Pré-visualização gratuita cap 01 agora está no meu mundo
Imperador
Aqui no alto... quem manda sou eu.
Droga, fuzil, sangue, respeito, medo... tudo passa por mim.
Se tá vivo na Rocinha, é porque eu deixei viver.
Se tá vendendo, andando, respirando... é porque eu não mandei parar.
Eu sou o Imperador, c*****o.
Mas não esse de história bonita, não.
Sou o que comanda no ódio. No pulso. No terror.
Esse nome aí não veio à toa, não.
Ganhei na guerra.
Na covardia dos outros, na frieza minha.
Ganhei matando. Sangrando. Sobrevivendo.
Aqui em cima não tem justiça. Tem lei.
E a lei... sou eu.
Já enterrei X9, já arrastei traíra, já torturei filha da p**a que jurava lealdade com a boca e me vendia com os olhos.
Minha coroa é feita de chumbo e medo.
Agora tô aqui, na laje do QG, sentadão, peitoral cheio de marca que a vida deixou, só de bermuda, sem camisa, Glock no coldre e um cigarro queimando no canto da boca.
Olhando a favela como quem olha o mundo.
Porque aqui é meu mundo.
Meu castelo.
A Rocinha é minha rainha.
E eu? Eu sou o dono do corpo, da alma, do coração dela.
O rádio dá aquela chiada. Meu nome vem. Sempre vem.
Rádio on . . .
Soldado – Chefe... deu r**m. A professora lá do projeto, a Yasmin... viu coisa errada na Grota.
Traguei fundo. Soltei a fumaça devagar, tipo quem pensa antes de matar.
Imperador – Qual é dessa aí? A marrenta da escola?
Soldado – Essa mesmo.
Imperador – Viu o quê?
Soldado – O depósito. Entrou sem saber, mas viu. Já tá de papo com gente lá do projeto.
Imperador – Tá pensando em abrir o bico?
Soldado – Tá com cara que vai. Tá nervosa, falando torto.
Fechei os olhos por uns segundos. Não porque tô arrependido, mas porque já imaginei tudo: a falha, o vacilo, o estrago.
Imperador – Leva ela pra mim. Viva. Sem escândalo. Sem tiro. Sem p***a de sirene. Ela é cria, mas se meter onde não deve... leva o mesmo destino de quem não é.
Galeto já desceu pra resolver.
Rádio off . . .
Fiquei.
Fumando. Pensando nela.
Yasmin.
Loirinha enjoada. Postura de quem acha que sabe o que tá fazendo.
Olhar de desafio.
Tem corpo. Tem voz. Mas o que me chama mesmo é o peito estufado de orgulho.
Essas mulher cheia de moral são as que mais tremem na hora que a gente pega de jeito. Já vi isso mil vezes.
Já comi muita mulher nesse morro.
As p**a vêm fácil. Vêm porque eu sou o chefe. Vêm porque é status dizer que sentou pro Imperador.
Mas eu não sou o****o. Nem desesperado.
Não meto em qualquer uma.
Tem que me fazer parar.
Tem que ter presença, olhar firme, boca afiada.
Tem que me tirar do sério e me deixar com vontade de destruir e proteger ao mesmo tempo.
E essa Yasmin... tem jeito de problema dos grandes.
E eu gosto de resolver problema com a mão, com o olhar, com o peso da minha voz no ouvido.
Frio, calculista, sem coração.
Mulherengo? Sou. Mas não burro.
Ninguém me faz de o****o.
Ninguém quebra meu psicológico.
Meu coração já foi. Enterrado junto com quem tentou me mudar.
Mas ela...
Talvez seja minha próxima posse.
Talvez eu não precise matar.
Talvez eu só precise domar.
Ela vai aprender a quem ela deve respeito.
E se tiver que ser na força, vai ser.
Aqui não tem conto de fadas.
Aqui tem regra.
E a regra... sou eu.
Passou meia hora e eu já sabia: ela tava subindo.
Fiquei de pé na laje, estalei o pescoço, joguei o cigarro longe e ajeitei o fuzil no canto.
A Glock ficou no coldre, porque eu gosto de deixar ela ver que posso matar, mas escolho não fazer isso... por enquanto.
O barulho da moto subiu com o vento da noite.
Os pneus cantaram na entrada da laje.
Silêncio.
Passos.
Dois dos meus subiram com ela entre eles.
Ninguém encostou, ninguém fez gracinha. Dei essa ordem.
Yasmin chegou com o queixo erguido, mas o olhar... o olhar dizia outra coisa.
Ela tava tentando bancar a firmeza. Tentando me encarar como se não tivesse medo.
Mas eu nasci no meio do medo.
Eu conheço ele no olho dos outros.
E nela... ele tava lá. Miúdo. Mas tava.
Ela parou a uns dois passos de mim.
Não falou nada.
E eu também não.
Só olhei.
Primeiro, o cabelo loiro jogado pro lado.
Depois, a boca trincada de tensão.
O corpo... p***a. O corpo tava em guerra com a alma.
Tava ereto, duro, desafiando.
Mas os dedos tremiam.
A respiração tava presa na garganta.
Ela queria fugir... mas ficou.
Corajosa.
Ou burra. Ainda não sei.
Imperador – Sai.
Falei pros dois que tavam com ela.
Eles saíram na hora, como bom soldado faz.
Só ficou eu e ela.
O morro em silêncio, o céu pesando, a tensão pingando igual goteira.
Imperador – Tu sabe quem eu sou, né?
Perguntei, andando devagar ao redor dela.
Ela virou o rosto na minha direção. A boca se abriu.
Yasmin – Sei.
Imperador – E mesmo assim tu meteu teu nariz onde não devia? Entrou num lugar que não era pra entrar?
Yasmin – Eu não entrei de propósito. Eu só fui atrás de uma criança.
Imperador – Ah é? E tropeçou nas droga?
Yasmin – Foi um acidente.
Imperador – Acidente é escorregar na escada, Yasmin. Não é dar de cara com fardo de pó.
Ela deu um passo pra trás. Eu dei um pra frente.
A gente ficou perto.
Perto o bastante pra eu sentir o cheiro do perfume barato misturado com o medo.
Imperador – Tu é marrentinha, né? Banca certinha, fala bonito, ensina as criança... mas entrou no meu mundo agora. E aqui... a tua moral de fora não vale p***a nenhuma.
Ela me encarou. Firme.
Yasmin – Eu não tenho medo de você.
Soltei uma risada seca, sem alegria.
Imperador – Tu devia ter. Porque eu não sou homem bom, princesa. Eu não salvo, não perdoo, não tenho piedade. Tu cruzou uma linha. E quando cruza, só tem dois caminhos: ou morre... ou vira minha.
Ela arregalou um pouco os olhos. Engoliu em seco.
Yasmin – O que você quer?
Cheguei perto. Mais perto ainda. Falei baixo, rente ao ouvido.
Imperador – Quero entender o que tu vai fazer com o que viu. Se vai correr, se vai falar... ou se vai aprender que aqui quem manda sou eu. E quem desafia... aprende na dor.
Ela virou o rosto na hora, mas não respondeu.
Imperador – Tu fala bonito, professora. Mas vamo ver se tua coragem dura quando for só eu, tu... e a favela inteira em silêncio escutando teu medo.
Dêi mais um passo pra trás. Olhei ela de cima a baixo, sem esconder.
Imperador – Tu é diferente. Eu vi isso. Mas não esquece: diferente ou não... tu tá no meu mundo agora.