Diante de Hades se encontravam os três juízes do inferno, com os rostos baixos e aura séria. Nenhum deles sabia o que se passava pela mente de seu senhor, no entanto mais temerosos estavam com a declaração de Aiacos.
- Você tem alguma prova do que diz? – O deus finalmente se pronunciou depois de alguns instantes de silêncio.
- Prova material? Não – Respondeu Garuda – Apenas uma mensagem que me pediram para passar.
- Prossiga – O rosto de Hades era como um bloco de gelo, fazendo até as chamas do Flaetonte congelarem.
- O deus do tempo me deixou com as seguintes palavras:
“Meu querido filho, eu achei esse lindo e adorável bebê por aí, então resolvi deixar você cuidar dele.
Obs.: Ele é órfão e não tem família, por isso nem pense em devolvê-lo.
Obs. 2: É de máxima importância que você cuide dessa criança pessoalmente venho buscá-lo em vinte anos.
Com amor, papai”
Assim que Aiacos terminou de falar um ar frio rodou pela sala. O silêncio no local era sufocante e quando os espectros acharam que seu senhor iria ter um ataque de fúria uma risadinha doce e infantil soou no salão.
Pandora chegava carregando a criança que acabara de tomar banho. O garoto estava vestido em uma adorável versão pijama da armadura de Minos, embora ninguém soubesse dizer aonde a mulher havia conseguido aquela roupa.
- Meu senhor! A criança já foi limpa e alimentada – Notificou Pandora fazendo uma leve mensura com o garoto ainda no colo – O que faremos com essa criança?
Diante da pergunta Hades entrou em um profundo estado de contemplação enquanto o encarava o garoto. Tão inocente quanto possa ser uma criança o bebê apenas encarou Hades de volta sorrindo e ocasionalmente fazendo barulhos estranhos com a sua pequena boquinha.
Um tempo passou e antes que o senhor dos mortos pudesse dar o veredicto a pequena coisa estendeu os gordos bracinhos e com a boca sem dentes passou a balbuciar palavras desconexas, como se pedindo algo até que todos no salão puderam ouvir claramente o garoto gritando “Papa”.
Boom
Hades mandou para o Tártaro as suas contemplações. Levantando-se rapidamente do trono o deus foi em direção a Pandora e tirou-lhe dos braços a pequena criança que sorriu feliz ao ter seu pedido atendido.
- Como meu pai quer que eu cuide dele, assim o farei – Falou o deus com o semblante sério – A partir de hoje e até que Cronos venha buscá-lo ele será meu filho e ninguém têm permissão para dizer o contrário.
Com a declaração do senhor dos mortos nenhum dos presentes na sala ousaram dizer meia palavra, apenas se curvando em reconhecimento ao seu jovem mestre. Com a criança ainda em seus braços o deus dos mortos propagou seu cosmo por todo a criação, do céu ao inferno, notificando a todos os deuses e criaturas sobre-humanas que o inferno ganhara um pequeno príncipe.
Zeus e Poseidon quase infartaram assim que receberam a notícia, Athena ficou levemente preocupada, Cronos sorriu feliz que seu plano estava funcionando e quanto aos outros, bom.... surpresas fazem parte da vida.
De volta ao salão. Os deuses gêmeos estavam diante de Hades atônitos e sem palavras, depois que toda a situação fora explicada eles apenas puderam se resignar e aceitar seu jovem príncipe.
- E qual vai ser o nome meu senhor? – Para a surpresa de todos quem levantara a questão fora Radamanthys que do começo ao fim não tecera opinião ou comentário.
- O que vocês acham? – Devolveu a pergunta o senhor dos mortos.
Não culpem Hades por isso, até umas duas horas atrás ele jamais imaginara ter um filho e por muito menos passar pelo trabalho de nomear uma criança. Nesse momento o imperador das almas era um completo pai de primeira viagem.
- Que tal Shun?! – Sugeriu Thanatos atraindo olhares incrédulos para ele – O quê?!
- Na verdade eu também acho que seria uma boa ideia de nome – Se pronunciou Minos – Mesmo que ele seja um cavaleiro de Athena esse jovem ainda é a alma mais pura da terra e foi o receptáculo do nosso senhor. Não vejo problema em nomear o pequeno príncipe assim.
- Muito bem-disse Hades dando de ombros – Vai ser Shun.
A surpresa foi geral no salão, pois todos esperavam que o deus se irritasse com a proposta. A realidade era que Hades não ligava a mínima para o que acontecera na guerra santa. Como deus dos mortos e agora pai ele tinha muito o que fazer para ficar se importando com as brigas fúteis junto a sua sobrinha. O nome era bom e ninguém ali tinha outra ideia inclusive ele mesmo, então por que não utilizar a que já estava ali, não era como se aquilo fosse m***r alguém ou jogar a pessoa no tártaro.
Com o nome já decidido Hades pegou a criança e seguiu em direção a sua mansão nos elísios. Convocando Calisto uma das muitas ninfas que viviam sob seus domínios como babá da criança. Enquanto as ninfas organizavam a morada para receber o bebê o novo papai resolveu apresentar o lugar para o filho.
- Esses são os Elísios – Hades falava com a criança em tom baixo – Por enquanto você ficará por aqui, quando começar a andar eu lhe mostrarei o inferno.
Embora o deus não soubesse se a criança o entendia, não se importava em continuar falando com o garoto. Era uma questão deveras trivial para ele. Quanto ao infante, em sua simples inocência apenas sabia que gostava da pessoa que o levava nos braços.
Enquanto passeava pelo local muitas almas e outras criaturas saldavam o senhor dos mortos em respeito e reconhecimento ao que o deus cumprimentava de volta sempre frio e bem-educado. No entanto o que realmente chamava a atenção dos moradores daquele local era o pequeno pacote vestido de grifo nos braços do senhor dos mortos e claro a estranha jardineira verde que ele aparentemente esqueceu estar vestindo.
Depois de algum tempo caminhando o deus sentiu uma leve respiração em seu pescoço, encarando a coisinha em seus braços o viu dormindo tranquilamente com a cabeça encostada em seus ombros. Inconscientemente Hades sorriu e acariciou levemente a cabecinha do garoto.
Sentindo-se um pouco cansado também resolveu por voltar a sua mansão e descansar. Uma vez que Calisto notou o retorno do seu senhor, se prontificou a tomar conta da criança, mas fora negada. Hades o levou ao seu quarto e embora deuses não precisassem dormir, os aposentos dele continha uma enorme cama de casal coberta de travesseiros.
Fazendo uma pequena cerca com almofadas o deus descansou a criança no local se deitando ao lado para descansar e velar o sono do infante.
Um deus dormindo junto a um bebê. De alguma maneira isso fazia uma bela pintura, talvez pelo os dois serem bonitos ou pela harmonia que podia ser sentida entre eles, mas isso não importa. Naquele dia Hades não fora ao tribunal deixando os juízes cuidarem de suas atribuições, e nesse mesmo dia ele encontrou algo pelo qual valesse a pena zelar mais do que o trabalho ou seu jardim morto.
Hades passou a zelar por outra vida. Uma vida em um mundo Morto.