Yasmin
Eu não nasci no morro.
Minha infância teve outros sons.
Nada de rajada ecoando na madrugada, grito de mãe na laje ou sirene cruzando o céu.
Eu cresci num bairro calmo, onde o perigo parecia coisa de filme policial.
Onde se brincava na rua sem medo. Onde futuro era uma palavra simples, quase garantida.
Mas crescer longe da dor não me impediu de enxergá-la.
Sempre soube que meu mundo era um recorte pequeno de uma realidade muito maior, e muito mais c***l.
E eu nunca quis me acomodar nesse privilégio.
Quis entender, me aproximar, fazer parte da mudança.
Mesmo sabendo que mudança, em lugares como a Rocinha, é quase um ato de fé.
A favela não é minha origem.
Mas, com o tempo, virou meu propósito.
Meu campo de batalha.
Hoje, eu sou professora.
Dou aula num projeto social fincado no coração da Rocinha, onde o Estado só aparece armado, e as crianças aprendem a sobreviver muito antes de aprender a escrever o nome.
E eu amo o que eu faço.
Não por vaidade. Não por caridade. Por vocação.
Porque quando eu entro naquela sala de aula — suada, quente, apertada, mas cheia de olhos atentos e famintos por atenção — eu sinto que ainda dá pra fazer alguma coisa.
A escola, pra mim, é mais do que conteúdo. É o último fio que ainda liga essas crianças à esperança. É o único lugar onde elas podem sonhar sem pedir desculpas.
E quando eu tô ali, com as vozes delas me chamando de “tia”, com os desenhos malfeitos me sendo entregues como presentes, com os sorrisos ainda inocentes resistindo ao caos lá fora... eu esqueço do resto.
Esqueço do barulho do tráfico. Esqueço do risco. Esqueço da sensação constante de estar pisando em campo minado.
E foco no que importa: dar a essas crianças uma chance que talvez ninguém mais dê.
Agora... minha história pessoal é outra.
Brenda.
Minha raiz e minha dor de cabeça.
Ela veio comigo quando eu decidi me mudar pra cá. Disse que não queria me deixar sozinha nesse “inferno”.
— Brenda: “Não é sua e nunca vai te acolher de verdade.”
Mas ela nunca entendeu o porquê de eu me jogar tanto numa realidade que, segundo ela, “não é sua e nunca vai te acolher de verdade.”
Brenda é fogo solto. É descontrole, intensidade e caos. Fala o que pensa, anda com quem quer, não mede as palavras nem as consequências.
Já se envolveu com gente que eu preferia que ela nem cruzasse na rua, inclusive com Binho, o braço direito do tal Imperador.
Ela jura que não sente nada. Que é só diversão. Mas eu conheço minha irmã.
Ela sente. Sente fundo. Mas finge que não. Disfarça com risada, com deboche, com um trago de cigarro e uma dose de cachaça.
A gente vive em conflito.
Ela me chama de certinha. Eu chamo ela de inconsequente.
Mas no fim do dia, é ela que me segura quando eu tô à beira, e sou eu que puxa ela de volta quando ela tá se afundando.
Ela é minha bagunça. E eu sou o chão que ela pisa quando tudo ameaça desmoronar.
[. . .]
Quando me jogaram naquela laje, achando que iam me ver tremendo, me encolhendo feito criança assustada, o que eu fiz foi só encarar ele — o tal Imperador da Rocinha, peito estufado, olhar frio e arrogante, como se o mundo inteiro tivesse que se curvar aos pés dele.
Mas comigo? Que nada.
Eu sei que ele tem o poder, sei que o morro inteiro respeita — ou melhor, teme — esse homem. Ele se acha o imperador do mundo, dono absoluto do pedaço, mandachuva que não admite desafio. Aquele tipo que pisa forte e faz silêncio quando passa.
Mas eu não me intimido com essa marra toda, não mesmo.
Ele veio chegando, toda pose, aquela cara fechada, olhar afiado que parece querer devorar. Olhou pra mim como se eu fosse só mais uma que ia se curvar, que ia morder o chão quando ele quisesse. Só que ele ainda não entendeu que comigo a regra é outra.
Eu cresci vendo o que o medo faz com a gente; conheço essa dor de perto. Mas nunca me vi abaixando a cabeça. Nem pra ele, nem pra ninguém. Me mantive firme, com o queixo lá em cima, olhando de volta, mostrando que não ia cair fácil.
Olhei bem nos olhos dele — aquele olhar de quem acha que domina tudo e todos — e não senti medo. Senti desafio. Porque, apesar da fama e do poder, tem coisa que nem o Imperador controla. E eu sou uma dessas coisas.
Quando ele falou, eu não calei. Respondi na lata, com a raiva presa na voz. Não tinha medo ali, tinha fogo. Não é fácil lidar com um homem que se acha dono do mundo, que vive empinando o peito e passando por cima, mas que vai ter que engolir a minha presença.
— Yasmin (pensando): “Se ele quer mandar, que mande. Mas comigo? Aqui, não.”
Eu não vou deixar esse cara, por mais que seja imperador no morro, me fazer sentir pequena, nem por um segundo.
Se ele pensa que eu sou só mais uma presa fácil pra ele mandar e controlar, tá enganado.
O que ele vai descobrir, cedo ou tarde, é que Yasmin não se entrega, não se curva e não aceita desaforo. Nem do Imperador.