Pré-visualização gratuita Prólogo
A lápide fria arrepiou meu corpo assim que as pontas dos meus dedos a tocaram. A chuva fina fazia com que as letras parecessem borradas e m*l escritas.
Arthur González
Pai, amigo, filantropo
Havia sido ideia de Henry adicionar as três palavras abaixo de seu nome. Eu não me opus, uma vez que não tinha cabeça para cuidar de nada. Eu era só uma menina. Uma menina inocente.
Dei a volta e caminhei para a saída do cemitério, me encaminhando para onde meu carro estava parado. As ruas de Los Angeles estavam escorregadias, o que não era muito frequente. Dirigi um pouco mais devagar que o normal, o que me fez demorar um pouco mais para chegar até a lanchonete que era do meu pai e que agora tem o nome Smith's no letreiro. Phillip Smith era um senhor de idade que fez uma boa oferta pela lanchonete logo assim que papai morreu. Eu não queria ficar com aquilo, então Henry lhe vendeu de bom grado. Confesso que a comida é mais gostosa agora com o novo dono.
— Senhor Smith. — o cumprimento ao entrar no local e tirar a touca, sacudindo os cabelos levemente molhados
— Pequena Lucy! — ele sorri ao me ver
— Como está a senhora Smith? — pergunto indo até a geladeira e pegando uma lata de refrigerante de laranja
— Uh, ela está bem. Está lá dentro. Vivian! — ele grita da janela que dá para a cozinha — Vivian, querida, Lucy está aqui.
— Já vou, meu bem! — ela grita de volta
— Sentimos sua falta. Fazem dias que você não vem aqui. — ele diz enquanto eu pego dois sacos gigantes de batata e algumas jujubas
— É, eu fiquei em casa esses dias. — dou de ombros e então coloco minhas mercadorias no balcão
— Uh, deixe-me vê-la! — Vivian sai da porta que dá para a cozinha e me abraça gentil — Quanto tempo! — lamenta exagerada — Está tão magrinha.
— É, eu tenho comido pouco. — digo sem jeito
— Comprando besteira de novo, hã? — ela finge braveza ao ver seu esposo embalando minha mercadoria
— Deixe a menina, Vivian. — Phillip pede
— Espere aqui. Eu fiz uma travessa imensa de macarrão com queijo. Vou lhe preparar uma marmita.
— Senhora Smith, não precisa. — tento argumentar
— Sem desculpas! Não aceito não como resposta. — ela entra na cozinha de volta
— Essa aí é mais teimosa que um touro. — Phillip brinca
— Vocês sempre me tratam muito bem. — dou o melhor sorriso que consigo e ponho uma nota de dez dólares em cima do balcão
— Querida, não precisa. Por conta da casa. — empurra a nota
— Eu insisto! — empurro a nota de volta
Ele pega anota e desconta o valor correto, me devolvendo alguns centavos de troco. Coloco no bolso do casaco e pego a sacola com minhas compras. Logo Vivian retorna da cozinha com um pote enrolado num pano de prato.
— Aqui está! — me entrega
— Não precisava. Obrigada, senhora Smith. — eu lhe sorrio e então o telefone do local começa a tocar
— Phillip, atenda o telefone. — ela diz — E se for alguma fritura, diga que a cozinha está fechada. — orienta
— Sim, amor. — Phillip se afasta para atender ao telefone do estabelecimento
— Como estão as coisas na sua casa, hum? — ela sussurra
— Estão bem. — minto
— Henry tem te tratado bem?
— Ele faz o melhor que pode. — digo sem jeito e evitando contato visual
— Oh, querida! — me abraça — Daqui um mês é o seu vigésimo primeiro aniversário. Tudo vai melhorar.
— Eu espero.— murmuro
***
Uma música antiga de um dos discos antigos de papai era ouvida. Eu abri a porta dos fundos e guardei minhas compras no armário da cozinha. O cheiro forte de cigarro me embrulhava o estômago.
Caminhei em passos leves para a sala e vendo Henry sentado na poltrona que, um dia, foi a preferida de meu pai. Ele tem um cigarro entre os dedos e sua boca solta fumaça. Seus pés grandes estão dentro da bota preta e ele está usando uma calça jeans e blusão preto.
— Lucinda.
Sinto um arrepio atravessar meu corpo quando o ouço falar meu nome com a voz carregada de malícia. Olho para as janelas e as percebo completamente fechadas, causando a pouca iluminação do cômodo que tem apenas dois abajures acesos.
Henry se levanta e caminha com passos pesados em minha direção. Isso me apavora, mas não tenho coragem de recuar. Sei que será pior.
— Você saiu cedo. Já são quase oito. — ele dá um trago em seu cigarro e então solta a fumaça em meu rosto
— Passei o dia no cemitério. — minha voz sai num fiapo
— Quer mesmo que eu acredite nisso, querida?
— Por favor, eu estou dizendo a verdade. — digo olhando para baixo
— Olhe para mim, meu anjo. — seus dedos podres tocam meu queixo, fazendo-me erguer a cabeça e encará-lo — Vou ensiná-la a não mentir para mim.
— Por favor, não. Eu ainda nem me curei dos machucados. — imploro sentindo a garganta fechar, causando a familiar sensação de choro
— Sh! — aperta meu pescoço — Você precisa de uma lição.
Em questão de segundos o cigarro de sua mão vai parar em meu colo e a ponta acesa é pressionada contra a pele exposta pela blusa. Eu me contorço de dor e solto um miado sofrido, mas isso não o faz parar. Nada o faz parar.
Sua mão sai de meu pescoço para meus cabelos e então ele vai me arrastando até chegarmos no porão da casa que é para onde ele me leva sempre. Segundo ele, daqui as pessoas lá fora não podem nos escutar e se intrometer. Eu grito quando ele me joga contra o chão, obrigando-me a tirar a roupa. Eu demoro a obedecer, o que me custam dois chutes na costela, onde já haviam machucados anteriores. Tiro o casaco e então ele começa a rasgar minha blusa ainda no corpo. É questão de pouco tempo até que eu esteja completamente nua e sendo possuída a força pelo monstro sem escrúpulos que um dia foi um dos melhores amigos do meu pai.
Eu grito, esperneio, choro. Nada disso o faz parar. Nada.
Eu fecho bem os olhos e, mais uma vez, tento fazer um pedido à Deus. Sei que ele e eu não temos nos entendido muito bem nos últimos cinco anos, mas eu suplico com todo o pouco de fé que ainda me resta.
Senhor, por favor! Tenha piedade!
Tenha piedade!
Eu ouço estrondos e xingamentos. Henry é arrancado de cima de mim e então eu abro os olhos. Tem um homem em cima dele socando-o sem parar. É o tio Luke, amigo do papai. Amigo de verdade.
Sua filha Shaune me cobre com um lençol e me puxa pra longe deles completamente apavorada. Eu fico em estado de choque sem saber o que fazer. Shaune chora me abraçando e Luke parece matar Henry com seus punhos. Quando há sangue por todo o chão, Luke tira uma arma da cintura e aponta para ele, mesmo sem que Henry tenha como reagir.
— Você está preso, seu filho da mãe!