Yasmin
Assim que empurrei a porta de casa, a primeira coisa que fiz foi tirar os sapatos.
Não só pelo cansaço do corpo, mas porque ainda sentia o chão da laje grudado em mim, como se a presença dele tivesse se infiltrado na sola dos meus pés.
Era uma sensação estranha, pesada, sufocante.
O lugar. O silêncio. O olhar.
Aquele homem.
Fechei a porta com força, como se quisesse deixar tudo do lado de fora.
Brenda, largada no sofá, virou o rosto com lentidão.
Estava com a perna dobrada, o pote de pipoca no colo e uma expressão de quem já me conhecia demais pra não estranhar o meu jeito de entrar.
Brenda — Ih… Que cara é essa? Alguém morreu?
Joguei a mochila no canto da sala, respirei fundo e tentei encontrar coragem na ponta da língua.
Não tava pronta pra falar.
Mas também não dava pra engolir aquilo sozinha.
Yasmin — Brenda… Eu fui levada até ele.
Ela franziu a testa, sem entender.
Brenda — Ele quem?
Yasmin — O Imperador.
O tempo parou por um segundo.
A pipoca congelou no ar, entre os dedos dela e a boca.
O olhar perdeu a cor por meio segundo, e então ela sentou reta, como se o corpo inteiro tivesse levado uma descarga elétrica.
Brenda — Tá de brincadeira comigo.
Yasmin — Não tô. Me pegaram no projeto e me levaram lá em cima. Na laje. Sozinha com ele.
Brenda afundou no sofá como se o chão tivesse se aberto debaixo dos pés.
Brenda — Que p***a cê fez, Yasmin?
Afundei na poltrona, sentindo o corpo pesar como chumbo.
Yasmin — Vi o que não devia. Entrei num lugar errado na hora errada.
Brenda — c*****o… E ele fez o quê? Ele… te ameaçou?
Yasmin — Me testou. Me cercou. Quis me amedrontar. Disse que eu cruzei a linha. Que aqui quem manda é ele.
Brenda — E você?
Yasmin — Olhei no olho dele. Falei que não tenho medo.
Brenda me encarou como se eu tivesse acabado de dizer que pulei de um prédio.
Ela levantou do sofá num impulso, começou a andar pela sala em círculos curtos, inquietos.
Brenda — Tu tem noção do que tá falando? Tu sabe quem é esse cara?
Yasmin — Sei. E por isso mesmo que não vou abaixar a cabeça.
Brenda — Yasmin, pelo amor de Deus… ele não é só um nome no morro. Ele é o morro. Ele manda nessa p***a toda!
Yasmin — Ele não manda em mim.
Brenda — Ainda não. Mas esse tipo… quando não consegue dobrar na ameaça, dobra no olhar. No toque. No jogo.
Yasmin — Ele não encostou em mim.
Brenda — Mas queria, né?
Fiquei em silêncio.
Ela respirou fundo, passou a mão no rosto e cruzou os braços, olhando pra mim com um misto de medo e exaustão.
Brenda — Eu passo o dia todo num escritório ouvindo gente rica reclamar que o ar-condicionado tá gelado demais. E quando volto, minha irmã me conta que enfrentou o Imperador da Rocinha como se ele fosse um qualquer?
Yasmin — Ele não é meu dono. Nem da minha vida. Nem da minha coragem.
Brenda — Mas ele tá acostumado a ser. Você é corajosa demais pra esse lugar, Yasmin. E coragem demais aqui… mata.
Essas palavras bateram diferente.
Não porque eram novidade.
Mas porque vinham dela.
E porque, no fundo, eram verdade.
Brenda voltou pro sofá, mais devagar dessa vez.
Ficou me olhando em silêncio por um tempo, como quem tenta entender a extensão do estrago antes de limpar a ferida.
Brenda — Ele não tocou em você, né?
Yasmin — Não. Só com os olhos.
Assenti, sentindo um calafrio.
Ela soltou um “hum” e fez um gesto vago com a mão, como quem já imaginava o resto.
Brenda — Já tô até vendo… ele com aquela postura toda, te encarando cheio de marra… e você, toda durona, botando ele no lugar. Aposto que ele ficou puto.
Soltei um riso cansado.
Ela também.
A tensão deu lugar a um silêncio mais leve.
Brenda — Só me promete uma coisa.
Yasmin — O quê?
Brenda — Cuidado. Não confia nesse povo. E principalmente, não confia em homem nenhum, ainda mais homem com arma na cintura e ego do tamanho de uma comunidade inteira.
Yasmin — Prometo.
Ela pegou o controle, botou um filme qualquer no Netflix — uma comédia b***a, daquelas que a gente já viu três vezes, mas que preenche o silêncio.
Eu me aproximei e deitei com a cabeça no colo dela, igual fazia quando era criança.
Ela começou a fazer carinho no meu cabelo, como sempre fazia quando via que eu tava quebrada por dentro.
Não precisou dizer mais nada.
Só ficar ali, comigo.
Fechei os olhos.
Por alguns minutos, o mundo parou.
E mesmo com o cheiro da laje ainda grudado na memória, com o peso do olhar dele queimando minha nuca…
Naquela noite, no colo da minha irmã, com o som da TV preenchendo os cantos da casa…
eu consegui respirar.