tenha visto. As árvores são tortas e de muitos tipos diferentes, ao contrário das florestas que eu já vi, onde as árvores são retas e lindas. Aqui, Os galhos secos estão por toda parte, assim que as ervas daninhas, urtigas e folhas secas.
Fico olhando em todas as direções, procurando uma raio direto de luz do sol, por menor que seja, mas não há nada. Acho que as nuvens também não estão colaborando.
Começo à andar pelas redondezas, sempre à uns 20 metros de onde eu parei (de rolar), para achar a trilha de volta para o maldito portal.
É um fato: não há nada de interessante ou útil aqui.
Desisto de procurar luz e começo à andar na direção da encosta da montanha para ir até o portal e voltar para a casa do meu avô. Não faço ideia de onde estou, posso ter sido teletransportado para o outro lado do mundo ou simplesmente para o outro lado da floresta em que já estava (embora duvide disso).
Depois de caminhar uns dez metros na direção do pico da montanha, noto algo estranho e familiar na minha visão periférica.
Fogo, ou melhor, fumaça.
Viro à cabeça naquela direção e vejo uma pequena cortina de fumaça subindo preguiçosamente em direção ao céu. Estou à uns 50 metros de lá.
Eu posso usar o calor do fogo para me curar, mas não tenho certeza se ir até lá é uma boa ideia, já que se tem fogo, quem fez ele provavelmente pode está por perto, e talvez não seja amigável.
Incerteza toma conta de mim. Se eu ignorar a chance de me curar, vou ter que subir esse morro íngreme pra c*****o todo machucado e mancando, o que vai demorar muito. Mas se eu me curar, posso voltar para casa mais rápido.
Solto um grunhido baixinho, antes de mudar à direção da minha rota e começar à andar em direção ao fogo, desviando de cada galho e fazendo o mínimo de barulho possível.
(****)
Uns cinco minutos depois, estou à uns dez metros de distância de uma fogueira feita cuidadosamente. Uma barraca vermelha está montada bem perto da fogueira.
Noto que a barraca está aberta e não tem nenhum ninguém dentro, só uma garrafa d’água, um mochila e várias outras coisas.
Caminho bem devagarinho e na ponta dos pés até a fogueira, me abaixando ao lado dela e estendendo as mãos em direção ao fogo. Fecho os olhos e sinto o calor envolver meus dedos, fazendo a dor e a ardência sumir.
Não preciso nem olhar para saber que as feridas sumiram, deixando apenas a sujeira nas minhas mãos. Concentro-me um pouco mais e faço o calor envolver meu corpo inteiro, tentando não queimar as minhas roupas, que embora estejam rasgadas, prefiro usa-las do que ficar pelado.
Depois de alguns segundos, a maioria dos hematomas na desaparecem, me deixando quase 100% como antes.
Fico em pé e dou as costas para a fogueira, pronto para ir embora e nunca mais chegar perto de um portal.
Dou um ultimo olhar para a barraca, antes de começar à caminhar na mesma direção em que vim. Até que outra coisa me chama a atenção.
Olho para uma enorme árvore à minha esquerda e noto que tem alguém sentado no chão, com as costas contra ela. Dormindo.
Franzo a testa e dou um passo naquela direção, para examinar o híbrido.
Examino seu rosto até que...
AI. MEU. DEUS!! Isso não é um híbrido!! É um... Humano!
Dou um pulo para trás, sentindo o meu coração palpitar de nervosismo. Um humano! De verdade!
Observo o seu rosto novamente, as orelhas não são peludas, pontuadas ou de algum felino. Ele parece ter minha idade, tem um cabelo castanho levemente ondulado, que despenca sobre sua testa como uma cascata.
Ele não tem cauda ou nada do tipo, é tão... Completo. Uma espécie pura, com todas as características próprias e combinadas.
O garoto está em um sono profundo, sua respiração é calma e compassada. Noto que ele tem um livro aberto sobre o colo, como se tivesse lendo, antes de pegar no sono.
Os humanos são...fascinantes!! E a curiosidade me faz dá um passo à frente para vê-lo mais de perto.
(***)
Caleb.
Depois de mais uma semana exaustiva naquele inferno, tudo o que eu queria era me livrar daquela cidade, Mesmo que por apenas algumas horas. Acampar foi a primeira solução que apareceu na minha cabeça, então simplesmente peguei a barraca e alguns suprimentos e saí de casa, sem falar nada para minha mãe, ela está sempre bêbada mesmo, provavelmente nem notou que eu sumi.
