No jardim de Hades

1303 Palavras
Hades era um deus muito tranquilo. Por mais que as más línguas dissessem que ele era impiedoso, pode-se dizer que ele apenas fazia o que lhe era visto como o seu trabalho. O trabalho de senhor das almas pode ser bastante estressante, ainda mais se você está lidando sempre com o que há de pior da humanidade. Se no caso a pessoa for um workaholic como Hades fica compreensível a vontade de exterminar a humanidade. Visto a natureza estressante do trabalho e o fato de não poder mais provocar guerras santas para desestressar, o senhor do submundo teve que encontrar um novo passatempo que não exigisse mortes, torturas, métodos de coação questionáveis e qualquer coisa que pudesse acabar no acidental extermínio da humanidade. Assim como um deus de natureza tranquila e morbidamente amável Hades resolveu começar a plantar flores. Como flores são o que não faltam nos Elíseos ele resolveu fazer isso no inferno. Desse modo em um pequeno vale perto da quinta prisão, na qual havia um pequeno afluente do Aqueronte, Hades fez seu jardim de plantas mortas. Nada vivo pode nascer no mundo dos mortos e isso incluem as flores e o deus da morte não pode trazer a vida, dessa forma nada que Hades plantava florescia. Mas não pense que isso o irritava ou o impedia de continuar com a sua mórbida atividade. Apesar de nada crescer naquele jardim, todos os dias o senhor dos mortos iria colocar uma jardineira verde, com botas de borracha e um par de luvas de jardinagens bordadas e iria cuidar de forma diligente de seu jardim. Quem via aquela cena sentia dificuldade em associar aquele homem ao senhor dos mortos, embora olhando o que ele plantava não fosse difícil de presumir. Foi dessa forma que Hades começou mais um dia, antes de partir para os seus afazeres como Deus. Depois de pegar o seu material de jardinagem e cuidadosamente organizar as suas coisas, partiu para o jardim acompanhado de Minos que as vezes gostava de ajudá-lo. Enquanto regava o que eram para ser tulipas, a estrela celeste da nobreza escuta algumas pequenas lamurias, que pareciam vir de uma criança. Estranhando o barulho Minos passa a procurar a origem do som. Atrás das videiras mortas de eucaliptos, enrolado em uma fina manta azul e cercado por uma luz rósea se encontrava um pequeno bebê de grandes olhos verdes, pele branca e macia como algodão e um pequeno tufo de cabelo verde cobre na cabeça. Minos ficou sem reação. m*l podendo acreditar no que seus olhos lhe mostravam. Como poderia haver um bebê no mundo dos mortos? Não, essa não era a parte mais absurda. Por que haveria um bebê VIVO no mundo dos mortos? Antes que o espectro pudesse tomar qualquer decisão quanto a criança em sua frente, a pequena coisinha se pôs a chorar de forma compulsória. O senhor dos mortos que estava calmamente regando seus hibiscos mortos com as águas flamejantes do Flaetonte acabou por ter sua atenção tomada pelo choro estridente do garoto. Qual não foi a surpresa de Hades ao seguir o choro e encontrar seu espectro tentando de forma desajeitada acalmar a criança que apenas chorava mais. Como deus do submundo parte do trabalho de Hades era julgar as almas, não dá para fazer isso sendo um santo misericordioso, daí vem a reputação de implacável do senhor dos mortos. No entanto, não era porque Hades não era a pessoa mais misericordiosa do mundo que ele seria um monstro. Olhando a criança chorando de forma lamentável nos braços de Minos, ele sentiu pena. Com o cenho franzido e liberando uma aura um tanto quanto assustadora, o senhor dos mortos se aproximou do espectro e tomou a criança dos braços alheios, acolhendo-o em seus próprios. O garoto parecia sentir a mudança, pois uma vez que se viu confortavelmente envolto no abraço do senhor das trevas deixou de chorar. Deus e criança se encararam. Ambos os olhos verdes. Um mostrava uma pureza e simplicidade vividas e o outro era nublado como uma tormenta, cheio dos vícios e cansaço da imortalidade. De alguma maneira estranha os dois pareciam combinar e se entender. A jardineira que Hades usava enaltecia seus músculos, mas como deus dos mortos sua pele era fria como a de um cadáver, em contraste com a criança que tinha uma pele tão terna e quente, isso dava ao senhor dos mortos um estranho receio. Ele sentia como se pudesse machucar a criança em seus braços ao menos movimento ao mesmo tempo em que queria apertá-lo mais para lhe sentir o calor e mantê-lo seguro do mundo. Era um sentimento novo e estranho para o senhor dos mortos, que não sabia muito bem como encarar essa nova leva desconhecida de emoções. Perdido em pensamentos Hades foi levado de volta a realidade ao sentir um forte puxão em seus longos cabelos negros. A coisinha em seus braços estava comendo o seu cabelo. - Ele deve estar com fome – Depois desta constatação encarou Minos – Descubra como essa criança veio parar aqui e mande Pandora trazer comida do mundo dos vivos para ele......... e quem sabe algumas roupas também. Abandonando suas ordens, Hades foi embora antes que o espectro tivesse a chance de responder, seguindo rapidamente para a Giudecca. Uma vez em sua sala colocou o garoto em seu trono e passou a avaliá-lo com mais cuidado. A criança mordia o pé e se contorcia toda como uma enguia, ele parecia estar se divertindo bastante, sem aparente noção do local no qual estava. Mordendo o manto no qual estava enrolado Hades pode notar os pequenos dentinhos que estavam crescendo, de forma inconsciente ele acabou sorrindo. Era difícil não sorrir com aquela coisinha fofa a brincar na frente dele. Muitos não sabiam, mas Hades adorava crianças e sempre quis ter uma para si. “Talvez essa fosse a minha chance!” – Pensou o deus, mas logo descartou a ideia considerando que talvez o garoto tivesse pais, além de que seria um absurdo ele adotar uma criança que era claramente humana. Passos soaram fora do salão chamando a atenção de Hades que viu Pandora entrando rapidamente no salão com uma cesta nas mãos. Atrás dela Minos, Aiacos e Radamanthys seguiam juntos e pareciam bastante nervosos. No momento em que os quatro chegaram perto do trono, prestaram reverencia ao seu senhor, sendo rapidamente dispensados por Hades. Pandora se aproximou e deus entregou a ela a criança para que fosse limpa e alimentada. Assentido rapidamente em reconhecimento aos seus novos deveres a mulher se retirou para uma sala lateral que ficava do outro lado do salão. Enquanto Pandora banhava o infante, Hades se dirigiu a seus juízes em busca de saber qual era a situação. - Então Minos? – Questionou o senhor dos mortos com seu semblante sério – Como uma criança viva entrou no submundo? - Isso... meu senhor.... – Minos olhava para o chão sem saber o que explicar para o seu mestre, buscando com o canto do olhar a ajuda dos irmãos de armas. - Meu senhor essa situação – Aiacos tomou a palavra abaixando a cabeça – Creio ter a ver com o senhor do tempo Cronos. Ouvindo as palavras de Garuda o senhor dos mortos não pode deixar de franzir o cenho levemente, sentindo os princípios de uma grande dor de cabeça começar a se formar. “O que infernos esse velho está aprontando?” Em algum canto do espaço e tempo Cronos espirrou em cima de sua xícara de chá. - Alguém deve estar falando m*l de mim – Declarou o deus, chamando a atenção da sua convidada. - Acha que vosso plano dará certo? – Inquiriu a deusa da vingança com o seu rosto sempre sério. - Nunca que um plano meu deu errado – Respondeu rindo de forma maligna.
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