Capítulo 32 CAIRO NARRANDO O silêncio da serra é diferente do silêncio do morro. No morro, o silêncio é o intervalo entre dois tiros, é o fôlego que o vapor puxa antes de gritar que a polícia tá subindo. Aqui, nessa casa de pedra encravada no meio do nada, o silêncio é uma lâmina que corta devagar, tirando fatias da minha sanidade a cada hora que passa. Já se passaram três dias. Três dias que eu sou apenas um fantasma dentro da minha própria história. Eu não bebi mais depois da primeira noite. Eu precisava da minha cabeça limpa, por mais que a sobriedade fosse um infernö de concreto. Eu passava horas sentado no alpendre, olhando para as montanhas, com as anotações decodificadas do Dário espalhadas na mesa de madeira. O papel parecia queimar. “A pequena já sabe do plano”. Essa frase era