Passei o dia quase todo estudando sem parar, para ter pelo menos uma chance de me livrar daquela casa, daquela escola, daquela cidade e dessa vida em si.
Não sei a hora exata em que o sono me dominou, tudo que sei, é que o tronco da enorme árvore pareceu tão confortável... Ou melhor: suportável.
As horas em claro que passei no trabalho podem ter me ajudado à eu pegar no sono tão rápido.
Agora, não sei se ainda estou dormindo ou simplesmente zonzo e com os olhos fechados, mas estranhamente, consigo ouvir o crepitar da fogueira e o som de pequenos galhos se quebrando, como se tivesse algo caminhando bem perto de mim. E isso me faz franzir a testa e abrir os olhos bem devagar.
A primeira coisa que noto, são o par de olhos estranhamente alaranjados, com pupilas verticais iguais a de gato, me encarando de volta. A segunda, é as orelhas peludas saindo do emaranhado de cabelos Ruivos, que combinam com o rosto da pessoa que está à centímetros de mim.
ESPERA, O QUÊ?! Não tenho tempo de assimilar tudo isso, antes de dar outra olhada para ter certeza se vi direito.
Sim, vi.
- AAAAH!!!- o terror puro e genuíno escapa de em formato de um grito, que quebraria qualquer janela de vidro.
A coisa que estava praticamente em cima de mim da um pulo para trás, possibilitando-me ver a sua cauda laranjada e peluda.
Ai. Meu. Deus. Essa coisa tem cauda!!
- AAAAAAAAH!!- outro grito escapa da minha garganta, ainda mais alto e agudo que o de antes de levantar desajeitadamente, fazendo o livro que estava no meu colo voar longe. Olho para o chão e pego a primeira coisa que vejo na minha frente para usar de arma: um galho grande e da espessura do meu braço.
- VADE RETRO SATANÁS!!!- grito, tentando apunhalar esse troço com o pedaço de madeira, mas a coisa é ágil pra c*****o e desvia sem problema nenhum, me lançando um sorriso, como se estivesse se divertindo com o meu desespero.
- XÔ DEMÔNIO!!.VOLTE PRO INFERNO OU SEJA LÁ DE ONDE VOCÊ TENHA SAÍDO!!- isso soou como se eu tivesse implorado pra ele ir embora ao invés de uma ordem. Me amaldiçoo internamente por isso.
Tento acerta-lo novamente, de novo, de novo e de novo, mas o demônio ruivo desvia de tudo.
- SOCORROOOOOO!!!- grito inutilmente, já que não há ninguém à quilômetros. Minha voz já está falhando, de gritar tão alto.
Depois de tentar acertar esse troço mais uma centena de vez, desisto. Meus braços estão doloridos, e é impossível acerta-lo.
Deixo o galho cair no chão, antes de sentar no tronco de uma árvore caída ali perto, esperando minha morte, ou algo pior. Estou tremendo igual uma vara verde.
A coisa caminha em minha direção, com uma agilidade surpreendente. Ele senta no tronco também, ficando à um metro de mim.
Meu coração está batendo tão rápido que eu acho que posso atacar um infarto à qualquer momento.
- já acabou?- pergunta a coisa, com uma voz brincalhona.
- v-você fala??- pergunto espantado, olhando na sua direção, ainda com um medo tremendo.
- bom... Acho que sim né?- responde a coisa, devolvendo meu olhar, focando seus olhos laranjados em mim.
- o-oque você é??- não sei de onde tirei coragem para perguntar isso, já que tudo que eu queria agora era sair correndo o mais rápido possível.
- um demônio ué. Estava andando por aí procurando comida, até que achei você dando sopa por aí. Carne humana não é a minha preferida, mas dá pro gasto.- termina ele, fazendo eu querer sumir do mundo. Tento me levantar e correr, mas minhas pernas não me obedecem, apenas ficam tremendo sem parar. Tenho quase certeza de que vou me mijar à qualquer momento.
Olho para a coisa novamente, esperando o meu fim, e que ele seja rápido e indolor.
Mas tudo que ele faz é me encarar por alguns segundos, antes de cair na gargalhada.
- você ficou branco igual papel!!- murmura, antes de cair na gargalhada de novo, levando as mãos até a sua barriga, sob a camisa que está suja e com rasgos.
