Los Angeles - Califórnia
O despertador tocou e ecoou uma música escrota na minha mente. Ainda de olhos fechados, estiquei o braço e apertei o botão que desligava o rádio relógio.
Abro os olhos.
Chuto as cobertas e saio da cama sonolenta, cambaleando pelos cômodos. Tropeço numa caixa de papelão m*l embalada e praguejo baixinho enquanto observo poucas coisas caírem dela, como o monte de exames que fiz após uma cirurgia, há oito anos.
— Parece que você está grávida, senhorita González. — minha ginecologista me olha apreensiva
— O que? Claro que não. Isso é impossível. — protesto
— Lucy, eu sei que isso parece terrível.
— Não! — me levanto alterada — Você não sabe como é. Só porque você cuida de meninas fodidas como eu, não quer dizer que você sabe.
— Isso não é o fim do mundo, querida. — Luke me olha — A gente pode... Não sei. — ele parece atordoado
— O quê? Apagar cinco anos da minha vida em nove meses? Sabe como vai ser quando eu olhar pra cara dessa criança? Eu não quero isso!
— Lucy!
Corro. Sem direção nenhuma. Vago pela rua. Não sei o que pensar. O meu estado não permite o aborto, eu faço vinte e um daqui um mês. Não posso carregar comigo algo que vai me lembrar os piores anos da minha vida.
Eu chego na casa de tio Luke, onde estou morando por um tempo. Passo pela cozinha e o faqueiro me chama atenção. Puxo uma das facas afiadas que tio Luke usa para o churrasco. Ouço um barulho na porta. Vou pro banheiro.
Com a porta trancada, analiso meu reflexo no espelho e então a voz grave de Henry surge em meu ouvido. Ele dizia que eu nunca o esqueceria. Que meu corpo seria pra sempre dele. Isso me enche de ódio. Ergo o braço direito e então o abaixo com rapidez e força.
— Lucy! — alguém me grita lá fora
A dor me dilacera. Sai muito sangue. Pelo espelho, vejo minha roupa ficar manchada de sangue.
A porta do banheiro se parte em dois e então Luke está me encarando. Eu puxo a faca de volta e então minhas mãos tremem, assim como minhas pernas. Eu caio e o sinto me amparar. Me rendo a escuridão que ameaça me engolir, pois não consigo suportar a dor.
Reviro os olhos e chuto a caixa longe.
Visto a calça jeans de lavagem clara, uma blusa branca, prendo o cabelo num r**o e então começo a lacrar as caixas que ainda faltam.
A Califórnia sempre foi o meu lar. Quer dizer, depois que saímos da República Dominicana, quando eu tinha cinco meses de vida. Los Angeles nos acolheu com amor e carinho durante todo esse tempo. Eu sou filha de Arthur González. Somente Arthur González. Minha mãe foi uma namorada que ele teve que foi gentil o suficiente para lhe ajudar a realizar o sonho de ser pai. Eu nunca soube o nome dessa namorada, mas ele dizia que ela era incrível. E que não se viram mais após meu nascimento.
Eu não sei direito se meu pai já teve uma vida normal. Ele era piloto de stockcar junto com meu avô, que faleceu após bater contra um muro a mais de 180km/h. Meu pai estava junto. Ele tinha uma marca na barriga. Disse que foi a marca que a trava do volante fez quando atravessou o corpo dele. Sobreviveu por um milagre.
Meu pai tinha uma lanchonete que herdou da minha avó e acumulou grana correndo em lugares impossíveis. Foi assim, vivendo loucamente que conheceu os amigos leais que tinha. Logan Xavier, ex major da força tarefa aérea dos EUA; Ian Ellis, ex-piloto britânico de stockcar; e Luke Hobbs, agente especial do Serviço Diplomático Americano, lugar onde trabalho agora. Esse grupo também conheceu Henry Scott, um detetive falido que perdeu a esposa e a filha num terrível acidente de carro. Quando meu pai morreu, ele era o único por perto e fez questão de ficar comigo. É, eu não costumo ter muita sorte.
Eu nunca morei fora da Califórnia, mas agora esse estado incrível parece me sufocar. Achei que soterrar tudo o que eu sentia com trabalho me faria bem, mas talvez a doutora Linda Jones, minha analista, estivesse certa. Não dá pra fugir dos problemas.