Mesmo com ele gargalhando sem parar, o medo em mim não diminuiu. Minhas pernas ainda estão tremendo.
- eu estava brincado okay??- diz ele, ao notar que eu continuo paralisado de medo.
- o-oque você é??- a pergunta escapa dos meus lábio novamente.
- affs. Os Humanos são todos assim?? Eu sou um híbrido, de raposa. Não precisa ter medo de mim, eu não mordo.- fala, me dando um sorriso gentil, revelando seus caninos brancos e grandes, que dizem o contrário.
- v-você t-tem nome??
- duuuh. Claro. Me chamo James, e você??- ele levanta do troco e caminha até mim, estendo a mão para logo em seguida.
Fico meio receoso em apertar a sua mão, mas ao ver o sorriso gentil e livre de qualquer maldade em seu rosto, decido estender a mão e apertar a sua.
- m-me chamo Caleb.- digo, antes de puxar a mão rapidamente.
- prazer em conhece-lo Caleb.- o demo... Híbrido senta ao meu lado no tronco, enquanto sua cauda peluda balança lentamente.
- onde você mora???- tento puxar assunto, ainda com um certo medo.
-bom... Eu não sei explicar direito, mas é meio que uma dimensão paralela com a sua.- explica ele, o que me faz usar todo meu alto controle para não perguntar se é um lugar chamado inferno.
- e como você veio parar aqui?? No meu mundo?- questiono, virando a cabeça em sua direção para encara-lo.
- eu... Meio que pulei em um... Portal que apareceu em minha frente.- diz, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- como é lá??- decido não questionar o lance do portal, já que se tem um garoto.com orelhas peludas e cauda ao meu lado, dizer que não acredito na história do portal seria burrice.
- ah. É normal, estou à menos de meia hora nesse mundo e não tenho com o que comparar.
- e lá... Os outros são como você?- digo, me referindo à suas partes animalescas.
- de certa forma sim. Mas temos diferenças com relação as... Partes não humanas. Assim como eu tenho partes de raposa, ou outros tem artes de qualquer outro animal, cachorro, gato, esquilo...
- aaah.- concordo, enquanto balanço a cabeça para cima e para baixo sem parar, tentando assimilar o que ele é e tudo que ele disse.
-bom... Foi bom te conhecer Caleb, mas eu tenho que voltar para meu mundo. Meu Vô deve está preocupado comigo.- ele levanta e começa à caminhar na direção da montanha.
- e onde fica esse... Portal??
- lá em cima.- ele ponta para a direção do pico da montanha.- eu meio que desci rolando até aqui, ppr isso minhas roupas estão rasgadas e sujas.
- aah.- confirmo novamente, parecendo um bobalhão.
- bom... Então tchau. Foi bom conhecer você.- ele dá de costas para mim e começa à caminhar.
- eu vou com você até lá.- ofereço, já começando à caminhar até ele. A curiosidade de ver esse portal com meus próprios olhos me venceu.
- hum... Okay.
- você sabe onde fica? Quer dizer... Já que está aqui à apenas alguns minutos, pode ter ficado desorientado.- argumento. Embora eu conheça essa floresta como a palma da minha mão, não quero ficar andando por aí sem rumo.
- é fácil, basta seguir a trilha que eu deixei quando desci rolando.- diz ele, com a voz divertida e um sorriso no rosto, que faz eu abrir um pequeno sorriso também.
- okay, vamos logo. Eu também tenho que voltar para minha casa logo, já está quase anoitecendo.- digo, olhando de canto de olho para ele.
- anoitecendo?! Mas era de manhã quando eu pulei no portal!!- diz ele espantado.
- você deve ter desmaiado ou...
- não! Eu lembro perfeitamente. Tinha acabado de café da manhã e ir para o pomar do meu avô.- a sinceridade que ele mostra ao falar me faz acreditar nele.
- okay okay. Mas não se preocupe com isso agora.- murmuro, então ele assente e começa à andar rapidamente, fazendo eu andar mais rápido também.
(****)
Depois de caminhar uns 20 minutos subindo a montanha, ele para e fixa seu olhar num ponto fixo. Seu rosto pálido e noto que suas mãos estão tremendo levemente.
- o que foi? Não há nada aí.- digo, olhando novamente para onde ele encara sem parar, como se existisse algo além de ar.
- e-esse é o problema. O portal sumiu.- gagueja ele.