Apesar das barras que passei no DSS, não posso negar que gosto. Sangue, balas, fúria total. Isso me serviu por anos. Até eu descobrir o esquadrão de Manhattan, em Nova York. A Unidade de Vítimas Especiais é especializada em crimes especialmente hediondos. Soube que a sargento de lá é a melhor no que faz e faz isso há dezessete anos. Pensei ter encontrado o meu lugar no mundo. Preciso ajudar sobreviventes.
— Shaune é assistente de um promotor em Chicago. — Luke diz apoiando as últimas caixas na mesa do meu novo apartamento Studio em Nova York
— Assassinatos? — pergunto tirando um estilete do bolso da calça — Peter Stone?
— Ahã. Já ouviu falar dele?
— Quando nos mandaram caçar um tal de Adam Smith, não lembra? — passo o estilete numa caixa, abrindo-a e tirando duas canecas de dentro
— Uh, no ano passado? — ele faz uma careta enquanto separa as caixas de acordo com o que está escrito nas laterais — Acho que lembro. Aquele arrogante de merda.
— Adoraria chutar o traseiro dele. — comento colocando a água do café pra ferver
— Você chutou. — ele ri e eu acabo rindo também
— Em minha defesa, ele não parava de falar aquelas merdas de advogado.
— Merdas de advogado? — Luke ri — Não era você que queria se formar nisso?
— Há quanto tempo? Quinze anos? — dou de ombros e ouço sua risada
— Vou sentir sua falta.
— E eu a sua. Você foi o melhor parceiro que pude ter.
— E o único que não pode bater. — brinca
— Você é um brutamontes. — implico passando o café
— E você, uma enfezada. O que espera de Nova York, Lucy?
— Muitas prisões, justiça. — dou de ombros abrindo um pacote de canela
— Estou falando de vida pessoal. Não pensa em se apaixonar? Se casar? Construir uma família.
— Você sabe que não. — dou uma das canecas de café para ele
— Precisa se curar, Lucy.
— Tô tentando, tio Luke. Tô tentando.
Unidade de Vítimas Especiais, Cidade de Nova York - Nova York
— Preciso da atenção de todos, por favor. — Benson para no meio da delegacia, chamando a atenção de seus detetives
— A última vez que você nos reuniu assim foi pra dizer que teríamos um plantão de setenta e duas horas. — Rollins murmura se aproximando
— Diga que tem uma notícia boa. — Carisi se senta roubando umas batatinhas do Fin
— Vamos saber o que é quando a deixarmos falar. — Fin revira os olhos
— Eu pedi um novo detetive. — Olivia comunica
— Conseguiu? — Amanda a olha
— Sim. Lucinda González, vinte e nove anos. — a sargento diz
— Literalmente novata. — Tutuola comenta
— Ela acabou de sair da academia? — Sonny pergunta
— Não.
— Dormiu com alguém pra já estar aqui.
O comentário de Amanda Rollins faz com que uma nuvem n***a paire sobre a cabeça de todos. Foi extremamente machista e a sargento Benson não parece contente com isso.
— Não que seja da sua conta, Amanda, mas Lucinda é ex-sargento do Serviço Diplomático Americano. Ela largou o DSS porque quer ajudar mulheres que, assim como ela, sofrem ou sofreram abuso s****l. — Olivia explica e o silêncio chega a ser constrangedor
— Então ela já foi uma vítima. — Fin comenta
— Tá tudo aqui na ficha dela. — Olivia joga a pasta na mesa que roda e para de frente para Carisi — Ela chega amanhã. Estou avisando porque ela vem de uma realidade diferente da nossa e é nosso dever mostrá-la que, apesar das monstruosidades que vemos diariamente, nós não estamos em guerra.
Olivia retorna para sua sala e então Fin encara Amanda, que está visivelmente sem jeito. Carisi puxa a pasta para si e vê o nome da novata ao lado de uma foto de rosto onde ela está de cara fechada.
— Meu plantão acabou há cinco minutos. — ele se levanta vestindo o terno e pegando a pasta da mesa
— Ei! Não pode levar isso. — Fin chama sua atenção
— Não conte para a Liv. — Carisi sorri e se retira com a pasta na mão